“A pesquisa científica é fundamental se um país quer se colocar entre os líderes do mundo”, diz diretor da Finep

Em entrevista, Wanderley Souza fala sobre importância da pesquisa para o desenvolvimento do Brasil e as saídas possíveis para superar a crise na educação brasileira nos próximos anos 18 de setembro de 2018

Desde que a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 55 foi aprovada, em 2016, os investimentos públicos em áreas essenciais têm reduzido. A educação é um dos setores que mais tem sofrido. As universidades públicas, por exemplo, tiveram cortes orçamentários até em verbas para manutenção e custeio, como a limpeza de prédios. Já a pesquisa é a mais atacada.

No início de agosto, a comunidade científica brasileira foi surpreendida com um anúncio desanimador para a pesquisa no país. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), fundação ligada ao Ministério da Educação (MEC) havia alertado, por meio de nota pública, que a produção de ciência sofreria uma série de prejuízos caso o governo mantivesse a proposta orçamentária sugerida para o órgão em 2019. Dentre eles, o maior baque recairia sobre a quantidade de bolsas oferecidas pela instituição: cerca de 200 mil a menos, sendo 93 mil de pós-graduação e outras 105 mil de programas de formação de professores.

A informação mobilizou campanhas nas redes sociais e gerou indignação nacional. Dois dias depois, em 4 de agosto, o MEC garantiu, também por meio de nota, que o pagamento das bolsas da Capes não será suspenso. Contudo, as incertezas ainda pairam sobre o assunto, já que a suspensão prevista tem relação direta com PEC 55, que congelou os gastos públicos por 20 anos.

Diversos setores e órgãos têm se mobilizado para debater o assunto. No dia 27 de agosto, Wanderley Souza, representante da agência Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep), empresa pública brasileira de fomento à ciência, tecnologia e inovação, realizou uma palestra na Uesb com o intuito de discutir o fomento à infraestrutura para as pesquisas dentro das instituições brasileiras. A equipe do Avoador aproveitou a oportunidade para realizar uma entrevista com ele sobre a importância da pesquisa para o desenvolvimento do Brasil e as saídas possíveis para superar a crise na educação brasileira nos próximos anos.

“Eu tenho orgulho de ser um dos primeiros bolsistas de Iniciação Científica do país”, lembrou na abertura da palestra. Ele recebeu a bolsa de Iniciação número 31 diretamente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no final da década de 1980, época em que o programa foi criado. Desde então, Wanderley já produziu mais de 600 artigos em sua trajetória acadêmica. Para ele, a missão primordial das universidades é gerar “o avanço do conhecimento em todas as áreas”.

Wanderley Souza fala sobre a evolução do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, em palestra na Uesb. Foto: Avoador.

Souza foi secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio de Janeiro, quando criou o Centro de Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cederj), que deu origem à Universidade Aberta do Brasil. Também já foi diretor do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), vice-diretor e diretor do Instituto Carlos Chagas e primeiro reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro e da Universidade Estadual da Zona Oeste, em Campo Grande. Além disso, é membro das academias Nacional de Medicina, Brasileira de Ciências e de Ciências do Terceiro Mundo.

Avoador: Qual é o papel da pesquisa científica hoje em um país como o Brasil? E qual o lugar que a ciência ocupa nele atualmente?

W. S.: A pesquisa científica é fundamental se um país quer se colocar entre os líderes do mundo. É impossível querer ter uma posição de destaque ou ter crescimento econômico sem que haja uma atividade de pesquisa muito forte. Ela é a base para que o setor industrial brasileiro, por exemplo, possa ter novas informações e melhorar seus produtos. Nenhum país hoje cresce sem o aproveitamento integral de sua matéria-prima e pra isso se exige ciência e tecnologia. O Brasil ocupa hoje a décima terceira posição no mundo em produção científica. É uma posição boa, mas que precisa melhorar porque nós temos a oitava melhor economia. A primeira, que são os Estados Unidos, também é a primeira em produção de conhecimento. O Brasil tem aí um deslocamento no que ele representa em ciência e no que ele representa em economia. Então, o país precisa avançar, mas também precisa se aproximar do setor produtivo, porque nós temos produzido muito pouco material altamente competitivo a nível internacional.

 

“É impossível querer ter uma posição de destaque ou ter crescimento econômico sem que haja uma atividade de pesquisa muito forte”

 

Avoador: Há discrepância entre a qualidade e a quantidade na produção científica brasileira? Como senhor avalia isso?

W.S.: Veja bem, para haver qualidade, é preciso quantidade. É impossível você achar que em todo lugar haverá produções de altíssima qualidade. É preciso haver uma diversidade bastante grande acompanhando todas as iniciativas em todos os lugares e, naturalmente, emergirá o que há de melhor. É como o futebol, por exemplo. Têm jogadores do Brasil no mundo inteiro. Depois de uma “peneira”, é que surgem aqueles que se destacam nos principais clubes. A ciência é assim, tem que ser praticada em todos os lugares.

Avoador: Recentemente, Capes, o CNPq e a própria Finep alertaram para o sucateamento da ciência e da pesquisa no Brasil diante do orçamento previsto para esse setor em 2019. De que forma e em quais aspectos essa decisão ameaça a pesquisa científica em nosso país?

W.S.: Nosso orçamento de 2018 representa um terço do orçamento de 2013. Portanto, tivemos aí um enxugamento considerável e isso está começando a chegar num ponto insustentável. Está começando a faltar bolsas para alunos em pós-graduação, cursos para investimento em equipamentos e manutenção… Nós temos feitos um esforço de otimização dos poucos recursos disponíveis e a situação ainda está sob controle, mas daqui para frente os investimentos precisam voltar a crescer. Se a gente ficar estagnado muito tempo, as melhores pessoas vão para o exterior. Já ocorre a saída de brasileiros estudantes para o exterior. Temos que estancar isso e propiciar ao novos todo o apoio que possam ter.

 

“Nós temos feitos um esforço de otimização dos poucos recursos disponíveis e a situação ainda está sob controle, mas daqui para frente os investimentos precisam voltar a crescer”

 

Avoador: E como a redução do orçamento para pesquisa ameaça a formação de novos pesquisadores?

W.S.: Justamente no momento em que há o corte de bolsas. Se não houver bolsas na pós-graduação, não aparecem alunos. Se não houver bolsas na Iniciação Científica, não aparecem também estudantes que queiram se dirigir para a atividade de pesquisa. Isso é uma cadeia e ela não pode ser interrompida.

Avoador: É perceptível um certo silenciamento da própria sociedade quanto ao sucateamento da pesquisa no Brasil. Além disso,  a ciência não é vista como um trabalho e os pesquisadores não são entendidos como trabalhadores pela maioria da população. Por que o senhor acha que acontece isso?

W. S.: Se deve ainda ao distanciamento entre a universidade e a sociedade. Quem está dentro das universidades sabe da importância da pesquisa e dos recursos, mas quem esta lá na rua, a sociedade em si, ainda não sabe. A universidade tem a obrigação de se aproximar mais das pessoas, mostrando o que faz, convidando a população a vir para o seu interior. Precisamos explicar o que estamos fazendo, e como os recursos são gastos e investidos aqui, quais os benefícios deles para o setor agropecuário, para a formação de professores, para o setor de saúde, etc. Tudo isso exige uma universidade ativa, uma universidade participativa.

 

“Quem está dentro das universidades sabe da importância da pesquisa e dos recursos, mas quem esta lá na rua, a sociedade em si, ainda não sabe”

 

Avoador: Para finalizar, o senhor acha que o resultado das eleições 2018 podem interferir nos rumos da pesquisa no Brasil?

W.S.: Veja bem, estamos todos preocupados em relação a isso, porque até agora os candidatos não colocam muito claramente a ciência como uma prioridade. A questão da segurança, da saúde e da educação é o que está prevalecendo.