Enquanto o governo federal quer taxas os livros, jovens criam projetos para revigorar o livro e a leitura

Deko Lipe criou o projeto Primeira Orelha e Lorena Ribeiro apresenta o canal Passos Entre Linhas 13 de setembro de 2020 Ricardo Santos

A população brasileira lê? Segundo pesquisa do Instituto Pró-Livro (IPL), 56% dos brasileiros têm o hábito da leitura. E em outra análise mais recente, a partir de dados do IBGE, chegou-se a conclusão de que 74% do consumo de livros no Brasil é realizado por famílias com renda mensal entre R$5,7 mil e R$14,3 mil. Ou seja, os ricos não ligam para os livros e as classes de menor renda não têm acesso a eles.

Atualmente, o governo federal pretende implementar uma taxação de livros. Trata-se de um ponto na discussão de uma reforma tributária, na qual uma das consequências seria a retirada da isenção de PIS/Pasep e Cofins para o livro, criando um novo imposto com alíquota de 12%. No final, este custo certamente seria repassado para o leitor/consumidor. A medida fragilizaria um mercado editorial já combalido, mesmo antes da pandemia, e dificultaria ainda mais a sobrevivência de quem escreve. Ao contrário do que disse o Ministro da Economia, livro não é artigo da elite. O livro deve se tornar um item de necessidade básica com acesso por meio de uma renda digna, de uma escola valorizada, de bibliotecas bem equipadas e de outras políticas públicas que criem, em pessoas de todas as idades, o hábito da leitura.

Mesmo que o mito de que a população brasileira não lê caia por terra, o incentivo à leitura no país ainda é uma batalha de mentes e corações. Por isso, há quem resolva agir de alguma forma em nome do apreço pelo livro. Como é o caso de Lorena Ribeiro, criadora e apresentadora do canal Passos Entre Linhas. Contando com Rafael Rocha na produção, Lorena leva ao ar diversos conteúdos sobre literatura, com foco em autoras negras, autores baianos muitas vezes desconhecidos e obras infantis.

 

Doutoranda em Língua e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lorena criou o canal inicialmente para compartilhar seu amor pelos livros. “Eu sempre gostei de ler, mas as pessoas mais próximas a mim liam coisas muito diferentes do que eu estava acostumada a consumir. Então, por conta do desejo de conversar com outras pessoas leitoras sobre o que eu estava lendo, surgiu o interesse em ter um blog ou algum espaço virtual para trocar experiências.”

O Passos Entre Linhas, em quatro anos de existência, traz um perfil diferente nesse mundo dos booktubers, não se voltando exclusivamente aos lançamentos das grandes editoras. Lorena acredita no papel social dos livros. “A leitura possibilita diversos benefícios, principalmente, se houver representatividade. Quando eu era criança e adolescente, não lembro de me identificar fisicamente com algum personagem de livro, não lembro de me ver nas revistas que lia, e pouquíssimas foram as vezes em que eu tinha uma referência positiva, que me inspirasse a gostar de mim, enquanto menina negra. Quando eu li o primeiro livro com personagem bissexual negra, eu chorei de alegria. Me sentia validada.”

Também quem arregaçou as mangas para incentivar as pessoas a ler foi Deko Lipe, com o projeto Primeira Orelha. “Surgiu da necessidade de retornar ao universo da literatura. Em 25 de março de 2018, depois de mais de três anos sem ler nenhum livro literário, foi criado o Primeira Orelha.” O projeto já promoveu diversos encontros presenciais em Salvador, como lançamentos de livros, mesas de debate e participação em eventos literários, dando destaque a uma literatura mais diversa e a infanto-juvenil.

A importância dos livros e da leitura para Deko tem a ver com questões pessoais que repercutem na sociedade, envolvendo conhecimento e pertencimento. “Atualmente uso ambos para me reconhecer e tornar eternizada a comunidade LGBTQIA+, a qual pertenço, em histórias que são nossas, que poderiam ser ou que queremos viver. Durante anos fiquei sem me sentir pertencente, apenas via alguns semelhantes em personificações caricaturadas e equivocadas. Hoje consumo e faço histórias para que o nosso futuro leitor sofra menos e sinta-se acolhido.”

A pandemia virou a vida de todos de cabeça para baixo. No mundo dos livros, não foi diferente, sendo o setor bastante impactado pelo agravamento da crise econômica. Mesmo assim, muitas pessoas continuam a ler. Mas outras tantas não conseguem ler sequer uma linha. A saúde mental fragilizada não permite. Fora outras questões urgentes, como perda de emprego, de renda, de moradia, doenças e mortes.

O Passos Entre Linhas e o Primeira Orelha também foram afetados com o isolamento social. O Passos Entre Linhas promovia um clube de leitura mensal que teve de ser adaptado para o formato on line. O mesmo aconteceu com o Primeira Orelha. Segundo Deko Lipe, “a produção de conteúdo seguiu de maneira mais intensa. Não por cobrança, mas talvez o ‘ócio’ tenha me impulsionado a pensar possibilidades de produzir mais.”

Além de incentivadores da leitura, Lorena Ribeiro e Deko Lipe, recentemente, tornaram-se autores. Lorena escreveu O divertido glossário da Jana, um livro infantil, com ilustrações de Quezia Silveira, que tem uma menina negra e muito curiosa como protagonista, publicado de forma independente. E Deko lançou o romance juvenil Meus pais e eu, pela Se Liga editorial, sobre a história de Ana Clara, uma menina criada por dois pais.

Lorena Ribeiro se sente empolgada, desta vez, como divulgadora da própria obra. “É clichê dizer, mas é verdade: representa um marco em minha vida. Acredito que eu possa chegar a diversas crianças. Espero que elas sejam inspiradas a se amarem do jeitinho que são. E cresçam sem medo de pôr a criatividade para fora. Eu me fortaleço demais através da literatura. Espero que, enquanto autora, possa fortalecer outras pessoas também.”

Para Deko Lipe, trata-se de uma questão de conquistar a própria voz, de ser visto e ouvido como ser humano. “Ser interlocutor de uma história onde poderia ou pode ser minha é ser grato por fazer chegar a tantes outres. Lançar um livro como Meus pais e eu, em meio à pandemia, é poder levar um abraço quentinho de esperança para quem lê-lo.”

O Brasil é um país tradicionalmente negligente com a educação, e hoje em dia a negação da História, da ciência, da cultura e do conhecimento, mais uma vez, é usada como um mecanismo de manipulação e histeria. É preciso ler, ler mais, ler melhor. A solução para nossos problemas está na vida, nas relações sociais que podem construir um mundo diferente, e também nos livros. Como disse Kafka, de forma certeira: “Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós.”

 

 

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