Quadrinhos, um universo de histórias para explorar

Como a literatura e o cinema, as HQs são uma fonte de entretenimento e informação com roteiros bem construídos e personagens envolventes 26 de janeiro de 2020 Ricardo Santos

O leitor brasileiro de quadrinhos tem atualmente tanta oferta de títulos no mercado que até fica difícil saber o que ler, o que acompanhar. O Social Comics, uma espécie de Netflix de quadrinhos, firma-se como o meio com melhor custo-benefício para ler os quadrinistas brasileiros independentes. Faz tempo que muitos deles não devem nada aos artistas de fora no talento das ilustrações e na criatividade dos roteiros. O Catarse se tornou outra poderosa ferramenta para o autor independente chegar aos leitores por meio do financiamento coletivo.

Também devemos aplaudir de pé o trabalho de editoras pequenas, como Mino, Veneta e Pipoca & Nanquim, trazendo para o Brasil nomes estrangeiros menos conhecidos e apostando em quadrinistas nacionais. E há de se reconhecer que gigantes, como a Panini, trouxeram para o nosso mercado títulos novos e clássicos que o fã brasileiro já merecia ter na sua coleção. Continuo lendo DC e Marvel, porém, cada vez mais procuro quadrinhos de super-heróis com propostas diferentes, o que você encontra na Image, Dark Horse e Valiant, por exemplo.

Hitomi HQ

O HQ conta a história de Hitomi, uma garotinha numa pequena cidade do Japão, nos anos 1980. Foto: Reprodução/Editora Balão

O charme da HQ nacional Hitomi é sua simplicidade. Acompanhamos o cotidiano emocionalmente conturbado da garotinha Hitomi, numa pequena cidade do Japão, nos anos 1980. A relação com a mãe é difícil e o pai está sempre ausente. O contraste entre o drama e a leveza das ilustrações e cores de George Schall cria uma atmosfera curiosa, como se pudéssemos ver o cotidiano sob um novo olhar, com mais atenção. O roteiro de Ricardo Hirsch privilegia o silêncio, dando mais peso à solidão e ao isolamento de Hitomi. A partir do instante em que nossa protagonista encontra uma câmera e sai por aí tirando fotos, ela partirá para uma insólita jornada de amadurecimento. Hitomi foi publicada pela editora Balão.

Black Hammer é uma HQ de super-heróis surpreendente. Alia o visual da Era de Ouro dos quadrinhos, entre os anos 1930 e 1950, com um roteiro bem contemporâneo, criando uma atmosfera estranha e divertida. Temos um grupo de heróis aposentados, vivendo como uma família disfuncional, num fazenda no meio do nada. Seus dias de glória se foram e agora eles precisam aprender a lidar com as coisas banais da vida, num tipo de exílio forçado.

As histórias de origem dos personagens de Black Hammer, ao mesmo tempo, tiram sarro e fazem homenagem a heróis icônicos da Marvel e DC. O roteiro de Jeff Lemire consegue um ótimo equilíbrio entre o humor e o drama, com reviravoltas intrigantes. A arte de Dean Ormston e as cores de Dave Stewart captam bem o clima de ficção científica das antigas. Já foram publicados três volumes no Brasil pela editora Intrínseca.

Black Hammer HQ

Em Black Hammer, um grupo de heróis aposentados vivem como uma família disfuncional em uma fazenda no meio do nada. Foto: Reprodução/Editora Intríseca

O potiguar Wagner Willian se estabelece como um dos grandes nomes dos quadrinhos nacionais com essa obra-prima. Bulldogma é uma graphic novel de 320 páginas, cheia de bizarrices e reflexões sobre a existência e o universo. À medida que acompanhamos o cotidiano da protagonista, a ilustradora Deisy Mantovani, percebemos como sua vida fica cada vez complicada, entre frustrações profissionais, indefinições amorosas, procrastinação, erros, roubadas, papos, baladas, cachaça, sexo, numa São Paulo efervescente. Para piorar, ela começa a ver coisas que não fazem sentido, acontecimentos estranhíssimos ligados ao apartamento onde mora. O lugar faz parte da lenda urbana local, envolvendo abduções alienígenas. Aos poucos, Deisy entra numa espiral de paranoia, que vai aumentando, misturando pesadelo e realidade.

Bulldogma é uma HQ imprevisível. O estilo da arte varia, tornando-se impressionista, realista, cartunesco, de acordo com o momento da protagonista, na sua maneira de lidar com os outros e consigo mesma. Existe uma trama, mas o que importa mesmo é a atmosfera, os elementos que a compõe. O suspense avança, com surpresas e reviravoltas bem loucas. Bulldogma, publicada pela editora Veneta, é uma visceral homenagem ao cinema, à literatura e aos próprios quadrinhos, uma reflexão alucinada sobre a arte de narrar.

A maneira mais empolgante de conhecer a história do Japão feudal é lendo o clássico Lobo Solitário, publicado originalmente em revista, na década de 1970. As aventuras do estoico Itto Ogami e de seu nem sempre inocente filhinho Daigoro são, ao mesmo tempo, belas e brutais. O roteiro de Kazuo Koike tem soluções narrativas ora sutis, ora de grande força, além da extensa pesquisa sobre o período Edo (1603-1868), o auge do xogunato, uma espécie de ditadura militar.

Em Lobo Solitário, a visão de mundo é aparentemente amarga, mas, no fundo, há um senso de justiça. Itto Ogami é um anti-herói à maneira dos cowboys interpretados por Clint Eastwood. Um canalha na superfície, mas com uma ética que procura fazer o certo. A arte de Goseki Kojima transforma todo esse contexto em imagens de um realismo e de uma fluidez cinematográficos.

Lobo Solitário (que, na verdade, é um título inadequado para o contexto da HQ) tem um histórico de publicação complicado no Brasil, saindo no passado por várias editoras, em edições incompletas. Mas, a partir de 2016, a editora Panini começou a republicar o título, direto da versão japonesa. Até agora foram lançado dezessete volumes de um total de vinte e dois. Lobo Solitário é uma saga obrigatória para fãs de quadrinhos. E, para o público em geral, é uma leitura instrutiva e cheia de emoção.

Os quadrinhos são uma forma de entretenimento e informação tão atraentes quanto a literatura e o cinema. Quem costuma lê-los deve ficar atento aos quadrinistas nacionais e estrangeiros, clássicos e contemporâneos, que procuram novas maneiras de contar histórias. E para quem acha que HQs é coisa só para crianças e adolescentes não sabe o que está perdendo.

*Ricardo Santos é escritor, editor e servidor público. Nasceu em Salvador e é formado em Jornalismo pela Uesb. Ele possui um blog e seus contos foram publicados em sites, coletâneas e revistas, como Somnium e Trasgo. Organizou a coletânea Estranha Bahia (EX! Editora, 2016; 2ª edição 2019), finalista do prêmio Argos. Também é autor do romance juvenil Um Jardim de Maravilhas e Pesadelos (2015) e do livro de viagens Homem com Mochila (2018). Seu mais recente livro é a coletânea Cyberpunk (Draco, 2019).

Foto de capa: Unsplash

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