Maternidade: as dores e delícias de ser mãe

28 de abril de 2016

Começo escrevendo este texto sob o olhar de um bebezinho de quase dois meses. Foi tudo tão rápido que já se passaram dois meses! E eu pretendia contar a nossa história, de mãe e filha, logo após o parto, mas não consegui. Como mãe de primeira viagem, imaginei que teria tempo para escrever nos primeiros dias de maternidade. Ledo engano. Entre as alegrias de ser mãe e as dificuldades após o parto, eu confesso ainda estar sob contraditórios sentimentos e sensações.

Minha filha nasceu por parto normal, que, vamos combinar, de normal só tem o nome. Minhas dores, pelo menos, não foram nada normais. Acredito que a maratona materna começou ali. Digo maratona porque, depois de ser mãe, associo a maternidade a uma longa corrida, que exige preparo físico, resistência e equilíbrio psíquico. Então, para mim, a relação está aí: o pós-parto requer ainda mais das mães. Só que há este problema: muitas mães não assumem o cansaço desta maratona, talvez com medo de que as pessoas confundam o cansaço com a falta de amor ao bebê.

Nunca senti uma dor igual, mas a sensação de ver minha filha sair de mim, do meu ventre, foi maravilhosa. Foi incrível! Só de relembrar, fico emocionada. Depois de 8 horas de contrações, Maria Eduarda nasceu às 13h do dia 3 de janeiro de 2016, no dia do meu aniversário. Naquele momento, eu renasci junto. Tenho a sensação de que dentro de mim nasceu outra pessoa, nasceu uma mulher, uma mãe. É até redundante dizer que este foi o aniversário mais feliz da minha vida. Ao invés de ganhar uma boneca, o presente mais comum que recebia quando criança, eu tinha em meus braços um bebê de verdade, que exigia minha atenção plena e que dependia do meu cuidado e do meu amor para viver. Apesar da alegria, a maternidade não é simples e, às vezes, não é nada divertida.

Espanta-me o fato de as mães não falarem muito sobre a dura realidade da maternidade. Quero esclarecer que não é minha intenção assustar as futuras mães, longe disso, só gostaria que elas não se iludissem, sentissem enganas, frustradas ou pensassem que não são boas mães, até porque muitas delas ficam encantadas e acreditam em uma maternidade igual a de comercial de televisão, ou das novelas. O problema é que nós, mães de primeira viagem, não temos noção das dificuldades que vamos enfrentar depois do nascimento do bebê.

Logo após o parto, por exemplo, fui tomada por duas sensações. Primeiro me senti inexplicavelmente maravilhada pela sensação de ser mãe. Depois percebi que minha vida tinha mudado completamente. Imediatamente a realidade “bateu à minha porta”: a amamentação. Nunca pensei que amamentar seria um problema, sabia que eu poderia ter certa dificuldade, mas não tanta. Acredito que esse assunto é muito pouco discutido e poucas mães relatam as suas dificuldades. Admito que fiquei desesperada quando não estava conseguindo dar leite para minha filha. Sentia-me impotente e preocupada.

Na minha inocência, acreditei que amamentar seria uma ação natural que aconteceria de forma simples, mas não aconteceu. As primeiras horas de vida da minha filha foram muito difíceis. Nunca vou esquecer aquela noite, a primeira que eu passei em claro ao lado dela. Fiquei apreensiva, insisti em dar o peito e, quando ela dormiu, eu esperei qualquer sinal para tentar amamentá-la novamente. Sabia que ela não tinha mamado o suficiente.

Para piorar ainda mais, fui informada pela enfermeira, de forma grosseira, que se não amamentasse minha filha, ela poderia ter hipoglicemia e ir parar na UTI. Eu percebi no seu tom de voz uma desconfiança de que eu não queria amamentar. Fiquei com muito medo que pudesse acontecer alguma coisa com ela. Então, não desistia, tentava inúmeras posições para ela conseguir pegar o bico do peito, e ela não conseguia sugar o leite. Sabia que ela estava com dificuldades e que precisava da minha ajuda para se alimentar. No dia seguinte, o problema continuou e a médica identificou que ela estava fraca e nos encaminhou ao Banco de Leite Materno.

Ao chegar, fui surpreendida: a enfermeira tirou a roupinha da minha filha e me pediu paciência. Segundo ela, se minha filha continuasse usando tanta roupa, não mamaria. E, de fato, depois de algumas dicas de como segurar o bebê, minha filha começou a mamar, mas não uma quantidade significante. A concretização do ato de amamentar aconteceu depois de alguns dias, em um processo lento e doloroso. Foi preciso usar bomba para retirar o leite, porque ela não estava conseguindo mamar o suficiente. Por este motivo, meu peito ficou muito dolorido e com o bico muito ferido, em carne viva. Cada mamada era um verdadeiro sofrimento.

Aprender a amamentar e ter uma sintonia com a minha filha foi, então, o primeiro obstáculo do meu pós-parto. Obstáculo é aqui um termo apropriado pela maratona que uma mãe enfrenta depois de dar a luz. As outras barreiras são as madrugadas em claro, ter de amamentar a cada duas horas, o cansaço, o sono, as dores nas costas e a preocupação sem limites com aquele novo ser que passou a fazer parte da sua vida.

Para Brenda, o primeiro desafio do seu pós-parto foi a amamentação.

Para mim, o primeiro desafio do pós-parto foi a amamentação.

A amamentação no começo foi realmente difícil, mas depois de passada a primeira etapa, ela tornou-se um ato maravilhoso. Eu amo amamentar! Considero um momento de interação única entre mãe e filha, sem falar nos benefícios físicos para o bebê. E, assim como nas corridas, os obstáculos da maternidade podem ser ultrapassados. Ser mãe é se superar a cada dia. Mas isso tudo ainda é apenas o começo de uma longa jornada.

Em meio a tantas novidades, em um momento de descanso, após o parto, abri meu Facebook e vi uma notificação de uma amiga que me desafiava a publicar fotos da minha maternidade, fotos que refletissem minha felicidade por ser mãe. No dia, não aceitei o desafio, pois não estava em condições físicas e nem mesmo psicológicas. Depois, ao olhar minha timeline, vi uma publicação de uma mãe dizendo: “Desafio não aceito”, e, ao invés de publicar fotos felizes e bonitas sobre a ‘maravilha pós-parto’, ela propôs às mães que publicassem fotos sobre o outro lado da maternidade.

A minha primeira reação sobre este desafio “não aceito” foi de plena identificação, pois eu me vi igualzinha naquelas fotos: cansada, com minha filha sendo amamentada, olheiras imensas e cabelo bagunçado. Mas, depois de ficar surpresa com a coragem daquela menina, fiquei muito mais chocada quando vi alguns dos comentários daquele post. Óbvio que não havia chamado só a minha atenção, mas, também, de inúmeras pessoas com opiniões diversas, de compreensão, identificação, desprezo e abominação. Sim, abominação também!

Milhares de mulheres, isso mesmo, mulheres, criticaram e até agrediram verbalmente a menina. A repercussão foi tamanha que seu perfil da rede social foi excluído. Os comentários eram do tipo: “Deprimente ler isto”; “Você deve saber como evitar fazer filho, né?”; “Na hora de virar os olhinhos foi maravilhoso, né?”; “Não gosta de seu filho? Coloque seu filho para adoção!”. Que tristeza! Foi esse o sentimento que tive ao ler essas publicações que comprovavam o quanto a nossa sociedade é machista e, ainda pior, o quanto o machismo é endossado e praticado pelas próprias mulheres. Mas é necessário respeitar (e lamentar, claro) a opinião dos outros, mesmo daqueles com quem discordamos.

É preciso que as mulheres superem o machismo. É preciso respeitar o direito das mulheres que não querer ser mãe. É preciso desconstruir a concepção de que a maternidade é só para mulheres, para que assim os parceiros assumam de forma mais comprometida suas obrigações na educação e na criação dos seus filhos. No meu caso, a presença do meu companheiro foi fundamental, já que as primeiras noites do bebê foram muito cansativas e ele me amparou e me auxiliou.

Eu não me arrependo de ser mãe e amo muito a minha filha. Mas ser mãe também tem seus desconfortos e medos. Ser mãe é encantar-se com um sorriso, assustar-se com uma tosse, ficar em dúvida sobre um soluço, apaixonar-se por cada gesto, descobrir cada mania, perder noites de sono, não ter hora para comer e, mesmo assim, amar incondicionalmente esse novo ser que traz tudo isso para a sua vida.

Enfim, a maternidade é uma maratona, e assim como em uma maratona, existem situações cansativas e dolorosas, tal como belas. É assim que eu me sinto, em uma corrida sem fim em que o meu troféu é o sorriso da minha filha e tê-la sempre ao meu lado.

Estudante regular do 6° semestre do curso de Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, 21 anos, estagiária, casada e mãe de Maria Eduarda, de 3 meses e 10 dias. Apesar das dores da maternidade, as delícias prevaleceram e pretendo ter outro filho.