Os perigos do mundo virtual

Roubo e vazamento de dados, fraudes e pornografia infantil são crimes cada vez mais comuns na web 12 de abril de 2018

“Tive meu cartão de crédito clonado três vezes desde 2016”, conta a jornalista Halanna Andrade. “Na primeira vez, percebi quando fui olhar minha fatura no site e vi uma compra de uns 100 dólares que eu não havia feito”. Gibram Paiva, engenheiro civil, foi vítima do mesmo crime que Halanna: “Quando percebi que as compras estavam sendo realizadas por outra pessoa, liguei para a operadora do cartão e pedi que cancelassem todas as compras que não reconheci e, automaticamente, eles bloquearam o cartão”, relata.

Fraudes financeiras, invasão de computadores com códigos maliciosos para roubar senhas, dominação de perfis pessoais, destruição de dados, pedofilia, exposição de imagens pessoais, assédio, injúria racial e até mesmo espionagem, entre muitos outros, são crimes comuns no ambiente virtual. O problema não está na internet em si, mas no anonimato, que facilita e torna “segura” a ação dos criminosos.

De acordo com a empresa de segurança virtual Symantec, no Brasil, 62,2 milhões de pessoas foram vítimas dos chamados “cibercrimes” em 2017. Ao todo, elas tiveram um prejuízo de 22,5 bilhões de dólares.

Para a advogada Luíza Paiva, atualmente, a maior parte dos processos judiciais ativos nos juizados especiais de Defesa do Consumidor se referem a fraudes relacionadas a serviços que os consumidores não reconhecem. “Hoje em dia, acaba sendo muito fácil ter acesso a dados de qualquer pessoa, e isso já viabiliza a criação de contas e assinaturas digitais de contratos disponibilizados através da internet”, pontua.

Para evitar esse tipo de situação, é aconselhável não divulgar na internet dados pessoais, como RG, CPF, números de cartões de crédito e benefícios. Quando for necessário usá-los, o internauta deve verificar se os sites que exigem essas informações possuem selos e certificados de segurança.

Outro cibercrime que tem crescido no país está relacionado a divulgações de fotos pessoais. De acordo com o site Huffpost Brasil, 300 pessoas tiveram fotos íntimas vazadas em 2016, e dessas, 202 eram mulheres. Elas são as maiores vítimas desse tipo de crime, principalmente na adolescência: entre menores de 18 anos, 80% são mulheres.

Júlia* morava em uma pequena cidade de Minas Gerais e se relacionava secretamente com um rapaz comprometido. O casal tinha o hábito de trocar fotos íntimas. Quando a namorada do rapaz descobriu, publicou as fotos dela na internet, o que gerou um grande alvoroço na localidade.

Desnorteada e envergonhada, Júlia optou por começar uma nova vida em Vitória da Conquista. Ela não denunciou a moça que fez as publicações e nem reagiu, apenas apagou as fotos que encontrou nas redes sociais. Mas ficou com sequelas, até hoje. Passados mais de dois anos do constrangimento, ainda convive com a depressão causada pela exposição. “Estou tendo acompanhamento psicológico, mas minha rotina continua a mesma: já pensei em me suicidar, tomo quatro remédios de tarja preta por dia, tenho insônia, não sinto fome e não sinto mais vontade de sair”, relata.

Bianca* também teve sua privacidade violada. Ela participava de um grupo com seis membros no Facebook, onde sempre conversava sobre diversos aspectos de sua vida, e também compartilhava fotos. “Teve um dia que estávamos postando fotos mais sensuais, então eu postei uma nude nesse grupo, e essa foto foi parar em outro grupo do Facebook com mais de 100 pessoas de Vitória da Conquista”, conta.

O grupo era o “Gatinhas VCA +18”, que disponibilizava fotografias de garotas da cidade e região, inclusive menores de idade, para os seus participantes. “Quando soube (que a foto tinha sido vazada), eu entrei em desespero e fiquei triste também, porque estava sofrendo ataques virtuais de várias pessoas”, diz Bianca.

 

Por incentivo de amigos próximos, Bianca denunciou o crime com base na lei Carolina Dieckmann. “A situação não foi resolvida, nem ao menos amenizada. A única coisa que aconteceu foi o grupo ter sido excluído, por conta de outras denúncias”, relata. Apesar de tudo, ela diz que se sente mais segura hoje em dia. “Na época, esse tipo de crime não tinha muita atenção, depois, com o aumento no número de casos como o meu, acho que as coisas foram ficando mais fáceis de serem resolvidas”, assegura.

Como Julia, Bianca também foi atingida emocionalmente. “O trauma ainda permanece por um tempo. Ao sair na rua, ir à faculdade, isso tudo refletia em mim. Mas isso também serviu como uma lição de como manter relações pessoais, e ter atenção com quem a gente está trocando informações, etc. Apesar de tudo, a culpa nunca é da vítima”, conclui.

De acordo com a advogada e professora Poliana Policarpo, autora do livro “Cibercrimes na e-democracia”, a vítima deve colher provas, sejam elas conversas no Whatsapp e outras redes sociais, áudios ou ligações gravadas. Em seguida, deve levá-las a um cartório. “Existe uma coisa chamada ata notarial, que é quando você vai a um cartório e a pessoa que é responsável por fazer a ata vai transcrever o que viu. O tabelião tem fé pública, então, ali você vai fazer uma prova pré-constituída para o judiciário”. Por fim, a pessoa deve procurar uma delegacia e fazer uma denúncia. “Mesmo que a investigação não seja concluída, mesmo que você não ache o criminoso, você tem que denunciar”, aconselha.

*Nomes trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

 

SAIBA MAIS: Já ouviu falar da deep web?

Interface “obscura” da internet ainda é cheia de tabus. Foto: Avoador.

Imagine um iceberg: ele tem uma pequena parte à mostra no oceano enquanto a maior parte encontra-se embaixo da água. Enquanto o internauta regular utiliza apenas a “ponta do iceberg” – a surface web ou a internet propriamente dita – há uma outra rede, a deep web, que é uma camada mais profunda do mundo virtual, onde é possível encontrar de tudo: vendas, pornografia, pedofilia.

Uma das formas de navegar por lá é por meio do The Onion Router (TOR), uma rede que dificulta a identificação ao acessar determinado conteúdo. Mesmo dificultando o rastreamento, o acesso não é criptografado, logo, não garante a inviolabilidade dos dados de quem utiliza.

Para Roque Mendes, professor do curso de Ciência da Computação da Uesb, a deep web não é uma ferramenta nem boa nem ruim, pois com ela “as pessoas conhecem um pouquinho mais de segurança da informação, exploram falhas do sistema dos outros e conseguem pegar dados”, diz

De acordo com a advogada Policarpo, a deep web é também uma ferramenta útil a policiais e ativistas de direitos humanos. “Andei pesquisando e conversei com investigadores e policiais federais, por exemplo, e têm alguns núcleos especializados em investigar os cibercrimes (por meio da deep web)”, conta. Nessa rede, também é possível encontrar de forma gratuita variados tipos de download, incluindo artigos científicos, livros raros, manuais, tutoriais e guias diversos.

 

 

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