E o amor de Maria, quem pode comprar?

1 de maio de 2018

Maria da Soledade, 1,71 cm de altura, 65 kg, moradora da região central de Vitória da Conquista, tinha 17 anos quando ouviu do seu pai que, “em casa de família direita, não tem quarto para puta”. Nunca soube explicar por que seu próprio pai a chamou de “puta”. “Talvez porque eu tinha feito sexo com um namoradinho e ele acabou descobrindo”, tenta explicar sorrindo, mostrando os poucos dentes que ainda restam.

O tempo deixou marcas no corpo de Maria, mas não arrancou sua beleza. De pele branca, cabelos pretos e olhos amendoados com sobrancelhas que de tanto serem depiladas desapareceram e foram substituídas por linhas de lápis preto, olha para o passado com certo saudosismo, lembrando os amores de alugueis e de cada beco por onde passou. “Aceitei o nome que meu pai me deu: puta. Naquele mesmo dia saí de casa. Levei numa sacola algumas roupas e fui conhecer esse mundão de meu Deus”.

Na falta de dinheiro, seu corpo se transformou em moeda de pagamento. A cada carona recebida, um carinho diferente, a cada prato de comida, as peças de roupa eram arrancadas do seu corpo. As cabines dos caminhões se transformaram em quartos para um sexo mecânico. Nunca soube o que é um orgasmo.

Maria não se lembra com quantos homens transou até chegar a Vitória da Conquista.  Saiu de Lambari do Oeste, interior de Mato Grosso, e tinha por destino a grande São Paulo. Nunca chegou até lá. “Em algum lugar da estrada conheci um homem que me trouxe até aqui”, conta. A cada quilômetro rodado com ele, Maria recebeu promessas e juras de amor eterno que foram quebradas no meio do caminho. “Em um posto de gasolina, ele me deixou, me deu alguns trocados e mandou eu seguir meu rumo. Daí eu fiz de Conquista a minha casa, e aqui serei enterrada”.

A “Suíça Baiana” se mostrou ainda mais fria para Maria. Acostumada com o calor do Mato Grosso, o clima da cidade gelava seu corpo e a maltratava. Sem saber que rumo seguir, durante o dia, procurava emprego como doméstica, babá, lavadeira ou qualquer outro “trabalho decente” que lhe rendesse algum dinheiro. À noite, dormia em algum banco de praça. Não queria mais vender seu corpo, queria trabalhar, queria ser uma “mulher honrada”, queria… Mas a fome falou mais alto, e quando viu todas as portas fechadas, a mãe prostituição a acolheu novamente de braços abertos.

Enquanto andava pela cidade, soube da Rio-Bahia. “Lugar das moças que amam demais”, é como ela define a avenida. Nela, desfilam mulheres, travestis, as popularmente chamadas de mulheres da vida. Da vida errada para muitos, da vida fácil para outros. “Cheguei na Rio-Bahia um pouco desajeitada, não tinha uma roupa boa. Só tinha meu corpo para ser exibido e, quem sabe, comprado por algum homem que passasse por ali”.

O barulho dos carros, ônibus e caminhões que cruzam Conquista se transformam em música para os ouvidos das filhas das ruas, pois sabem que são os motoristas que pagam o pão de cada dia a elas. Maria não teve muita sorte na primeira noite. Ganhou o suficiente para comprar algum alimento e uma roupa que mostrasse as curvas do seu corpo.

Com o tempo, foi aprendendo na prática os deveres da profissão: ser garota de programa é bem mais que sexo, é saber ouvir, explica Maria. “Alguns querem mesmo é sexo, é meter. Outros querem um dedo de prosa, querem falar da vida, dos filhos que crescerem e foram embora para longe, das mulheres que não o entendem, das horas infernais do trabalho”.

Na cama, aprendeu a ser psicóloga, a aconselhar quando necessário, a fazer o homem gemer sem sentir dor. Aprendeu a ser desprendida do mundo e aberta a todos que a procuravam. Nenhum homem que passou pelos seus braços ficou ou fez morada em seu coração. Alguns ficaram por uma noite e voltaram nas noites seguintes, outros seguiram a vida e a estrada da Rio-Bahia para nunca mais voltar. Coração de mulher da vida é lugar de todos e de ninguém.

Maria, que recebeu o nome da Santa Virgem, brincou com o destino ao se transformar em mulher pública. Perdeu o contato com seus familiares e, dos tempos da adolescência, só lembra do sonho de ser professora. Não sabe se seus pais estão vivos. Ao mesmo tempo em que chora, ela busca um passado que poderia ter sido, mas não foi.

“Se tivesse como voltar no tempo, você mudaria algo?”, pergunto. Ela sorri, limpa algumas lágrimas e responde: “Não fale uma bobagem dessa, menino”. Talvez, penso eu, ela queira acreditar que não tinha outra escolha na vida e que a nossa história já foi escrita há muito tempo atrás por outro grande jornalista.

Remexendo as memórias, Maria sabe que a luz da prostituição está se apagando dentro dela e acredita que fez muitos homens felizes. Sabe também que seu futuro é incerto e sente medo da velhice que se aproxima de forma rápida. Mas entre todos os seus temores, o medo de terminar a vida na sarjeta é o que mais a assusta, pois ela sabe que da putaria honesta, ninguém sai aposentada.