A vida de quem convive diariamente com a morte

Vivenciando cenas tristes diariamente, Paulo da Silva conta a sua trajetória e o que mudou após anos de profissão 2 de outubro de 2018

Além de guardar os restos mortais daqueles que já se foram, o Cemitério da Saudade, o mais antigo de Vitória da Conquista, também abriga as vivências de quem faz da morte um ofício de trabalho. É o caso do coveiro Paulo Santos da Silva, 36 anos, há 19 anos dedicado a enterrar e exumar mortos.

A profissão surgiu na vida dele de forma inusitada. Tudo começou na juventude, ao conhecer a mãe de quatro, dos seus seis filhos. Paulo fugiu com ela daqui para a sua cidade natal, Itapetinga. Tempos depois, ao retornar a Conquista, o casal passou a morar na casa do pai da sua, até então, companheira. Foi o sogro, ao buscar um trabalho para ele, quem o colocou na atividade que desempenha até hoje.

O dia a dia de Paulo se divide entre os sepultamentos e sua outra ocupação: pedreiro. Ambas as profissões são desempenhadas de forma autônoma. Ele recebe pagamentos por cada serviço que realiza. O trabalho de coveiro é realizado em forma de plantão. Ele espera por algum serviço na porta do cemitério, de domingo a domingo, das 7 horas da manhã às 18 horas da tarde. Para exercer a atividade é necessário um atestado emitido pela Prefeitura de Conquista, que certifica o profissional como apto para desempenhar  a função.

Trabalhar em um cemitério desperta a curiosidade sobre alguma história assustadora, do além. No entanto, Paulo não tem nenhuma sobre os mortos, apenas sobre os vivos. “São os vivos que aparecem por aqui para fazer coisa errada. Já quem morreu, acabou”, diz ele sobre os aventureiros que vão ao cemitério, seja para peripécias sexuais ou para utilizar o local para beber e fumar com amigos.

O seu primeiro dia no local de trabalho foi marcante. Ao exumar o corpo de uma senhora que havia sido enterrada com uma dentadura, foi obrigado a quebrar o maxilar dela para retirá-la do caixão. A imagem do ocorrido não saiu da sua cabeça por três dias, tempo em que não voltou ao cemitério. Apesar do começo complicado, Paulo diz que aquela foi a única vez que ficou assustado na profissão.

Lidar diariamente com a morte o fez reverenciar a vida. “Quando a gente pega um homão grande desse”, diz apontando para um de seus colegas, e “coloca dentro de um caixão e exuma tudo em um saquinho, aí você vê que a pessoa não é nada. Independente do caixão, da família, se tem condição ou não tem, vai virar a mesma coisa”.

Ele entende a morte como algo natural, que faz parte da vida, e já tem até o seu enterro planejado, sem grandes extravagâncias em sua cerimônia fúnebre. “Eles (seus colegas de trabalho) vão me enterrar quando eu morrer. Se puder levar um litro de cachaça e colocar dentro da cova, eu quero, vai que de noite bate uma sede”, disse sorrindo.

Paulo olha para a sua vida com uma admiração distinta. “A gente fala que a nossa vida não é nada, mas não é verdade. Enquanto somos vivos temos tudo, mas, depois que morremos, você não é nada”. Esse é o motivo pelo qual ele faz questão de aproveitar a vida “direitinho”, em todos os sentidos, e respeitá-la. E é para ela seu respeito. “A morte é como o final de um filme:  quando acaba, aparece ‘fim’. No nosso caso, o fim é aqui. O fim de todos nós”, afirma, apontando para o chão do cemitério.

Nesses 19 anos na profissão, o coveiro também desenvolveu um olhar estético para os túmulos que, segundo ele, são feios. Para Paulo, eles podem até ser arrumados, mas nunca serão bonitos. “Bonito é uma casinha, que você arruma e fica um tempo só”. Mesmo sem enxergar beleza no cemitério, ele acredita que deveria ser melhor conservado, por ser o lugar definitivo de qualquer um. Paulo se considera um homem frio e diz que, apesar de alguns enterros até lhe comoverem, ele não se deixa tomar pela emoção, pelo sentimentalismo. Por outro lado, ele é um homem brincalhão, de sorriso fácil e leva a profissão que lida com a morte com serenidade. Paulo vive o presente e encara o futuro com os pés no chão.

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