“Tropas Estelares”: romance norte-americano mistura ficção e manifesto político

O livro de 1959 é responsável por fundar o subgênero literário ficção científica militar e mostra como os fascistas pensam a sociedade 2 de março de 2020 Ricardo Santos

Em tempos de milicianização do Brasil, em que policiais militares se voltam contra o Estado e, principalmente, a população por interesses políticos e econômicos, e de militarização do governo federal, com oficiais do exército ocupando cada vez mais cargos importantes, a leitura de um romance como Tropas Estelares nos mostra como fascistas pensam a sociedade.

Publicado em 1959, é um livro ainda controverso, que praticamente fundou um subgênero literário, a ficção científica militar. Além de influenciar a indústria do entretenimento (principalmente, os games) e a indústria bélica, inspirando projetos para a criação de super trajes de combate. A obra provocou diversas polêmicas ideológicas, com ataques e defesas das ideias do autor. Robert A. Heinlein foi um homem de direita, ex-oficial da marinha americana e um dos mais prolíficos e influentes escritores de ficção científica de todos os tempos.

Tropas Estelares conta a história do soldado filipino Juan Rico, de família abastada, que se alista voluntariamente para combater uma raça alienígena insectóide que ameaça a Terra, num futuro distante. Devido à situação extrema da humanidade, os governos do mundo criaram uma Federação comandada por uma elite militar.

Do ponto de vista narrativo, o livro pouco se sustenta. O protagonista tem apelo, em sua ironia ou em seu drama exposto, nos melhores momentos de dúvidas pessoais, do seu papel na sociedade e em algumas descrições vívidas sobre o cotidiano militar. Mas nos piores momentos, essa mesma voz se perde numa minúcia irritante sobre condutas e patentes e numa devoção cada vez maior pelo espírito de corpo das Forças Armadas. A burocracia militar é descrita em muitas páginas, enquanto que os conflitos internos dos personagens e a guerra contra os insetos alienígenas não são devidamente explorados.

“A leitura de um romance como Tropas Estelares nos mostra como fascistas pensam a sociedade”, Ricardo Santos. Foto: Editora Aleph

Em termos filosóficos, o romance procura vender uma ideologia do mérito pelo esforço militar. Neste mundo, os cidadãos que decidem o destino da sociedade, que podem votar, são aqueles que servem as Forças Amadas. Sendo considerados como gente mais sábia porque pensam mais em termos gerais, no todo, do que pessoais, no indivíduo. Ninguém é obrigado a se alistar. Mas quem o faz tem mais chance de provar que é capaz de tomar decisões melhores, porque lutou, literalmente, por seu way of life, seu modo de vida. Diferente daqueles que supostamente receberam a liberdade de mãos beijadas.

Heinlein discorre bastante, por meio de seus personagens, sobre temas como dever, responsabilidade, o preço da liberdade, altruísmo, o valor do coletivo e do indivíduo. Ele promove uma utopia militarista, mas não de maneira rasa. As políticas e estruturas sociais e burocráticas de sua sociedade ideal podem gerar uma interessante discussão sobre poder, formas de governo e a vontade do povo.

A maior falha do seu raciocínio foi não problematizar as implicações de sua utopia. Onde se encaixaria a frustração social de quem não pode decidir sobre o próprio destino? E a vida militar seria a única contribuição social efetiva? E o que dizer sobre a corrupção nas altas esferas, movida por interesses pessoais de riqueza e status?

O livro é um reflexo do cenário após a Segunda Guerra Mundial e a Guerra da Coréia, com o receio do avanço comunista. Mas, curiosamente, a forma de governo pensada por Heinlein guarda semelhanças com a China atual, uma sociedade de consumo que tem uma elite administrativa fortemente militarizada.

Como ficção apenas, o livro não convence. Como manifesto político apenas, também não. Mas é o conjunto do que há de melhor nesses dois aspectos que faz de Tropas Estelares um romance influente para outros autores e ainda relevante para o debate.

*Ricardo Santos é escritor, editor e servidor público. Nasceu em Salvador e é formado em Jornalismo pela Uesb. Ele possui um blog e seus contos foram publicados em sites, coletâneas e revistas, como Somnium e Trasgo. Organizou a coletânea Estranha Bahia (EX! Editora, 2016; 2ª edição 2019), finalista do prêmio Argos. Também é autor do romance juvenil Um Jardim de Maravilhas e Pesadelos (2015) e do livro de viagens Homem com Mochila (2018). Seu mais recente livro é a coletânea Cyberpunk (Draco, 2019).

Imagem de capa: Unsplash

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *