Machismo nas relações do dia a dia

28 de abril de 2016

Janaína Oliveira, estudante de Psicologia, 26 anos, assim como muitas jovens da sua idade, foi a uma festa “destas de renome”, com mais duas amigas. Em um dado momento, Janaína se afastou das amigas ao curtir a música. Do meio da multidão, um homem apareceu e tentou beijá-la a força, mas ela não aceitou. Isso poderia acabar aí: o homem entendia o “não” e partia para outra. Mas o desfecho foi outro: uma discussão começou e Janaína foi acusada de se julgar superior, de estar “de frescura”.

Luana Lavisky, estudante de Pedagogia, 19 anos, leva cantadas com frequência na rua. Quando isso acontece, ela se sente extremamente desconfortável, ainda que as cantadas não sejam agressivas ou ofensivas. “Você é filha de padeiro? Porque você é um sonho”, ou “você tem colher aí? Porque eu tô dando sopa” são algumas das frases mais comuns que Luana escuta e considera de um conteúdo ridículo. Mas prefere não rir “para não dar bola, e aí eles tomarem ousadia, perderem o respeito”, comenta. Temerosa, então, ela apenas fica séria e passa direto.

Luana e Janaína possuem algo em comum: são vítimas do machismo. O simples fato de serem mulheres já é o suficiente para limitar suas ações e coloca-las sob o constante medo de sofrer alguma agressão, seja física, verbal e/ou sexual. Infelizmente, elas não são as únicas. Para o psicólogo do Centro Universitário de Atenção à Saúde (CEUAS) do campus da Uesb de Vitória da Conquista, Wagner Lemos de Souza, “nós vivemos hoje em uma sociedade machista”. Para testar a existência dessa realidade, a redação do Avoador fez uma enquete nas ruas da cidade com 68 pessoas de ambos os sexos que passavam. As perguntas traziam temas do cotidiano a partir da perspectiva machista. O resultado mostrou que a maioria discorda dos questionamentos, porém, em todos os cenários, houve aqueles que assentiam com este ideais.

Não é só nas ruas ou nas festas que o comportamento machista se manifesta. Nas redes sociais, é comum encontrar agressões às mulheres em comentários depreciativos por causa da roupa ou do comportamento. O uso de palavrões é recorrente. É o caso das postagens e comentários que nossa redação encontrou na internet.

Reprodução Redes Sociais

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Souza acredita que o machismo ainda se faz presente porque os padrões de comportamento das pessoas são repassados de geração a geração. As primeiras relações de alguém são com os responsáveis pelo seu desenvolvimento, ou seja, os membros da sua família. Dessa forma, a família contribui para a manutenção dos antigos modelos sobre como o homem e a mulher devem ser.

A saída para superar esse padrão está no conhecimento, Souza defende. Nesse sentido, as escolas e a universidade teriam um papel fundamental como fomentadoras de diálogos e reflexões sobre as práticas tradicionais. “Uma sociedade é civilizada e rica simbolicamente quando nós temos essas explorações do pensamento – da coletividade”, afirma.

Já o sociólogo e professor do curso de Ciências Sociais da Uesb, Itamar Pereira, explica que o machismo tem uma explicação histórica. Segundo ele, até mais ou menos a metade do século XX, a grande maioria da população brasileira vivia no campo, desenvolvendo as atividades agrárias e em convívio estruturado em relações sociais tradicionais. “Então foram desenvolvidos, em termos de gênero, os papeis considerados masculinos e os considerados femininos”, afirma. Criou-se, assim, o estereótipo da mulher sensível, que cozinha, é carinhosa, obediente e cuida da casa e dos filhos enquanto o marido sai para trabalhar.

Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1950, a população rural brasileira correspondia a 63,84% do total de habitantes. Em 2010, esse número caiu para apenas 15,64%. Com mais moradores nas cidades, as relações sociais se tornaram mais complexas e os antigos papeis definidos para homens e mulheres passaram a ser questionados.

Ainda que o estereótipo da mulher dona de casa permaneça, assim como a exigência de determinado padrão de comportamento feminino, ao longo dos anos as mulheres conquistaram direitos, como o de votar. No Brasil, esse direito foi conquistado em 1932, na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte. Em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, a Carta das Nações Unidas reconheceu a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Além disso, a Organização Internacional do Trabalho aprovou em 1951 a igualdade de remuneração para função igual nos trabalhos masculinos e femininos. A Lei Maria da Penha, criada em 2006, também é um marco na luta das mulheres, aumentando o rigor nas penas para agressão doméstica. Seu nome homenageou a farmacêutica cearense que sofreu violência doméstica por anos e sobreviveu a duas tentativas de homicídio do ex-marido.