A invisibilidade da classe trabalhadora no debate público brasileiro

O trabalhador, como ser humano, não pode existir: ele não passa de um veículo para a valorização do capital. Enquanto tiver forças, trabalho. Quanto não tiver mais, é descartado. 21 de junho de 2019 Luis Felipe Miguel

Um dos motivos da baixa qualidade do debate público no Brasil é a quase absoluta invisibilização da experiência vivida da classe trabalhadora.

Ela é a maioria esmagadora da população. Mas quase não está nos jornais, na TV, nos canais de sucesso do Youtube.

Para onde quer que olhemos, só vemos ricos ou a classe média com profissões de nível superior.

A experiência dos trabalhadores se mostra invisível para eles mesmos.

No entanto, os confortos de que desfrutamos cotidianamente, sem sequer nos darmos conta, só existem graças a seu trabalho.

O trabalhador acorda talvez às cinco da manhã, todos os dias, para pegar dois, quem sabe três transportes lotados e precários e chegar na hora em seu emprego. Se for mulher, ainda corre o risco de ser importunada sexualmente no trajeto.

No trabalho, o dia a dia é feito de ritmo exaustivo, ausência de autonomia e autoritarismo de gerentes e capatazes. O trabalhador é tratado como incapaz intelectual, mas também, contraditoriamente, como um ladino perigoso que precisa ser vigiado de perto. A trabalhadora, uma vez mais, recebe uma cota extra, estando muitas vezes submetida ao assédio dos chefes e patrões, um assédio que as campanhas voltadas a celebridades da mídia deixam, quando muito, num distantíssimo segundo plano.

O trabalho é, para o trabalhador, um tempo de não-vida. Tudo o que ele deseja é que a jornada passe rápido, a fim de recuperar o controle sobre si mesmo. Mas ele deseja também que o seu tempo livre passe rápido, para logo chegar o outro contracheque, já que o pagamento é escasso para fazer frente aos 30 dias do mês.

O tempo do trabalhador é, assim, duplamente furtado.

Ao chegar em casa já de noite, esgotado pelo dia de trabalho, ele vai talvez se narcotizar diante da novela, em busca de algo que o faça escapar da sua vida, cansado demais para qualquer outra atividade. À trabalhadora, subjugada pela organização convencional da vida doméstica, antes disso cabe ainda arrumar a casa, preparar a comida para os filhos e, caso tenha, para o companheiro.

Talvez eles frequentem também a igreja, em alguma noite ou final de semana, em busca de espetáculo e de esperança. Se tiverem sorte, não serão esfolados pelo sacerdote. No domingo, tem futebol e programa de auditório na TV, cerveja com os amigos, reunião de família – e roupa para lavar e faxina da casa.

Quando o filho fica doente, o trabalhador – em geral a trabalhadora – enfrenta primeiro a fila do posto de saúde, depois a cara feia do patrão ao apresentar o atestado. O medicamento a ser comprado quebra o orçamento já apertado do mês.

Se o trabalhador estiver sem emprego, como é o caso de muitos e cada vez mais, tentarão fazer com ele se veja como “empreendedor”, mas o que ele vai fazer é se virar. A incerteza sobre o amanhã, que é estruturante na vida de qualquer trabalhador, que não tem patrimônio nem rede de proteção e portanto tem sua subsistência dependente da renda que gera naquele momento, fica ainda mais urgente.

Sendo pobre, o trabalhador é visto com desconfiança pelas “forças da lei” – ainda mais sendo negro, como a maioria é. Será parado pela polícia, será humilhado. Os direitos que valem para a classe média com frequência não existem para ele. Se tiver azar, levará um tiro. Ou vários. Ainda mais sendo negro, como a maioria é.

Não é que a vida do trabalhador se limite a isso. Ele ama, ele brinca, ele sonha, ele pensa. Mas tudo isso ele faz remando contra a rotina opressiva que a exploração lhe impõe. Ele faz nos interstícios de sua vida produtiva, que não é sua, não é vida e tampouco produz para ele.

Quando tem sorte, este trabalhador ou trabalhadora pode almejar o momento em que ao menos parte dessa rotina se interrompe: a aposentadoria. O valor vai ser pequeno e talvez ele tenha que fazer uns bicos para complementá-la, mas ele terá uma renda segura e muito mais controle sobre seu próprio tempo.

Ele desfrutará de um naco daquela liberdade que vai se tornando tão abundante conforme subimos na pirâmide social: ser dono, ao menos um pouco, do próprio nariz.

Poderá talvez jogar baralho, talvez jogar bola, talvez cultivar um jardim, talvez pintar ou escrever poemas, talvez montar uma oficina caseira de marcenaria ou confeitaria, brincar com os netos, quem sabe fazer uma ou outra viagem. Se tiver alguma renda e enquanto tiver saúde.

Depois, quando os problemas da velhice se pronunciarem mais, sofrerá os últimos anos com a falta de apoio do Estado brasileiro e a absoluta incompatibilidade de sua pensão com as necessidades de um idoso.

O trabalhador sonha com isso: com esses anos depois da aposentadoria e antes da decrepitude, em que, se tiver sorte, vai poder desfrutar um pouco de sua própria vida.

É essa possibilidade que a reforma da Previdência quer abolir. O trabalhador, como ser humano, não pode existir: ele não passa de um veículo para a valorização do capital. Enquanto tiver forças, trabalho. Quanto não tiver mais, é descartado.

O discurso dominante sobre a reforma da Previdência trata de trilhões e abstrações. Isso ocorre porque a vida da classe trabalhadora – no chão da fábrica, na construção civil, na faxina, na escola primária, no telemarketing – é mantida fora da consciência coletiva.

Foto de capa: Pexels

* Luis Felipe Miguel é professor de Ciência Política na Unb (Universidade de Brasília)

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