Kit-covid: remédios sem eficácia comprovada são receitados em Conquista

Das unidades de atendimento de saúde da Prefeitura aos hospitais e consultórios médicos, os medicamentos do kit-covid são prescritos para pacientes com suspeita da covid-19 26 de março de 2021 Érika Camargo

Em meio ao momento mais grave da crise sanitária causada pelo coronavírus (covid-19), quando o Brasil ultrapassa a marca de 300.000 mortes por covid-19, o kit-covid defendido pelo presidente Jair Bolsonaro desde o início da pandemia, finalmente, é rejeitado por uma parte da comunidade médica em nota publicada pela Associação Médica Brasileira na última terça-feira (23 de março). Além disso, surgem denúncias dos malefícios causados pelos medicamentos em diferentes lugares do país, de Porto Alegre a São Paulo.

Em Vitória da Conquista, terceira maior cidade da Bahia, neste sábado (27/03), completa-se uma semana do velório e enterro do prefeito Herzem Gusmão, 72 anos, que era um dos defensores do kit-covid e morreu em consequência de sequelas causadas pela doença em 18 de março de 2021. Reeleito nas eleições municipais de 2020, divulgou ter positivado para o vírus em 7 dezembro, sendo internado 11 dias depois no hospital Samur (18/12/2020) e deu entrada no Hospital Sírio-Libanês (São Paulo) no dia 26 do mesmo mês, uma semana antes da data em que tomaria posse como prefeito. Chegou a ser empossado ainda internado no Hospital, por meio de videoconferência, no dia 8 de janeiro, mas não resistiu e acabou morrendo.

“Eu estou aqui para dar uma grande notícia”, anunciou Herzem Gusmão, então prefeito de Conquista, em vídeo publicado em suas redes sociais no dia 23 de julho de 2020. 

O kit-covid, que inclui a cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina, entre outros medicamentos, não salvou Herzem do vírus, mas alavancou a cidade à destaque nacional. O prefeito, defensor do chamado tratamento precoce, foi mencionado e criticado pelo jornal Estado de S. Paulo e pelo colunista da Folha de S.Paulo, Reinaldo Azevedo. Conquista saiu do anonimato do interior baiano para ser uma referência na defesa do “kit-covid”. Dos postos de saúde às clínicas particulares, o tratamento precoce é preconizado aos pacientes na cidade. 

Herzem Gusmão, Airton Soligo (assessor do ex-ministro da saúde Eduardo Pazuello), deputado Elmar Nascimento e Ramona Cerqueira, secretária de saúde da PMVC na ocasião da visita do ex-prefeito à Brasília

 “A notícia boa”, explicou o ex-prefeito, “é que nós solicitamos ao Ministério da Saúde que mande para Vitória da Conquista a hidroxicloroquina”. Ele também informou que a Prefeitura iria comprar os fármacos ivermectina e azitromicina. “É mais uma providência em defesa da vida”, afirma. 

Um documento publicado em 17 de agosto de 2020 no Portal Brasileiro de Dados Abertos, ferramenta do Governo Federal para a disponibilização de dados públicos, demonstra que Conquista recebeu, em um só lote, 50.000 comprimidos de Diosfato de Cloroquina 150 mg. 

Em outro dado público, este de fevereiro de 2021, disponível no Portal de Transparência da PMVC, a Prefeitura lista alguns medicamentos requisitados à empresa Medisil Comercial Farmacêutica Hospitalar de Higiene e Transportes LTDA, entre os quais está a solicitação de 2.000 unidades de hidroxicloroquina no valor de R$ R$ 5.060,00. 

A equipe do Avoador enviou um e-mail à Secretaria de Comunicação (Secom) da Prefeitura questionando se os kits foram adquiridos em outras ocasiões, qual foi o total investido nesses medicamentos e se o ex-prefeito Herzem Gusmão, que preconizava o tratamento precoce para a população conquistense, foi tratado com os medicamentos. Até o fechamento desta publicação, não houve resposta. 

Nos postos da rede municipal de saúde, médicos têm receitado hidroxicloroquina, cloroquina, azitromicina, ivermectina. Uma advogada, que pediu para não ser identificada, contou que alguns membros de sua família foram diagnosticados com covid-19, se consultaram em unidades de saúde da cidade e vários profissionais prescreveram medicamentos do kit covid. “Um braço da minha família teve covid-19, inclusive o meu pai. A maioria dos médicos que consultamos receitou o tratamento precoce, do plantonista ao pneumologista”. Uma das receitas, entregue no início deste mês (02/03/21) com o brasão da Prefeitura, prescreve os medicamentos hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina, entre outros.  

Outro paciente buscou o sistema privado de saúde, em 12 de fevereiro deste ano, e também recebeu a prescrição dos medicamentos que compõem o kit-covid. Eles pediram para não serem identificados, mas passaram pela mesma situação. “Meu padrasto foi atendido por um médico que receitou Ivermectina pra ele como prevenção, mesmo com o teste tendo dado negativo”.

Na sua defesa do kit-covid, Herzem também disse que foi a Brasília e entregou ao Ministério da Saúde um documento assinado por mais de 150 médicos defendendo o uso de medicamentos para o “tratamento precoce”. Em 2020, circulou uma carta com 155 nomes de médicos e seus respectivos registros no Conselho Regional de Medicina. Neste ano, essa carta voltou novamente a ser compartilhada nas redes sociais e aplicativo de mensagens, como WhatsApp.

Não existe tratamento precoce

Em nota a Associação Médica Brasileira (AMB), declarou que não há tratamento precoce contra a covid-19 e que os medicamentos até então utilizados pelo “kit-covid” não tem eficácia comprovada. “Essas drogas não possuem eficácia científica comprovada de benefício no tratamento ou prevenção da COVID-19, seja na fase inicial ou nas fases avançadas dessa doença, sendo que, portanto, a utilização desses fármacos deve ser banida”. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já se manifestou reiteradas vezes que a hidroxicloroquina e cloroquina não funcionam no tratamento do novo coronavírus. Já a European Medicines Agency, na última segunda-feira (22/03), emitiu uma nota de que a ivermectina não é um medicamento aprovado e recomendado para a doença na União Europeia. No Brasil, a própria fabricante da Ivermectina fez um comunicado para informar que não há base científica que demonstrem efeitos significativos do medicamento contra a covid-19.

O médico especialista em Atenção Básica e professor do curso de Medicina da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Leandro Bertoldi, é enfático: “não existe tratamento precoce, é preciso deixar isso muito claro. Os medicamentos que compõem o chamado kit-covid não passaram pelo rigor metodológico adequado”. Segundo ele, esses supostos tratamentos ainda criaram uma falsa segurança que tem feito a população não valorizar as medidas preventivas, como o uso de máscara e o distanciamento social. 

O cardiologista Rodrigo Correia corrobora Bertoldi. Para ele, o “kit-covid” é o “kit-ilusão” ao criar essa falsa ilusão de proteção.  “Na realidade, não existe remédio preventivo. Muita gente que está tomando os remédios deste kit está iludida de que está protegida por esses medicamentos, mas acaba agindo como um agente transmissor do vírus”.

A vacina é a única maneira comprovada pela ciência para evitar a covid-19, segundo as pesquisas realizadas até o momento. “A vacinação tem se mostrado a estratégia mais eficaz e efetiva para controle da pandemia, e temos exemplos no controle de diversas doenças, tais como varíola e sarampo”, é que o defende o epidemiologista Cleber S. Jesus. 

Efeitos colaterais do kit covid

Em diferentes lugares do Brasil, tem surgido casos e evidências científicas que os medicamentos do kit-covid podem causar efeitos nocivos, como hemorragia, insuficiência renal e arritmia.  Apenas em São Paulo, nesta última semana, cinco pessoas sofreram lesões hepáticas decorrentes do uso de ivermectina e três outras morreram.

O médico André Botelho, que atende na UTI do Hospital Geral de Vitória da Conquista (HGVC), chama a atenção para o problema. “Já é comprovado que, com o uso desses remédios, você tem um risco maior de hepatite, associado ao uso de Ivermectina, alteração de ritmo cardíaco, que pode ser observado tanto com o uso da cloroquina quanto da azitromicina.” Ele enfatiza ainda que existem estudos mostrando que os medicamentos do kit-covid não fazem nenhuma diferença para evitar ou tratar a covid-19. “Portanto, estão administrando remédios que podem causar efeitos colaterais sem oferecer nenhum benefício”.

No próximo dia 31 de março, Conquista completa um ano do registro do primeiro paciente identificado com a covid-19. Desde então, contabiliza 22.851 casos confirmados, 361 óbitos e a morte do prefeito do município em decorrência de complicações causadas pela covid-19.

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