As profundezas da imaginação

Por meio do olhar de Corina, mergulhadora contratada para testar trajes no mar profundo, "As águas-vivas não sabem de si" é uma obra de ficção científica nacional que explora as profundezas do oceano e os segredos de suas personagens 27 de outubro de 2019 Ricardo Santos

Aline Valek fez uma aposta ousada em sua estreia como romancista. “As águas-vivas não sabem de si” é uma obra de ficção científica com o apuro da chamada alta literatura. Algo bastante incomum nas letras nacionais.

Corina é uma mergulhadora experiente, contratada por uma empresa para testar trajes no mar profundo. Na estação Auris, ela se junta a uma equipe formada por outro mergulhador e pesquisadores. Durante o confinamento, Corina desconfia que há uma missão maior em curso. Ao mesmo tempo, ela também tem algo a esconder.

Logo nas primeiras páginas é inevitável lembrar-se de filmes como “O Segredo do Abismo” e “Esfera”. Os mistérios do oceano ampliados por uma assustadora presença além da compreensão humana. O fundo do mar é um universo em si, ainda bastante inexplorado. Causa tanto fascínio quanto o espaço sideral. Muitas vezes, sua fauna e flora são vistas como coisas de outro mundo.

“As Águas-Vivas não Sabem de Si”, de Aline Valek, possui 296 páginas e foi publicado pela editora Rocco.

A ideia do romance não é original, mas Aline Valek quer seduzir o leitor pela maneira de contar a história. Sua intenção é bem-sucedida em parte. Ao escrever o livro, ela tinha nas mãos um cenário com muito potencial para criar uma ficção cativante. Aproveitando a escuridão e a luminescência, essa atmosfera seria perfeita para elaborar uma leitura imersiva, em que cada linha, cada parágrafo, transmitisse a beleza e o perigo daquele lugar.

Essa tensão deveria ser predominante. Porém, os conflitos pessoais e com o ambiente perdem força em certos trechos. Páginas e páginas são preenchidas com digressões dos personagens,  estendendo-se além do necessário. Outro recurso que quebra o ritmo da leitura é dar a alguns animais a condução da narrativa, mostrar o ponto de vista deles, suas observações da ação humana.

Ao longo do romance, há uma oscilação entre um texto maduro e outro, descuidado. Os melhores momentos são quando a interação dos personagens funciona, os pensamentos de cada um têm algo relevante a manifestar, o desenvolvimento da trama convence, a pesquisa da autora sobre aquele mundo envolve o leitor e a prosa está tão afiada, cada frase tão bem construída, que soa como poesia. Nos piores momentos, quase nada funciona, podendo estimular alguém a abandonar o livro.

Pelo fato do cenário ser muito recortado, a estação Auris e o entorno dela, e do pequeno número de personagens, as possibilidades de enredo são reduzidas.  Um texto mais curto poderia reunir apenas o que houvesse de melhor no romance.

A editora Rocco caprichou na edição física. É um dos livros mais bonitos lançados em nosso mercado editorial, nos últimos anos, capa e miolo.

Ao final da leitura, fica a certeza de que “As águas-vivas não sabem de si” é um livro corajoso. É um romance que renova a ficção científica nacional e, ao mesmo tempo, procura se comunicar com um contexto literário mais amplo.

*Ricardo Santos é escritor, editor e servidor público. Nasceu em Salvador e é formado em Jornalismo pela Uesb. Ele possui um blog e seus contos foram publicados em sites, coletâneas e revistas, como Somnium e Trasgo. Organizou a coletânea Estranha Bahia (EX! Editora, 2016; 2ª edição 2019), finalista do prêmio Argos. Também é autor do romance juvenil Um Jardim de Maravilhas e Pesadelos (2015) e do livro de viagens Homem com Mochila (2018). Seu mais recente livro é a coletânea Cyberpunk (Draco, 2019). 

Foto de capa: muzicadl.com

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