A música, os quadros e o esoterismo de Zeca Metal

1 de maio de 2016

É fácil encontrar pela Rua João Pessoa, no Centro de Vitória da Conquista, um senhor magro, de cabelos lisos até os ombros, que atende pelo nome Zeca Metal. Talvez você o veja alimentando suas galinhas ou conversando com alguém. Zeca é um homem simples e bastante acessível.

Mas quem tem mais contato com a cena cultural da cidade pode tê-lo visto em vários outros cantos, talvez expondo algumas de suas pinturas, ou tocando bateria em uma apresentação musical, ou coordenando uma oficina de teatro, ou declamando uma de suas poesias… Zeca tem um envolvimento muito forte com a arte. E assim tem sido a vida inteira.

Zeca Metal em sua casa.

Zeca Metal em sua casa.

Zeca – no RG, José Maria Ferreira da Silva – tem 67 anos. Nasceu em Feira de Santana, mas veio para Conquista ainda pequeno. Dessa época, recorda-se do gosto que os pais tinham por um grupo chamado Trio Irakitan, formado em 1950. A percussão do trio chamava a atenção do menino, que tentava reproduzir o que ouvia batucando no balcão da loja de peças do seu pai.

Assim, ganhou da mãe um bongô. Foi o ponto de partida para que começasse a tocar bolero. Mais tarde, assistindo às performances de uma banda que ensaiava na garagem da sua casa, aprendeu bateria.

Daí foi convidado para fazer parte de uma banda chamada Os Anjos, que foi a primeira entre umas dez em que tocou depois. Algumas duraram um pouco mais, outras duraram praticamente nada. Mas, nessas idas e vindas, andou por toda a região, geralmente tocando MPB. Nada de som pesado – o apelido “Zeca Metal” não tem nada a ver com heavy metal, mas com a época em que trabalhou como sucateiro.

“Meios para ser original”

Hoje em dia, toca quando quer. Mas gosta muito de pesquisar instrumentos experimentais, buscando novas sonoridades em objetos aleatórios. Ele crê que essas explorações podem ensinar noções de harmonia e despertar a melodia nas pessoas. “Eu ponho uma moeda no bolso e vou garimpar algumas coisas que às vezes, no momento, eu nem sei para que vou utilizar”, conta. “Mas é um consumismo consciente, porque mais tarde eu sei que vai surgir a criatividade”.

O prazer que Zeca Metal encontra nisso tem a ver com o valor que ele dá para a inovação, seja qual for a área. “Ainda existem meios para ser original”, prega. Zeca também vai por esse caminho no teatro, arte em que começou a se aventurar há 30 anos. Adora trabalhar com todo tipo de linguagem que fuja um pouco mais do convencional. Em suas pinturas, adota muitas vezes um tom surrealista.

Quadro pintado por Zeca Metal.

Quadro pintado por Zeca Metal.

Zeca é do tipo que critica bastante a música atual. Suas referências estão no passado – Beatles, Rita Lee, Caetano Veloso, entre outros. As canções de hoje ele considera muito comerciais e vazias de conteúdo. “Você paga para fazer sucesso, paga para ficar famoso com muita facilidade e muita rapidez”, critica.

Ele fala disso já emendando num comentário sobre a pressa que comanda os tempos modernos e a competitividade típica do sistema capitalista. A “falência do diálogo” ou a “evolução através do amor” são outros tópicos que podem acabar surgindo com naturalidade. Numa conversa com Zeca Metal, tudo pode se transformar num tema mais profundo.

Esotérico

Há uma paixão de Zeca que está fora do campo da arte: a astrologia. Uma simples menção a uma característica dele em uma conversa pode se tornar gancho para que ele diga ser aquariano e já pergunte o signo de seu interlocutor. Daí a dar uma mini-aula de astrologia e até listar alguns famosos que têm o mesmo signo que você, é um pulo.

“Canceriano… Muito sensível, né?”, ele diagnostica. “Você é regido pela prata, pela lua; segunda-feira é o dia mais intenso, mais propício para você; sua palavra-chave é ‘sinto’… Câncer é signo da água, signo que rege a família, os menores, a proteção, a intuição. E há os artistas de câncer, como Marisa Monte, Raul Seixas, Ringo Starr, dos Beatles… deixa eu ver, não sei se João Bosco…”.

Ele diz que não gosta de levar a astrologia como uma superstição. “A minha astrologia é no dia-a-dia, no contato com o ser humano”, explica Zeca. “Assim, às vezes olho para a pessoa e falo qual é o signo. É uma coisa que já virou mania”.