Porque sou negro: um esclarecimento definitivo

"Eu descobri que ser negro era uma forma de me orgulhar do meu pai" 24 de fevereiro de 2019

Nasci de uma mãe branca e de um pai negro. Minha mãe, professora e vereadora em nossa cidade natal, Macaúbas, filha de uma tradicional família sertaneja. Meu pai, um sargento negro, nascido em Coração de Maria e criado por um tio no bairro pobre e negro da Gengibirra de Baixo (largo do Tanque), em Salvador. Meu pai era sargento da Polícia Militar e havia sido nomeado delegado de polícia em Macaúbas e lá conheceu a minha mãe. Casaram-se e eu nasci, primogênito de uma família de seis filhos. Na minha certidão de nascimento consta a cor branca.

O casamento dos meus pais, a princípio, não agradou ao meu avô, que ficou um ano sem receber a bênção da minha mãe, por ter se casado com um negro. Mas meu pai era “um preto da Baixa da égua de Salvador” gente boa e conquistou a afeição e respeito de toda a minha família, inclusive do meu redimido avô. Meu pai era um homem de qualidades éticas e morais excepcionais, além de muito agradável e sedutor nas suas relações, conquistando o coração de toda a minha família materna. Sei que todos os meus parentes nutriram um grande amor por ele e guardam a sua memória com respeito.

A entrada do meu pai na família da minha mãe custou-lhe afastar-se de todo o seu vínculo familiar e assumir, completamente, a família da minha mãe. Não conheci os meus avós paternos, parte de meus tios e até hoje não conheço todos os meus primos, tampouco uma irmã, filha do meu pai antes de se casar com a minha mãe. Nem os meus sobrinhos filhos dela. O que isso significava? Meu pai teve que negar os seus próprios vínculos familiares para se sentir merecedor da gratidão da minha família materna. Imagino o sofrimento psíquico que isso não acarretou à sua pessoa. Mas ele aceitou tudo isso para nos embranquecer. Dessa forma ele achava que estava fazendo o melhor para nós, seus filhos.

Na década de 1960, quando eu nasci, a ideia de democracia racial gozava de uma ampla aceitação no Brasil. E, inclusive os próprios negros que se sobressaiam acreditavam nela. Mas meu pai tinha clareza que o que estava escrito na minha certidão de nascimento, não escondia o meu cabelo cocô de rolinha. Era necessário, para compensar esse “defeito de cor” se sobressair nos estudos. Ser um doutor de anel no dedo. A meritocracia era uma ideia que também gozava de amplo consenso à época.

Na década de 1970, por esforço pessoal, meu pai ascendeu economicamente, o que nos garantiu uma juventude abastada. Morávamos em uma mansão, em Vitória da Conquista, servida por empregados, tínhamos motorista particular e estudávamos nos melhores colégios das elites. E foi no colégio das elites que eu descobri que mesmo sendo um dos melhores alunos, eu era, indiscutivelmente, um negro. Minha diferença racial saltava a olhos vistos nos meus processos de socialização juvenis. Eu era diferente da grande maioria, eu e meus irmãos éramos minoria absoluta, do estudantado do São Tarcísio. Mesmo que a dona da instituição fosse uma mulher negra, o São Tarcísio era uma colégio da fina flor da elite branca conquistense.

Aos 14 anos começou a cair a minha ficha: eu era negro. Mas como eu era um negro inteligente e filho de pais com um certo prestígio e reconhecimento eu era aceito. Mas eu era o negro, o cocô de rolinha. A diferença racial me excluía claramente da branquitude do meu grupo social de convívio. Aos 15 passei para vestibular de Direito na Ufba. Nessa época, quando fui fazer uma nova carteira de identidade, no Instituto Pedro Melo, em Salvador, contestei a cor parda que eles anotaram em minha ficha. Eu dizia que era negro e eles retrucaram: você é pardo. Nasci branco, virei pardo. Por muito tempo, as pessoas contestavam quando eu me dizia negro, como uma forma de me acolher, de demonstrar que eu fui aceito – “o que é isso, moço, você é quase da minha cor!”. Eu ouvi essa por toda a minha juventude. Mas esse quase branco me incomodava sobremaneira.

Desde muito cedo eu sabia que não era igual a muitos dos meus amigos. E desde então eu vivi a crise entre saber-se quase branco ou assumir a luta pela afirmação positiva da negritude e me incluir nessa situação de cor. Eu nunca fui branco. Mesmo com o cabelo raspado a máquina 2, mesmo vestido com as melhores grifes, mesmo sendo filho de gente rica, mesmo sendo inteligente, eu não me sentia reconhecido pelo meu grupo geracional como um branco. Para mim, eu era um negro com qualidades e por isso eu tinha a condescendência deles. Por muito tempo fui humilde com os meus amigos, envergonhado na convivência com as suas famílias brancas, como um gesto inconsciente de agradecimento, por ter me aceito junto a eles.

Na universidade a coisa começou a pesar na minha cabeça. Meu acesso aos pensadores que refletiram sobre a questão racial no Brasil não respondiam ao meu incômodo. Eu vegetava nessa condição de mulato. Um mulato é um não ser. Mulato não é preto, simplesmente. O que significava ser mulato em minha cabeça? Significava que eu tinha me livrado de ser negro, mas que eu não era branco. E para continuar aceito em meu grupo de convívio, eu tinha de me superar. Talvez esse seja o motivo da minha dedicação à leitura e aos estudos. Assim eu me sobressaia pela inteligência e me livrava desse defeito de cor. Subjetivamente isso não foi fácil.

O racismo é um conteúdo traumático para mim. Uso o conceito de trauma aqui, tal como foi pensado por Freud: uma vergonha moral que eu tentava esconder, mas que se manifestava como um sofrimento inconsciente recorrente. E o pior é que eu não tinha ninguém para conversar sobre isso. Havia poucas pessoas como eu. Era uma solidão de amargar. Não conversava e não lia nada que eu me identificasse. Era uma solidão pavorosa esse incômodo. Quando eu tentava puxar o assunto, todo mundo reagia, como se isso fosse uma besteira minha. Mas a coisa continuava a machucar.

Nessa época, eu e minha irmã, Gal Novato, começamos a refletir sobre a questão negra. E forçar o meu pai a nos contar o seu passado e a nos apresentar à sua família. Para meu susto de pequeno-burguês, fui certa manhã, num bairro negro-popular de Salvador dos mais pobres. Talvez tenha sido o primeiro casebre que eu adentrei na minha vida, foi o casebre onde morava o irmão do meu pai, que era gari da LIMPURB e a sua filha, minha prima, que era semianalfabeta, pediu para ser empregada doméstica no apartamento bacana que eu e a minha irmã morávamos. Isso foi demais para a minha cabeça. Isso mudou tudo na minha cabeça.

Quando começamos a nos envolver com o candomblé, meu pai começou a se revelar mais e mais. Ele não só conhecia profundamente a religião como era filho de Ogum. Isso justificava o caríssimo anel de ouro 18, com a efigie de São Jorge, que o meu pai sempre ostentou no dedo. Mas isso nunca seria revelado a nós, se nós não tivéssemos exigido. Tudo era um oculto percebido. Meu pai ficou mais alegre e próximo de nós nessa época. Começamos todos a nos enegrecer. Tardiamente a memória pessoal de meu pai e a sua construção enquanto pessoa passou a existir em nossas vidas.

Só com 16, 17 anos, meu pai me foi, realmente, apresentado. Na minha cabeça meu pai não existia antes de ter se casado com a minha mãe. E meu pai era negro. E ele não existia enquanto uma herança cultural em nossas vidas porque era negro. Nessa época liberou geral lá em casa e passamos a comer dendê em nossas suntuosas refeições, mesmo deixando marcas indeléveis nos caríssimos panos-de-boca de linho de mamãe. Depois disso, muita coisa mudou e muitos conflitos me inquietaram.

Eu amava e respeitava demais o meu pai, portanto, eu não podia negar a sua história ou inferiorizá-la. Eu descobri que ser negro era uma forma de me orgulhar do meu pai. Nós somos negros porque para sermos brancos precisaríamos negar o nosso pai. E isso nunca aceitamos. Todos nós, filhos do meu pai, se assumem negros. A valorização da cultura e da história dos negros começou por esse motivo, em todos nós, os três filhos militantes: eu, a minha irmã Gal Novato e o meu irmão Ayrson Heráclito. Mas era tudo confuso.

Nas décadas de 1980/1990, a discussão racial estava parcialmente estagnada no Brasil. A pós-modernidade desconstruía tudo; inclusive as nossas mínimas certezas raciais. Vivíamos um não-lugar constrangedor. Éramos pessoas que não existiam culturalmente. Estávamos abandonados em um mundo de brancos. Eu era negro, apesar de o bloco afro Ilê Aiê não me aceitar como sócio. Só nos anos 2000 foi possível deixar mais claro a minha identidade negra, mais especificamente com a lei 12990/2014. Nasci branco, vivi pardo e tem muito pouco tempo que sou, legalmente, negro. Assumir-se negro para mim, significa que eu não serei inteiro se o meu pai não for, simetricamente, incluído.

Enquanto os negros forem subalternizados no Brasil pela sua marca de cor, eu serei negro. Eu honro demais a memória do meu pai. Todas as vezes que eu vejo um negro em situação de extrema pobreza eu sofro. É como se um dos primos que eu não conheço pudesse ser um deles. É como se a história do meu pai, morando de favor na casa de um parente postiço, tendo que aumentar a idade para entrar na Polícia e fugir do destino de miséria e marginalidade me fosse contada de novo. Os negros obedientes recebiam cargos subalternos na Polícia. Ali eles respeitavam os superiores brancos e puniam os próprios pretos, repetindo a tradição da festa do Rei do Congo. Os próprios negros punem os negros no Brasil como forma de legitimar a punição. Então um negro bom, como não podia estudar, virava Polícia e se calava. Mas eu estudei. E abri a boca.

Foto: arquivo pessoal

Para mim, a identidade é um fenômeno relacional e em trânsito. É performativa e tem claras intenções políticas. Não acredito em identidades fixas e naturais que definem a essência de alguém ou de algum grupo. Elas só existem em determinada circunstância histórica e motivadas por embates políticos. Portanto, a minha forma de reconhecimento racial significa um compromisso de luta antirracista. Eu sou negro, porque para além dos marcadores de cor, eu estou comprometido politicamente com a causa negra. Todas as identidades são arbitrárias. Mas eu sou um negro bom de briga. Vai encarar?

* Alberto Heráclito é um escritor negro, professor aposentado de História da Bahia da Uefs (Universidade Estadual de Feira de Santana) e colaborador convidado da Editoria Jornalismo Importa.

Foto de capa: arquivo pessoal

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