Chuva em Salvador revela a realidade da capital baiana

O temporal da madrugada de terça-feira, 26 de novembro, mostrou que é preciso limpar o racismo velado, a miséria, o machismo e a violência das ruas 30 de novembro de 2019

Hoje inundou! Casas caíram. O barranco deslizou, sujando de barro o concreto da cidade falseada em identidades, mascarando o grotesco que é a sobrevivência humana. Acordei com o raiar do dia e o barulho ensurdecedor de gotas de chuva ao chão. Vesti uma roupa, tomei café. Tirei a roupa, fumei um cigarro. Esperei. E a água não cessou.

Em fúria, as moléculas de H2O arrastaram consigo a firmeza da rotina, o apoio das certezas do dia a dia – que servem como sustento de cais. Tudo se destruiu. Lá fora. E aqui dentro. E logo renasceu. Aqui dentro. E lá fora. Porque a água tem esse poder. De ser calmaria e tormenta. De gerar morte e procriar vida. E no meio da enchente e nos cantos dos bueiros transbordantes, a verdade apareceu: assim, de forma clara, no campo de batalha do cotidiano, numa terça feira de Ogum, com lua nova em sagitário.

Pelas ruas, avenidas, pelos trilhos de metrô da capital, moldando uma catastrófica lucidez, a verdade apareceu: é preciso limpar. Não, não. É preciso expor. Expor e escancarar, para depois limpar. A política do pão e circo. A maquiagem de uma superficial beleza – que tem como base a alegria, como rouge a sensualidade, mas que sombreia a dor dessa terra. É preciso limpar o racismo velado do bairro da Graça. E o capitalismo selvagem da Paralela. É preciso limpar a corrupção do Centro Administrativo da Bahia. E a homofobia da Pituba. É preciso limpar a escravidão que – século após século – se restaurou, assim como as casas do Centro Histórico. É preciso limpar a miséria, o machismo, a violência estrutural e simbólica do oligopólio baiano. E o que seria a limpeza que não a destruição seguida de renascimento?

No molhar do dia, entre o café, o cigarro e a espera, me deixei alagar por chuva. E me embebi de dilúvios de consciência e transformação. Invoquei mães, deusas da liquidez, do acolhimento, da condução. E percebi assim que a água nada mais é que o cicerone da cura. Tenho sede!

*Mariana Kaoos é filha das águas, embora não saiba nadar. Graduada em Comunicação Social pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e mestra em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), acredita nas palavras como potência geradora de vida, caminho e sentido.

Foto de capa: Ricardo Santos

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