Estudo diz que covid-19 altera a produção de hormônios em homens

A capacidade de os espermatozóides se moverem e fertilizarem um óvulo caiu de acima de 50% para entre 8% e 12%, mesmo após um ano de recuperação da doença 10 de setembro de 2021 Sara Dutra

Levantamento com homens que foram infectados com a covid-19 identificou alteração nos exames de fertilidade e hormonais. A capacidade de os espermatozóides se moverem e fertilizarem o óvulo caiu de acima de 50% para entre 8% e 12%. O índice permaneceu igual, quase um ano após se recuperarem da doença. A informação foi publicada na revista Veja.

A pesquisa é do andrologista, Jorge Hallack, que também é professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenador do Grupo de Estudos em Saúde do Homem do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), que acompanhou pacientes desde o início do ano passado.

Outra informação dos testes hormonais foi que os níveis de testosterona de muitos dos pacientes também despencaram. O nível normal do hormônio era de 300 a 500 nanogramas por decilitro de sangue (ng/dL), já em pacientes que tiveram o novo coronavírus, o índice variou para abaixo de 200, ou, ficou entre 70 e 80 ng/dL, mesmo em homens que foram assintomáticos ou tiveram sintomas leves durante o período que foram infectados.

Com a colaboração de colegas do Departamento de Patologia da FMUSP, o andrologista constatou que o vírus da covid-19 também infecta os testículos e prejudica a capacidade das gônadas masculinas de produzirem espermatozóides e hormônios. Além disso, em um estudo feito com 26 pacientes que contraíram o vírus, com idade média de 33 anos, os pesquisadores analisaram por meio de ultrassom que mais da metade dos pacientes apresentavam inflamação no epidídimo, ou seja, uma estrutura responsável pelo armazenamento dos espermatozóides e onde eles conseguem a capacidade de se locomoverem.

Hallack sugere que adolescentes, adultos jovens e homens em idade reprodutiva procurem um urologista ou andrologista para fazer uma consulta. “Ao contrário de uma infecção bacteriana clássica ou por outros vírus, como o da caxumba, que causa inchaço e comumente desconforto ou dor nos testículos em um terço dos acometidos, a epididimite causada pelo novo coronavírus é indolor e não é possível de ser diagnosticada por apalpamento [exame físico] ou a olho nu”, disse.

Invasão nas células testiculares

Outro estudo publicado pelos mesmos pesquisadores, com o apoio da Fapesp, mostrou que o coronavírus invade todos os tipos de células testiculares, causando lesões e prejudicando a função hormonal e a fertilidade masculina.

Para fazer o estudo, foram extraídas amostras de tecidos testiculares de 11 homens, com idade entre 32 e 88 anos, que morreram na HC-FMUSP por causa da covid-19 grave. Os resultados indicaram lesões nos testículos que podem ser associadas a alterações inflamatórias que diminuem a produção de espermatozóides (espermatogênese) e hormônios. “O que nos chamou a atenção de imediato nesses pacientes que morreram em decorrência da Covid-19 foi a diminuição drástica da espermatogênese. Mesmo os mais jovens, em idade fértil, praticamente não tinham espermatozóides”, explicou o infectologista e patologista da FMUSP e do Instituto Adolfo Lutz e coordenador do estudo, Amaro Nunes Duarte Neto.

De acordo com Duarte Neto, algumas das causas para a diminuição da produção de espermatozóides foram as lesões causadas pelo vírus nos vasos de parênquima testicular, com a presença de trombose, que levaram à hipóxia, que é ausência de oxigenação nos tecidos, além de fibroses que bloqueiam os túbulos onde os espermatozóides são produzidos. Outra possível causa também é a perda de células de Leydig, que se encontram entre os túbulos que produzem espermatozóides e testosterona.

Aumento da infertilidade masculina

A principal preocupação está relacionada aos homens em idade reprodutiva, adolescentes e pré-púberes, pois não se sabe os impactos na puberdade em relação a fertilidade e se a produção de hormônios será afetada de forma provisória, prolongada ou definitiva.

O estudo de Hallack estima que o coronavírus poderá causar um aumento na infertilidade masculina. Atualmente, entre 15% e 18% dos casais enfrentam dificuldades para terem filhos, 52% dos casos são por problemas masculinos. E isso pode estimular a busca por técnicas de reprodução assistida. “Será preciso tomar muito cuidado com a reprodução assistida pós-pandemia de Covid-19, pois não se sabe as consequências disso nos meses subsequentes à infecção”, disse Hallak.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *