Pesquisa identifica que sonhos sobre limpeza tem predominado durante pandemia

Os resultados do estudo indicam que, quanto maior era o estágio de desconforto do indivíduo no período, mais comuns eram os relatos de sonhos associados à limpeza 21 de junho de 2020 Janaína Borges

Em meio à pandemia da covid-19, a neurocientista Natalia Mota, pós-doutoranda no Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, desenvolveu, em Natal, uma pesquisa com voluntários para identificar o grau de preocupação causado pela quarentena e pelo isolamento social com base em relatos oníricos, ou seja, dos sonhos. O resultado surpreendeu: os sonhos da maioria dos pesquisados estavam ligados à limpeza.

De acordo com a pesquisadora, devido a circunstância de isolamento imposto pela covid-19 e as mudanças de hábitos que a população teve que adotar, como manter distância, evitar beijos, abraços, usar máscara para sair de casa, higienizar tudo com álcool em gel e se afastar de amigos, colegas de escola, de trabalho e até de familiares, o cérebro foi conduzido a recorrer aos sonhos para metabolizar as emoções vividas durante o dia e absorver experiências que possam beneficiar a sobrevivência, adaptando-se ao que agora seria o normal.

O grupo de voluntários foi estudado durante o primeiro mês da adoção das medidas. Os resultados do estudo indicam que, quanto maior era o estágio de desconforto do indivíduo no período, mais comuns eram os relatos de sonhos associados à limpeza. “Segundo alguns teóricos, a realidade onírica é como uma super-realidade virtual que nos permite, em um contexto de medo profundo, treinar e melhorar a performance em aspectos cruciais do cotidiano”, relata Natalia.

Estudos anteriores realizados pelo grupo confirmaram que os relatos de sonhos se constituem como um material precioso para essa espécie de análise, já que garantem acesso direto ao que vai no inconsciente dos indivíduos. “Se eu te contar como foi meu dia ontem, por exemplo, será um relato cronológico e baseado em fatos reais. Não será muito diferente do relato de um paciente bipolar ou esquizofrênico. Mas quando comparamos narrativas oníricas vemos que são completamente distintas”, afirma o orientador do projeto, o neurocientista Sidarta Ribeiro.

Foto: Vera Petrunina/istock

Os relatos colhidos dos 67 voluntários foram analisados por meio de três ferramentas elaboradas pelo grupo de pesquisa de Ribeiro. A primeira é focada na estrutura do discurso e compara a complexidade e como estão conectadas nas palavras usadas na narrativa. A segunda e a terceira técnicas têm como ponto principal o conteúdo do discurso. Uma mede a proporção de palavras colocadas em determinadas classes, como o conteúdo sentimental, por exemplo. Foi observado a quantidade de palavras relacionadas a emoções positivas e negativas. E a outra, mede a semelhança dos relatos a temas específicos por meio da elaboração de mapas de similaridade semântica, conseguindo determinar o quanto as palavras utilizadas no relato são parecidas com termos como “contaminação”, “limpeza”, “doença”, “saúde, “morte” e “vida”.

Após o fim do experimento, os voluntários passaram por uma avaliação da experiência de observar os próprios sonhos ao longo de um mês, e as respostas foram casadas entre sentimentos positivos, como esperança, e negativos, como ansiedade. De acordo com Natalia, os pontos negativos foram mais constantes nos indivíduos que os sonhos estavam mais associados à contaminação e limpeza. “De maneira geral, concluímos que foi um processo benéfico observar os sonhos nesse momento de pandemia. É uma forma de olhar para nossas emoções e refletir sobre o que estamos vivenciando e pode favorecer a busca por soluções”, considera a pesquisadora.

E você, com o que tem sonhado nesses últimos meses? Conta para gente aqui nos comentários.

Foto: Shutterstock

Fonte: Revista Galileu

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