Ler autores negros é conhecer o outro lado da história

Na coluna desta semana, Ricardo Santos, escritor e jornalista, recomenda seis obras da literatura feitas por pessoas negras e ressalta a importância de enaltecer essas produções em uma sociedade racista e preconceituosa 3 de novembro de 2019 Ricardo Santos

Novembro é o mês da consciência negra. Uma ótima oportunidade para começar a ler mais autores negros, para conhecer diversas realidades negras e refletir sobre o passado, o presente e o futuro. O racismo sempre deve ser combatido junto com todos os outros preconceitos. E enaltecer a negritude é uma forma de exigir respeito e igualdade de condições, rumo à superação da lógica capitalista, com a verdadeira emancipação das minorias.

Publicado em 1958, O Mundo se despedaça, de Chinua Achebe, fala sobre os conflitos da cultura tribal nigeriana com a cultura missionária europeia. Historicamente, o livro tem uma importância enorme. Tornou-se a maior referência da literatura africana dentro e fora do continente.

O mundo se despedaça, de Chinua Achebe, possui 240 páginas e foi publicado pela editora Companhia das Letras.

O romance não é politicamente correto. Não é panfletário. Acima de tudo, é uma competente obra de ficção. Seu maior mérito foi ter sido escrito com a intenção de ser lido, principalmente, pelo povo nigeriano. Chinua Achebe poderia ter escrito algo mais ambicioso, em tamanho e experimentação narrativa, para agradar acadêmicos e intelectuais estrangeiros. Mas ele preferiu escrever um livro acessível, mas sem facilidades. Sua visão é bastante crítica, tanto em relação aos nigerianos quanto aos europeus.

Em A Parábola do Semeador, Octavia E. Butler mostra os Estados Unidos no futuro, após uma crise ambiental e econômica, em que comunidades com melhores recursos se fecham por trás de muros. Há uma tentativa de levar uma vida normal num mundo em convulsão, com escolas, empregos e relações sociais e familiares, mas a tensão é constante.

Por meio do olhar afiado da jovem Lauren Olamina, acompanhamos pessoas tendo de fazer escolhas difíceis, passando por dilemas para manter sua humanidade. A própria Lauren sofre bastante com os acontecimentos. Ela tem um poder de hipersensibilidade, que a faz absorver a dor física alheia. Em meio a tanta incerteza e desesperança, Lauren resolve criar uma nova religião, que promove a comunhão entre o ser humano e a natureza.

Ao mesmo tempo brutal e delicado, Um jeito tranquilo de matar, de Chester Himes, mostra a comunidade negra do Harlem, nos anos 1950, como um universo à parte, com suas próprias regras. Um cenário que é um misto de afirmação de identidade e consequência do racismo praticado pelas autoridades, pela sociedade em geral.

O talento de Himes está em mostrar esse universo por dentro, indo além das páginas policiais. A trama começa da forma mais violenta possível para terminar com um sopro de esperança. Essa virada radical é construída ao longo do livro sem ser forçada ou inverossímil, com a habilidade de um mestre.

Interseccionalidade é um livro curto, mas denso. Sem abrir mão do rigor acadêmico, a baiana Carla Akotirene apresenta uma outra maneira de discurso científico, mais poética, digamos assim, inspirada na ancestralidade do candomblé e influenciada por pensadores africanos.

Akotirene faz uma defesa crítica do termo “interseccionalidade”, apoiando o conceito de luta contra os múltiplos sistemas de opressão, mas dando ênfase em resgatar e reivindicar a matriz negra do termo e o legado da advogada e ativista norte-americana Kimberlé Crenshaw. Ótima porta de entrada para discussões de raça, gênero e classe.

Lima Barreto é obrigatório nesta lista. Em Clara dos Anjos, ele consegue a proeza de aliar o registro jornalístico, em sua descrição e opinião do Brasil da República Velha, modernizador, mas negligente, e o apuro literário, na construção de personagens cativantes pelo o que são, malandros, iludidos ou éticos.

Lima Barreto era um apaixonado pelo subúrbio carioca, a terra dos desassistidos. Mas era uma “paixão desencantada” porque ele criticava todo mundo, os poderosos e o povo. É espantosa a atualidade de um texto escrito há quase cem anos, em sua percepção de mazelas que ainda persistem com um engajamento refinado contra o racismo. A edição do selo Penguin, da Companhia das Letras, traz valiosos ensaios sobre a obra e muitas notas de rodapé.

Os contos de Olhos D´água são como tapas na cara. Conceição Evaristo dá voz àquelas que sofrem com o racismo e o machismo da sociedade: as mulheres negras em situações de risco. São empregadas domésticas, prostitutas, parceiras de bandidos, moradoras de rua, meninas, filhas, mães, avós, esposas, amantes.

Mas não pensem que o tom aqui é de lamento barato. São histórias fortes, violentas, menos convencionais, surpreendentes, contadas numa prosa cheia lucidez e fúria. Há um contraste poderoso entre a forma poética e o conteúdo brutal.

Há uma dívida secular para com a população negra no Brasil. Desde o início da escravidão, houve leis que tratavam pessoas como mercadoria. E após a abolição, seus descendentes foram considerados cidadãos de segunda classe. Ler autores negros é uma maneira de conhecer o outro lado da história. É a confirmação de que o intelecto e o talento não são determinados pela cor da pele de ninguém.

*Ricardo Santos é escritor, editor e servidor público. Nasceu em Salvador e é formado em Jornalismo pela Uesb. Ele possui um blog e seus contos foram publicados em sites, coletâneas e revistas, como Somnium e Trasgo. Organizou a coletânea Estranha Bahia (EX! Editora, 2016; 2ª edição 2019), finalista do prêmio Argos. Também é autor do romance juvenil Um Jardim de Maravilhas e Pesadelos (2015) e do livro de viagens Homem com Mochila (2018). Seu mais recente livro é a coletânea Cyberpunk (Draco, 2019). 

Foto de capa: Blogueiras Negras

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