Carta do papai para Luísa

Em um país que ocupa a 5ª posição no ranking mundial de feminicídio, Lucas deseja que a filha viva em um mundo melhor e menos cruel com as mulheres 7 de dezembro de 2019

Oi, filha! Enquanto o papai te escreve essa carta, a mamãe está deitada, de repouso, para que você possa nascer com o mínimo de riscos possíveis. Hoje é dia 06 de dezembro de 2019 e seu nascimento, por cesárea, estava programado para o dia 19 do mesmo mês. Isso nos deixa assustados. Estamos parindo uma mulher nos anos 2020. Empoderada que és, escolheu o seu próprio momento para brilhar, e nós, só esperamos para te admirar desde os primeiros instantes de vida.

Durante os últimos dias, o papai e a mamãe têm passado por momentos inesperados. Descobrimos o medo de ter um bebê prematuro, por mais que você será, em termos médicos, uma “prematura tardia”. Vimos de perto a realidade de mulheres de classes sociais diferentes. Acompanhamos o que, de fato, acontece no sistema público de saúde.

Foi difícil estarmos em um lugar praticamente fechado, com muitas pessoas sentadas e em pé, em uma primavera ardente em Vitória da Conquista. Sua mãe sentia contrações e um calor acima do normal que a fazia suar absurdamente. Fomos atendidos por uma enfermeira que anotou todas as nossas preocupações e classificou a situação da sua mãe como de médio risco. Aguardamos mais uma vez e demos de cara com um médico que, no auge do seu plantão, nos atendeu com uma bela “cara de bunda”. Ele desconsiderou prognósticos de dois outros médicos e passou os mesmos exames feitos há menos de duas horas.

Na sala de ultrassom, acompanhamos de longe o dilema de uma mulher negra que, sozinha, sofria um aborto e sentia fortes dores antes de ser atendida, o que aconteceu minutos antes do nome da sua mãe ser chamado. Após o atendimento, sua mãe se deparou com a moça ensanguentada no banheiro e tomou um grande susto.

De volta à sala da emergência, fomos atendidos por um outro médico, ainda residente, que agiu com a sensibilidade necessária a qualquer profissional de saúde. Ele realizou um novo exame e nos tranquilizou. Não fazíamos ideia do que acontecia do lado de fora, onde esperavam sua vó Liane, seu vô Itamar, seu tio-avô Rodrigo, sua tia-avó Ludmilla, sua tia Camilla e seus primos Samuel e Ariel, até escutarmos gritos ensurdecedores. O bebê de uma mulher que aguardava gemendo de dor na recepção resolveu se apressar e começou a deixar a barriga da mãe, lugar seguro onde você também se encontra agora, filha. Demorou até que alguém tomasse uma atitude. Sua vó bradou por um atendimento imediato até que entraram com a mulher na emergência, onde em menos de cinco minutos, ela pariu, ali mesmo, longe da equipada sala de parto.

Pode ter certeza, filha, que essa experiência deixou sua mãe ainda mais forte e seu pai ainda mais consciente de como é a vida das mulheres neste mundo. Espero que, se um dia você ler esse texto, o mundo seja muito melhor. Que seja um lugar onde as mulheres não recebam salários mais baixos por causa do seu gênero, onde o número de mães criando seus filhos sozinhas que, no Brasil hoje, passa dos 11 milhões, tenha diminuído drasticamente. Um lugar que não ocupe mais a 5ª posição no ranking de países que mais matam mulheres de forma violenta e nem um mundo onde seis mulheres morrem a cada hora vítimas de conhecidos.

Filha, escrevo essa carta enquanto na TV está passando o filme de Harry Potter (o qual você não tem a opção de não gostar). Desejo um mundo com mais “Hermiones”, “McGonagalls” e “Mollys”, mulheres fortes. Luísa, segundo o pai Google, seu nome significa “guerreira gloriosa”, “combatente famosa” e “célebre nas batalhas” e, neném de pai, não me restam dúvidas de que você será uma mulher com toda essa força.

Te amo mais do que eu possa medir!

Com amor, papai!

Foto de capa: Nanda Feminella

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