Sempre alerta: profissão vigilante

Ele começou a trabalhar aos 12 anos, é apaixonado pela Capoeira, e hoje atua em uma profissão que não permite distrações 3 de agosto de 2019

Há seis anos, Altenício Silva observa atentamente a movimentação nos corredores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), campus de Vitória da Conquista. É o vigilante responsável pela segurança dos Módulos I e II, da Biblioteca Professor Antônio de Moura Pereira e do Restaurante Universitário. Hoje, ele tem um emprego e um salário garantido no final do mês, mas nem sempre foi assim.

Para ajudar no sustento da família, Altenício começou a trabalhar muito cedo. Com 12 anos, lavava carros em um posto de gasolina. Aos 16, conheceu a capoeira, uma de suas grandes paixões. Na época, estudava à noite, o que o impedia de treinar o esporte, por isso decidiu trocar os estudos pela arte marcial que tanto amava. “Minha vida toda era só capoeira”, disse. Como resultado, estudou até a 4ª série e por isso só conseguia uma renda no trabalho informal. Foi porteiro, vendedor de Cds nas praias de Ilhéus e professor de capoeira em um projeto em Anagé.

Por influência de amigos e por achar que seria mais fácil conseguir um emprego de vigilante, já que não exigia formação escolar além da que possuía, Altenício decidiu que iria investir na profissão. “Foi uma questão de respaldo, para depois eu ter onde trabalhar”, contou. Entretanto,  Conquista não oferecia cursos preparatórios na área da vigilância, sendo o lugar mais próximo era Feira de Santana, e ele não tinha condições de ir até lá. O plano de Altenício então ficou parado até que, em 2010, foi aberta na cidade uma escola de formação de vigilantes para a qualificação do profissional de segurança privada, requisito obrigatório para exercer a profissão por determinação da Polícia Federal.

Durante 20 dias de curso, Altenício aprendeu sobre defesa pessoal, armamento e legislação. “É pouco tempo, mas dá para aprender”, enfatizou. Nesse mesmo período, o projeto em que dava aulas de capoeira foi encerrado, o que fez o curso de vigilante ser ainda mais útil. Desempregado, ele fez outro curso, dessa vez para revisar e atualizar as disciplinas já estudadas. Essa é uma obrigação dos vigilantes formados, que deve ser cumprida a cada dois anos, além do profissional ter a ficha limpa. “Durante os dois anos, você não pode ter nenhuma ocorrência em seu nome, tanto no Serasa quanto no SPC, ou por fazer baderna ou não pagar pensão. Seu nome tem que estar livre”, explicou.

Depois do segundo curso, ele trabalhou como segurança em um loja no shopping e, logo em seguida, conquistou a vaga de vigilante na Uesb. “Eu conhecia o supervisor da época, que era professor de defesa pessoal lá da escola, aí eu trouxe o meu currículo aqui. Fui chamado para uma entrevista e uma prova. Aguardei, e eles me ligaram. Graças a Deus consegui uma vaga”, disse.

Desde quando entrou, em 2013, até hoje, Altenício leva o trabalho de vigilante com muita seriedade. Não se permite distrações, como conversar com os colegas durante o serviço. “Bater papo não é bom porque distrai, nem conversar com os funcionários, nem usar o celular. Alguns vigilantes são chamados porque relaxam. Graças a Deus, eu sou elogiado pelos comandantes porque eu não converso, não interajo muito com os alunos nem funcionários”.

O vigilante começa sua ronda no trabalho cedo, às 6h45, quando a universidade ainda está vazia. Ele mora na região das Bateias, no bairro Brasil, onde acorda às 5h para ir ao trabalho. Veste o uniforme, organiza as munições e garante que a barba esteja sempre feita. “Garantir a postura, para garantir o meu trabalho” é o lema do vigilante de 45 anos.

A  segurança da Uesb é garantida por  nove vigilantes por turno, que são coordenados por um supervisor. Para completar a equipe, existe também o vigia responsável pelo monitoramento do acesso. É o vigia que visualiza na entrada da universidade qualquer pessoa suspeita e passa as informações para os demais pelo rádio. A tecnologia também garante a segurança do campus por meio de câmeras espalhadas em pontos estratégicos. Com todo esse sistema de monitoramento, Altenício garante que, desde quando iniciou o trabalho na Uesb, poucas ocorrências aconteceram na instituição. “Aqui, graças a Deus, é sossegado.”

Não é fácil ser vigilante. As horas em pé fazem as pernas de Altenício latejarem e, muitas vezes, intensificam as dores na coluna causadas pela hérnia de disco. Seja domingo ou feriado, ele está lá com os olhos atentos fazendo a vigilância na Uesb. Apesar da importância da profissão, há um desconhecimento de como é a atividade e as suas dificuldades.  “Tem gente que acha que a gente não faz nada, só fica o dia todo em pé. Às vezes, a pessoa não vê o que a gente impede de acontecer aqui dentro”, contou. Durante as horas de serviço, enquanto observa tudo, não deixa de prestar atenção nas conversas e aprender um pouco com cada uma delas. “Quando eu estou aqui, gosto muito de ouvir o pessoal do curso de Direito debatendo”, disse.

Altenício não fez faculdade, mas, se pudesse fazer diferente, teria cursado Educação Física ou Geografia. Outra vontade do vigilante era se tornar policial: “eu não gosto de ladrão. Você trabalhar para ter algo e vim alguém e tirar aquilo de você, é difícil!”. Mesmo não tendo realizado outros sonhos, ele se sente satisfeito com a profissão que escolheu para exercer. Uma das vantagens do trabalho na Uesb é a escala de alternância. Com exceção dos plantões nos finais de semana ou feriados, o vigilante trabalha em dias da semana alternados: “você trabalha dia sim, dia não”.

Nos dias de folga, seus hobbies preferidos são limpar o quintal de casa, ir à academia, pedalar, passar tempo com a esposa e os filhos e praticar capoeira à noite. Gosta de fazer tudo isso, especialmente ao lado da família da qual fala com orgulho, mas também não reclama quando é hora de vestir o uniforme novamente e ir para o serviço. “É duro e doloroso, mas nunca vim trabalhar de cara fechada. Nunca vim amarrado. Nunca vim com raiva. Venho satisfeito. Eu gosto de trabalhar aqui”.

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