A estátua e a vida em movimento

27 de maio de 2017

Em meio à agitação da Praça 9 de Novembro, no centro de Vitória da Conquista, foi a falta de movimento, o estático, que me chamou atenção. Lá, parada, estava uma estátua viva com pele e roupas prateadas no desafio diário de atrair o olhar e atenção do público que passava pelo local. De imediato, senti curiosidade em descobrir mais sobre a identidade de quem estava por trás da vestimenta de freira e da tinta prata no rosto. Houve receio em atrapalhar o trabalho do artista, mas a recepção com um sorriso gentil me deixou animada. Em uma conversa de poucos minutos, descobri Victor Rafael Batista de Souza, 24 anos. E é a história dele que me proponho a contar aqui.

Vitor mora em Barra do Choça, cidade próxima de Conquista, e vem todos os dias para cá para trabalhar. Ele monta o personagem na casa da sogra, que mora próximo à praça onde o conheci. Ele só não vem nos dias em que o tempo é desfavorável, em dias de chuva. Nesses intervalos, ele faz brigadeiros ou vende DVD’s lá mesmo.

O artista de rua nasceu em Mato Grosso do Sul e passou a infância no estado de São Paulo. Era uma criança que gostava de teatro e ir à igreja com a família. Em meio a tantos sonhos, ser enfermeiro, ator, cabeleireiro, ele disse que nunca teve uma resposta definida para aquela velha pergunta: “o que você quer ser quando crescer?”. Para entender o que motiva Victor a trabalhar como estátua viva há três anos, é preciso compreender seu trajeto até então.

A grande virada na vida de Victor, que é gay, foi aos 14 anos quando sofreu rejeição da família por causa da orientação sexual. O preconceito e a exclusão o obrigaram a sair de casa, como tantos outros pelo Brasil a fora, o que o levou a viver em situação de rua. Nesse dia, ele dormiu em uma rodoviária. Mas graças a alguns amigos, que o acolheram e ajudaram, ele encontrou novos rumos e sentidos para a vida.

Foi então morar em São José do Rio Preto (SP) com uma prima onde trabalhava em uma empresa como líder de auxiliar de limpeza, a vida parecia estável. Porém, ele foi demitido, ficou sem condições de dividir as despesas com a parente e acabou na rua novamente. Em meio às dificuldades dessa época, ele encontrou uma nova profissão e um sentido para sua vida. Surgia assim o Victor estátua viva.

Matéria Fabi

O interesse pela arte de rua já estava na vida dele há algum tempo. Quando ainda estava empregado, no caminho diário entre a casa e a empresa, ele encontrava uma moça que performava estátua viva, a qual sempre contava com uma contribuição em moedas dele. Entusiasmado o artista lembra do período que aprendeu as técnicas da arte de trabalhar como estátua viva com essa amiga e incentivadora pela qual ele é grato. Talvez a amizade entre os dois tenha sido impulsionada pelo abandono familiar que marcou a vida deles, ele conta que a moça foi rejeitada por causa da gravidez na adolescência e teve que aprender muito cedo a se virar sozinha para sustento dela e do filho.

Na época, sem dinheiro Victor lembra que ganhou a primeira roupa que usou como estátua de uma entidade religiosa que fazia serviço voluntário nas ruas. Ele então passou a ser o Charles Chaplin, seu personagem favorito até hoje. Sua admiração pelo personagem é tanta que ele até arrisca uma frase do comediante: “O mundo é um show que tem que ter plateia para aplaudir”. Ao dizer a frase, ele riu e relembrou o quanto as tintas usadas eram ruins, que necessitavam de reposição de 30 em 30 minutos, pois se desmanchavam com o sol, além de provocarem alergias.

Há dois anos o artista conheceu seu companheiro em um terminal de ônibus no interior de São Paulo. Ali começou uma nova fase, um amor que o trouxe para a região Sudoeste da Bahia. Em Conquista, ele deixou currículos em vários lugares até que conseguiu um emprego temporário em serviços gerais. Mas foi na Praça 9 de Novembro que viu uma oportunidade para atuar como estátua viva.

E é na praça que Victor, como artista de rua, se sente realizado. “Muitas vezes, quando eu venho triste e faço uma pessoa sorrir, fico muito alegre, pois é isso que gosto de fazer”, conta com entusiasmo. Porém, ele enfrenta o preconceito, algumas pessoas o xingam e não valorizam o seu trabalho de estátua viva.“Já me chamaram até de vagabunda”, relata. Mas essas atitudes não o abatem: “Gosto do que faço então nem ligo”, conta com um sorriso largo.

O artista trabalha em média de quatro a cinco horas por dia como estátua viva. Além de encantar com suas performances, ele também distribui ao público mensagens motivacionais. Outra atividade dele sãoapresentações artísticas em cerimoniais recepcionando convidados. O artista de rua é como muitos brasileiros, um teimoso que persiste nos seus sonhos e que luta todos os dias por uma vida melhor. “O sol brilha pra todos”, disse efusivamente.