Obras para conhecer e cuidar da saúde mental durante a pandemia

Livros, filmes, séries e lives de shows de música estão dando alento emocional para as pessoas esquecerem por um instante as dificuldades provocadas pela pandemia 19 de julho de 2020 Ricardo Santos

A pandemia está afetando a saúde mental de todos nós. Surgiram ainda mais problemas: distanciamento dos amigos e familiares, maior precarização do trabalho, mais desemprego, aumento da fome, mais desabrigados, mais doenças e até mortes de pessoas queridas. Fora que, no contexto do Brasil, ainda temos que enfrentar uma sucessão de crises políticas, que só agrava a situação da covid-19 no país. É muito estresse para o brasileiro aguentar.

Aqueles que são responsáveis e estão cumprindo a quarentena procuram maneiras de se manter ocupados. A cultura está literalmente salvando a vida de muita gente. Livros, filmes, séries e lives de shows de música e de performances teatrais, por exemplo, estão dando alento emocional para as pessoas esquecerem por um instante as dificuldades provocadas pela pandemia. Assim podemos refletir sobre suas consequências de forma mais equilibrada, após essa “pausa mental”.

Minha proposta aqui é apresentar algumas dicas que proporcionem esse descanso para nossas mentes. São obras otimistas, mas que não ofendem a inteligência. Há dramas e até tristeza, porém o saldo é bastante positivo. São histórias que nos divertem, emocionam e ensinam.

“Contos dos orixás é uma bela homenagem à cultura afro-brasileira, tantas vezes atacada por visões distorcidas e preconceituosas”, Ricardo Santos. Foto: Reprodução/Internet

Contos dos orixás é uma história em quadrinhos desenhada e roteirizada pelo baiano Hugo Canuto. Mostra um mundo fantástico inspirado na cultura dos orixás. Os heróis são entidades como Xangô, Iemanjá e Exu. A grande sacada do autor foi criar uma narrativa vibrante, ao estilo Marvel, na qual a imaginação corre solta. Mesmo assim houve muita pesquisa e consultoria de pessoas ligadas ao candomblé. Contos dos orixás é uma bela homenagem à cultura afro-brasileira, tantas vezes atacada por visões distorcidas e preconceituosas.

MARI.O é uma novela juvenil de ficção científica que bebe de várias fontes, desde o clássico Pinóquio, passando por filmes de Spielberg e chegando a produções mais recentes, como WALL-E e Alitta: Anjo de Combate. O já batido cenário da distopia ganha um novo fôlego pelas boas ideias do autor baiano Ian Fraser para a construção desse mundo. As referências brasileiras e nordestinas estão presentes de maneira orgânica. O livro é um alerta ecológico. Fugindo do didatismo, nos mostra as consequências de um mundo transformado para pior pela ganância. É daquelas histórias juvenis que agrada leitores jovens e adultos.

As inverdades nunca ditas é uma novela da jovem autora baiana Mariana Madelinn, que já mostra maturidade em sua escrita. Há um cuidado na pesquisa para fugir de estereótipos quando se trata do tema do ciganismo. Na História, os ciganos sempre foram povos perseguidos. Safira, a protagonista, é uma cigana que percorre a Bahia, ao longo do século 20, sempre em busca de uma oportunidade de manter sua juventude. Ela é uma personagem complexa, que faz sofrer e sofre, nem vilã nem mocinha. A estrutura episódica de cada capítulo tem a vantagem de revelar várias facetas de Safira e o comportamento humano por meio de outros personagens. O final é arrebatador em sua simplicidade e força.

Você nem imagina é uma “dramédia” adolescente que conta uma história de amor cheia de mal-entendidos, mas também cheia de delicadezas. Ellie Chu é uma jovem chinesa que mora com o pai numa cidadezinha dos EUA. Ela é uma aluna exemplar que esconde sua paixão por uma colega de escola, Aster. Mas outro colega, Paul, também gosta de Aster. Ele contrata Ellie para escrever cartas de amor. Ellie vê sua oportunidade de se declarar, mesmo que indiretamente. A diretora e roteirista Alice Wu cria personagens adolescentes tridimensionais, mostrando que ninguém é apenas uma coisa só. É realista e aquece o coração.

Steven Universo é uma animação para todas as idades. Com cinco temporadas e um longa-metragem, o mundo elaborado por Rebecca Sugar apresenta Steven, um menino cheio de amor para dar, criado por três mulheres com personalidades diferentes, amigas de sua falecida mãe. Com cada uma ele aprende aspectos da vida. Há também o pai de Steven, um homem que não tem medo de mostrar suas emoções. O lema do carinho e do cuidado é uma constante na série. Compreendemos que todas as formas de amor são válidas. Assim como todas as formas de famílias. E as canções grudam que nem chiclete na sua mente.

*Ricardo Santos é escritor, editor e servidor público. Nasceu em Salvador e é formado em Jornalismo pela Uesb. Ele possui um blog e seus contos foram publicados em sites, coletâneas e revistas, como Somnium e Trasgo. Seu mais recente livro é a coletânea Cyberpunk (Draco, 2019).

Foto de capa: Unsplash

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