Três escritores baianos concorrem ao Prêmio Jabuti de 2020

Na 62° edição da premiação, que acontece este ano, há uma valorização de temas relacionados à negritude, às minorias e às populações periféricas 9 de novembro de 2020 Ricardo Santos

O Jabuti é o prêmio literário mais tradicional do Brasil. Criado em 1958, pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), teve, em sua primeira edição, vencedores como Jorge Amado, na categoria romance, por Gabriela, Cravo e Canela. Ao longo das décadas, grandes nomes da literatura brasileira e profissionais do mercado editorial foram agraciados com a estatueta em formato de jabuti. Nos últimos anos, também foram distribuídos prêmios em dinheiro, que podem chegar a cem mil reais.

Em 2020, na sua 62ª edição, o Jabuti apresenta um perfil mais diverso, tanto em relação às obras finalistas, quanto ao corpo de jurados. Nas vinte categorias da premiação, percebe-se uma valorização de autores, livros e iniciativas relacionados à questão da negritude, a minorias e populações periféricas. Além da indicação de escritores independentes e nordestinos.

Volta e meia, o Jabuti envolve-se em polêmicas. Em 2010, o grupo editorial Record, um dos maiores do país, criticou os critérios de avaliação para escolha do Livro do Ano. Em edições anteriores, livros que não ficaram em primeiro lugar em suas respectivas categorias foram contemplados na principal categoria da premiação. Em 2011, a CBL alterou as regras para que tal fato não ocorresse mais.

Em 2017, foi criada a categoria História em Quadrinhos, uma antiga reivindicação dos artistas e editoras do setor, bastante prolífico e cheio de talentos, inclusive com nomes que trabalham para os mercados norte-americano e europeu.

A categoria Romance de Entretenimento surgiu em 2020, voltada para a literatura de gênero, como policial, terror, ficção científica e fantasia. A novidade dividiu opiniões. Alguns consideraram um justo reconhecimento. Outros criticaram por enquadrar, como apenas diversão, obras com o mesmo valor estético de indicados em Romance Literário.

Mas nenhuma polêmica fez tanto barulho quanto a protagonizada pelo então curador do Jabuti Pedro Almeida. Ele postou um comentário negacionista em suas redes sociais, relativizando, de maneira agressiva, a letalidade da covid-19. A mensagem viralizou, gerando muita indignação. No final, a CBL anunciou uma carta de renúncia do curador.

A verdade é que o Jabuti é importante para o mercado editorial, a cultura brasileira e os autores, principalmente, os independentes e de pequenas editoras. Cada vez mais, o prêmio se firma como uma grande vitrine, mesmo que as inscrições sejam pagas. Ainda é uma referência para o público leitor. Um finalista ou vencedor terá mais chances de ser lido. Outra verdade é que prêmios como esse mostram o seguinte: o maior fôlego da literatura brasileira contemporânea não está nas grandes editoras.

Em 2020, foram 2599 livros participantes do Jabuti. Em outubro, foi divulgada uma lista pré-liminar de selecionados. Entre eles, estavam os baianos Hugo Canuto, pela HQ Contos dos Orixás, e Ana Fátima, pelo livro de contos Cadernos Negros nº42. No início de novembro, foram anunciados os cinco finalistas em cada categoria. No caso, mais três baianos concorrem à estatueta. O historiador João José Reis, por Ganhadores: a greve negra de 1857 na Bahia, o romancista Itamar Vieira Júnior, por Torto Arado e o físico Alan Alves Brito, por Astrofísica para a educação básica: a origem dos elementos químicos no Universo, em co-autoria com Neusa Teresinha Massoni.

O livro “Astrofísica para a educação básica: a origem dos elementos químicos no Universo” é um trabalho de Alan Alves Brito em co-autoria com Neusa Teresinha Massoni.

Alan Alves Brito nasceu em Vitória da Conquista, mas, aos sete anos de idade, foi morar em Feira de Santana. Por isso, considera-se feirense, com direito a título de cidadão e tudo. Graduado em Física pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), mestre e doutor em Astrofísica Estelar pela USP, já correu o mundo como pesquisador visitante e estagiário de doutorado e pós-doutorado. Atualmente, dedica-se à vida acadêmica como professor adjunto no Instituto de Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e ao cargo de diretor do Observatório de Astronomia na mesma instituição, além de outras atividades ligadas à ciência no Brasil e no exterior. Sua mais nova faceta é a de escritor. Alan lançou recentemente duas obras, o romance juvenil Antônia e a caça ao tesouro cósmico e o livro de iniciação científica que concorre ao Jabuti, na categoria Ensaio de Ciências. O professor nos concedeu uma breve entrevista.

Romance juvenil “Antônia e a Caça ao Tesouro Cósmico” do autor Alan Alves Brito.

 

Esta é sua primeira indicação ao Jabuti. O que representa para você ser um autor finalista do prêmio literário mais tradicional do país?

Sim, a primeira indicação ao Jabuti, no primeiro livro que escrevi. Estou extremamente feliz com a indicação ao prêmio mais importante do livro brasileiro. Venho do Brasil profundo. Cresci sem acesso a livros em casa, mas burlava essa dificuldade tendo carteirinha da biblioteca municipal. Sempre gostei de ler e escrever. O processo de escrita e produção do livro agora indicado foi acompanhado de sentimentos múltiplos e muita ansiedade para vê-lo circular. Recebi com enorme impacto essa indicação. Nem consegui dormir direito de tanta felicidade. Os dois livros que escrevi até agora são, sobretudo, tecnologias sociais e bastante inovadores, cada um a seu modo. Ter esse reconhecimento num prêmio de altíssimo nível é simplesmente o máximo e recompensador em todos os sentidos.

Alan Alves Brito, finalista do Prêmio Jabuti 2020.

Você acredita que ser finalista e potencial vencedor do Jabuti possibilita abrir portas no mercado editorial?

O que posso certamente dizer, com base no que estou vivendo agora, é que a indicação ao prêmio deu muita visibilidade ao livro. Recebi cumprimentos em todos os nichos sociais e de trabalho em que circulo. Eu quero muito seguir escrevendo e gostaria de trabalhar com variadas editoras. Espero muito que essa experiência ajude a articular outras potentes possibilidades.

Que conselho você daria para quem pretende se tornar finalista do Jabuti?

Sigam escrevendo e contando histórias sem pensar em prêmios. Eles são consequência e não fim do processo. Mas devo admitir que sempre sonhei em ter um livro indicado ao Jabuti (risos). Mas são pensamentos que voam logo… São substituídos pelo sentimento maior de contar a história da melhor forma possível. Eu estou extremamente realizado já com a indicação, mas certamente será ainda mais incrível se chegar até a final. Uma honra ser finalista numa categoria com nomes como Marcelo Gleiser, Sidarta Ribeiro e Ulisses Copozzoli, entre outros grandes escritores e divulgadores de ciências no Brasil.

A cerimônia de premiação do Jabuti será no dia 26 de novembro, com transmissão pelas redes sociais da CBL.

*Ricardo Santos é escritor, editor e servidor público. Nasceu em Salvador e é formado em Jornalismo pela Uesb. Ele possui um blog e seus contos foram publicados em sites, coletâneas e revistas, como Somnium e Trasgo. Organizou a coletânea Estranha Bahia (EX! Editora, 2016; 2ª edição 2019), finalista do prêmio Argos. Também é autor do romance juvenil Um Jardim de Maravilhas e Pesadelos (2015) e do livro de viagens Homem com Mochila (2018). Seu mais recente livro é a coletânea Cyberpunk (Draco, 2019). Ele e Morgana Poesis são os responsáveis pela coluna #Entrelinhas, com publicações a cada 15 dias no site Avoador.

 

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