Dona Maria, 19 anos dedicados à Pastoral do Menor

9 de maio de 2016

Maria Rosa da Silva, ou “Dona Maria” como é mais conhecida, é uma senhora simpática e risonha, que depois de vencer batalhas e mais batalhas na vida pessoal, criar nove filhos, dedica-se a cuidar com carinho e atenção das crianças e adolescentes da Pastoral do Menor.

Durante alguns anos, escutei de uma amiga, a Magda Silveira, que já trabalhou na Pastoral, os feitos de Dona Maria com os jovens que passaram por seus cuidados. Como repórter do Avoador, tinha chegado então o momento de eu conhecê-la e de dar visibilidade a sua história.

Foi numa manhã ensolarada de uma quinta-feira que a encontrei na Pastoral do Menor. Sentamos em mesa da padaria da instituição, e eu iniciei a entrevista. Ela timidamente me contou que nasceu em uma fazenda, a Santo Antônio, localizada no município de Conquista, era a segunda dos oito filhos do casal Macionila Rosa da Silva e Manuel Antônio de Oliveira. Passou a infância trabalhando na roça com os pais, plantava feijão, milho, mandioca e tomate. “A gente fazia um dinheirinho só com tomate no ano que dava”. O que plantavam era vendido na cidade para os barraqueiros do Ceasa no Centro de Conquista.

Aos 20 anos, ela casou-se com Joaquim Rodrigues da Silva, com quem teve sete filhos, Gilmar, Joaquim, Gidevaldo, Jorge, Manuel, Sueli, Solange, Sandra. Mudou-se então para Conquista, onde adotou uma criança, o Ricardo.  Após 15 anos de casada, uma tragédia, Dona Maria perdeu o marido em um acidente. Ele era funcionário de uma empresa de decoração, e no exercício da função tomou um choque de alta tensão. Começava aí um dos momentos mais difíceis da vida dela.  A dor da perda a adoeceu, e por dois anos a tristeza a preencheu por completo. Remédios para dormir começaram a fazer parte da sua rotina e a saudade a consumia. “Um dia eu cismei de jogar os remédios fora e buscar a Deus’’, recordou Maria”.

Foi o amor aos filhos que a fez seguir em frente e buscar alternativas para manter a família.  “Meu marido sempre trabalhou em construção. Ele era carpinteiro e conhecia todo mundo desse ramo. E o mestre de uma empresa (Ecosane) estava construindo a feira coberta do bairro Brasil e me chamou para cozinhar para os peões”.

Na empresa de construção civil, ela foi cozinheira, ajudante de pedreira, pintora, ajudante de hidráulica e encarregada das faxinas. “Tudo o que tinha de fazer, eu fazia”, relembrou Dona Maria. Entre as atividades, a de pedreira foi uma das mais exigentes. “Tinha tempo que a gente sessava areia no sol, e a areia quente pegava no rosto e arrancava todo o coro do rosto, e os lábios estralavam da queimadura do sol”, relembrou. O trabalho na empresa durou cinco anos, e parte desse período, ela foi a única mulher entre os homens. Algo que, no começo, gerou um pouco de medo, mas foi superado pelo respeito dos companheiros.

Enquanto ela trabalhava de 8h às 23h, para receber horas-extras e melhorar o salário, seus filhos ficavam sozinhos.  “Um cozinhava para o outro, e às vezes eu fazia o almoço e deixava pra eles”, disse Maria. Sabia que era perigoso e por isso “Dona Maria” se distraia no trabalho pensando nos filhos. Hoje, ela se arrepende de algumas vezes ter dado umas palmadas nas crianças – por conta da desordem que ficava na casa. Chegava do trabalho e nada estava arrumado, “tinha noite que dormia três a quatro horas, fazendo as coisas de casa”. Essa dedicação foi recompensada, na época, com um cargo de chefia. “O mestre botou um bocado de mulher na faxina, e eu para tomar conta, era a encarregada delas. Ele achou que eu tinha trabalhado muito e me deu essa colher de chá”, relembra sorridente.

Depois dessa experiência na construção civil, Dona Maria trabalhou dois anos como babá e, em seguida, assumiu a função de arrumadeira na paróquia de Santa Luzia, no Bairro Urbis 5, e nas horas vagas ajudava o grupo de jovens da igreja. Ao perceber o trato sensível dela com as crianças e adolescentes, o frei Flaviano Oliveira Fonseca a indicou para a Pastoral do Menor.

Por um período de três meses, ela recebeu salário por trabalhar ali, mas os patrocinadores sumiram e o dinheiro também. A Pastoral não teve mais como pagá-la. Mesmo assim, ela continuou como voluntária. “Eu sempre falava que depois que eu criasse meus filhos, iria ser voluntário em um trabalho.  Deus me chamou para aqui”, recordou emocionada.

Desde o começo,  ela percebeu o quanto o trabalho na Pastoral do Menor seria desafiador. Os jovens e crianças que iam para lá tinham diversos problemas, como o uso de drogas. Era difícil, mas recompensador. Eles chegavam lá sem rumo e recebiam o afeto de “Dona Maria”. Além disso, eles participam de oficinas, como a de fazer pão, para trabalhar como padeiro. Entre tantos jovens e crianças que ajudou, ela lembra com carinho de Sirlando que entrou na Pastoral aos 12 anos. “Eu tomava as garrafinha de tíner dele e jogava dentro do forno, e só via o pipoco. Ele ficava danado comigo, e eu olhava no olho dele e falava: ‘eu não vou te perder pra droga’”. Sirlando cresceu, começou a vender salgados para bares da cidade e, hoje, cursa engenharia civil. “Ele é um orgulho para nós”, enalteceu “Dona Maria” com um sorriso no rosto.

O tempo passou e o entusiasmo de Dona Maria pela Pastoral do Menor só cresceu. Hoje, como coordenadora do projeto, cargo que já assumiu algumas vezes durante 19 anos de voluntariado, sente-se orgulhosa em poder contribuir para o resgate de jovens e crianças. “Eu só fiquei velha na idade, mas no coração eu tenho espírito de jovem. Não consigo viver mais sem esses meninos”. Nem a perda de alguns deles em assassinatos relacionados ao tráfico de droga a faz esmorecer. “Daqui, eu só vou sair quando não aguentar mais trabalhar.”