Candidaturas de mulheres aumentam em 2020, mas ainda não representam a população feminina de Conquista

Dos 440 candidatos ao parlamento municipal de Vitória da Conquista, apenas 143 são mulheres, o que equivale um percentual de 32% de todas as candidaturas 14 de novembro de 2020 Cíntia Gonçalves, Júlia Andrade, Leila Costa, Raquel Rocha, Sebastião Nascimento e Valéria Marina.

Em 2020, há mais mulheres na disputa eleitoral. De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dos 545.452 candidatos a prefeito, vice e vereador, 180.799 são mulheres, um quantitativo três vezes maior que em 2000. O de candidatas a prefeita é bem menor, 2.496 (ou 13%), contra 174.284 de candidatas a vereadora (34%).  Na Bahia,  há 188 mulheres como candidatas a prefeita, 275 a vice e 12.783 a vereadora.

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Em Vitória da Conquista, os dados não são muito animadores. Dos 440 candidatos ao parlamento municipal, apenas 143 são mulheres, o que equivale a um percentual de 32% de todas as candidaturas. Essa participação corresponde a apenas 2% a mais do que a exigida pela Lei Eleitoral, que é de 30%  para o gênero. Entre os sete candidatos ao executivo municipal, há apenas uma mulher como cabeça de chapa, e duas como vice-prefeitas. No entanto, dos 231.176 eleitores da cidade 54% do percentual são do gênero feminino. 

Na Câmara de Vereadores de Conquista, dentre os atuais 21 parlamentares, há apenas três mulheres que foram eleitas em 2020. Em 180 anos de existência, a cidade nunca teve uma mulher à frente do cargo do executivo municipal. Em 2020, com a aprovação pelo TSE da obrigatoriedade de um mínimo de 30% de candidaturas femininas e que os partidos direcionarem 5% do Fundo Partidário para as campanhas de mulheres, existe a possibilidade de mais candidatas eleitas. Só que o ambiente dominado por homens, com muito machismo, ainda dificuldade a ascensão da mulherada na política. 

De acordo com a única candidata à Prefeitura de Conquista, Maris Stella Shiavo (Rede), que durante a atual campanha, tem sofrido ataques de outras candidaturas masculinas de forma agressiva e desrespeitosa,  as candidaturas das mulheres ainda ocupam um lugar periférico no processo eleitoral. “Dessa forma, as candidaturas femininas surgem como uma espécie de concessão e não como deveria ser, uma proposta de representatividade justa e honesta no executivo e legislativo. O espaço da mulher foi institucionalizado na posição de vice”, enfatizou. “Não existe protagonismo feminino de fato! A luta da mulher ainda é muito longa para garantia do respeito e igualdade de participação na política brasileira”, enfatizou. 

Para a candidata a vice-prefeita de Conquista na chapa de Zé Raimundo, Luciana Oliveira (PCdoB), a baixa representatividade das mulheres na política é um problema estrutural e histórico. “Infelizmente, culturalmente a política foi construída como lugar de e para homens. Só vamos avançar garantindo ferramentas concretas para uma maior participação das mulheres na política. Uma legislação pró-mulheres é uma delas.”

O padrão é a eleição deles para cargos de poder, especialmente na política. Já para elas caberia os papéis do cuidado e fora dos espaços decisivos nos mais diferentes âmbitos. Para cientista social e professora do curso de Sociologia da Uesb, Marcela Pessoa, isso se deve a um problema estrutural, em que as mulheres não são estimuladas a ocupar o espaço público devido à uma construção do imaginário social de que a mulher é a

cuidadora do lar.

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O direito ao voto feminino só foi conquistado em 1932, sendo o país um dos últimos países da América do Sul. Antes disso, votar era algo restrito à mulheres casadas que obtinham a autorização do marido, viúvas e solteiras com renda própria. A primeira mulher brasileira eleita a um cargo público foi Luzia Alzira Teixeira Soriano, que também é a primeira prefeita de um município na América Latina. Na campanha, eleitoral de 1928, ela foi atacada com ofensas misóginas, mas foi eleita com mais de 60% dos votos, e assumiu o cargo em 1929.

Daquela época aos dias atuais, a luta para romper a estrutura criada pelos homens e colocar  mais mulheres no poder continua. A candidata a vereadora em Conquista, Keu Souza, defende que preciso superar essa realidade. “Eu sou uma mulher preta, periférica, mãe solo, mulher lésbica e que sempre combati essas opressões”, destacou. “Nós somos a maioria da população, e a outra parte dessa população são filhos, logo, sem nós mulheres, não existe democracia. Nós vamos ocupar mesmo, vamos ocupar e fazer a diferença, vamos fazer essa revolução tão urgente.” 

Direito ao voto à escolha consciente 

Para as mulheres na política, são muitas batalhas a serem vencidas. Uma delas inclui conquistar o voto de outras mulheres, a maioria do eleitorado no Brasil.  Luciana Oliveira, aponta uma perspectiva de mudança a partir delas: “Nesta eleição, pude ver de perto o quanto as mulheres estão conscientes dos problemas do município e o quanto elas estão abertas ao diálogo, à participação”.

No entanto, há uma diversidade de opiniões sobre em quem  votar e o porquê  de escolher mulheres. Algumas eleitoras nem se dão conta da importância de votar em outras semelhantes, outras já buscam a representatividade feminina na política, enquanto outras alegam que o gênero não é o único fator decisivo para a escolha do representante. 

A estudante e empreendedora, Anna Clara Macêdo, de 19 anos, conta que nunca colocou o gênero em pauta como um fator decisivo ao escolher um representante político. Ela só se deu conta dessa questão ao ser questionada para esta reportagem.  “Eu acho que falta para votar é justamente uma conscientização, porque eu me considero uma mulher feminista, porém nunca tinha parado para pensar sobre isso. Elas vão ser eleitas a partir do nosso voto, a partir do meu voto.” Por outro lado, há eleitoras, como a universitária de Biotecnologia, Clarice Santos Santana, de 22 anos, que tem percebido mais empoderamento e consciência política das mulheres. “Hoje em dia o número de mulheres envolvidas em empresas e cargos de liderança aumentou muito, inclusive já é maior que o dos homens.“

Já a servidora pública Erika Silva de 32 anos, disse nunca ter votado em uma mulher para as eleições municipais de Poções devido a falta de candidatas com pautas voltadas à classe feminina. “Nenhum nome de candidatas nunca me chamou a atenção, até porque nossa política doméstica ainda é muito masculinizada e, muitas mulheres se filiam a partidos que não defendem nenhuma causa feminina.”

Há ainda quem analisa as propostas e a conduta das candidatas. É o caso da estudante de História, Beatriz Braga, 20 anos. Antes de votar, ela analisa se as propostas e as condutas dessas candidatas condizem com políticas públicas que auxiliam no desenvolvimento das mulheres e de outros setores minoritários. “O fato de haver mulheres na política, uma minoria, não significa que elas estejam com projetos voltados ao público feminino.” Cautela na escola também faz parte da escola da massoterapeuta Tatiane Moraes, 25 anos. “Tomo muito cuidado para não apoiar uma candidata e junto estar apoiando um partido ou coligação que apresente propostas contrárias às pautas feministas. Por mais que não exista um partido totalmente feminista, temos que evitar os que defendem atitudes e propostas claramente machistas.”

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Foto da capa: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

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