Conceição Evaristo: “Minha história serve para questionar as regras da sociedade brasileira”

A escritora mineira publicou seu primeiro livro apenas aos 43 anos e somente na terceira idade passou a desfrutar do reconhecimento pela sua trajetória e obra 18 de agosto de 2018

Mulher, filha de lavadeira, Conceição Evaristo, 71 anos, é a escritora negra mais aclamada nos últimos anos no Brasil. Ela nasceu na periferia de Belo Horizonte, Minas Gerais, tem graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é mestre em literatura brasileira e doutora em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

O amor pela leitura começou cedo na vida da escritora, que foi despertada para esse prazer pelos livros encontrados pela mãe na rua e levados para casa. Para estudar, aos sete anos, ela foi morar com a sua tia, irmã de sua mãe. Mas, um ano depois, além de ir à escola, ela começou a trabalhar como doméstica e, nessas casas, ajudava os filhos das patroas a fazer as tarefas. Para completar os estudos, ela também fez serviços domésticos na casa de professores em troca de aulas particulares e livros. Com muito esforço, Conceição Evaristo finalizou o ensino primário e o ginásio – hoje, ensino médio. Nos anos de 1970, ao mudar para o Rio de Janeiro, conseguiu fazer a graduação em Letras e a pós-graduação completa, mestrado e doutorado.

Conceição Evaristo recebe homenagem na abertura da Fligê. Foto: Lari Carinhanha.

Este ano, a escritora concorre à sétima cadeira da Academia Brasileira de Letras, podendo ser a primeira mulher negra a assumir essa posição. Seu primeiro livro, Cadernos Negros, foi publicado, em 1990, aos 43 anos. Entre as suas principais obras estão: o romance memorialístico Becos da Memória (2006) e o conto Insubmissas Lágrimas de Mulheres (2016). Evaristo também tem ensaios publicados por editoras brasileiras e estrangeiras que discutem a cultura negra no Brasil.

Na Feira Literária de Mucugê (Fligê) de 2018, em Mucugê, na Bahia, aos 71 anos, Conceição Evaristo é a escritora homenageada, sendo uma referência para a literatura negra e feminina no Brasil, tanto na escrita literária quanto na escrita acadêmica. O Avoador conversou com a autora no evento sobre dois temas específicos: a participação da mulher negra na política e os atos políticos protagonizados por essas mulheres.

Avoador: A senhora trata em suas obras da insubmissão da mulher negra. Como isso pode acontecer, por exemplo, na política, já que estamos em período eleitoral?

 

Você pode observar nos cargos políticos, tanto nos cargos eletivos como nos cargos de nomeação, que não há um grande número de mulheres negras. Pelo contrário, você encontra um número de mulheres negras bastante reduzido. Nós temos competência para tudo. As mulheres negras sabem escrever, dançar, cantar. Elas cuidam de uma casa, elas cozinham, elas dão aula, elas exercem a medicina. Elas são capazes e têm várias habilidades como todas as outras mulheres. Então, as mulheres que têm habilidade para a política, que tem esse gosto pela política partidária e a política eletiva, que exige delas uma competência, o gostar, a liderança, o tino político. Então essas mulheres negras que gostam e que têm essa competência política têm um compromisso com toda coletividade negra, e elas devem procurar esses espaços e se apropriarem deles assim como as mulheres e os homens brancos se apropriam. Sempre dentro dessa perspectiva que todos os lugares são nossos também, mas não esquecer nunca que isso só faz sentido quando você tem uma fidelidade com a sua comunidade de origem. As mulheres negras devem se apropriar da política sem nunca se esquecerem desse compromisso, dessa fidelidade com a comunidade de origem.

“As mulheres negras que gostam e têm competência política têm um compromisso com toda coletividade negra”

Avoador: Nesse sentido, o caso de vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, que era uma mulher negra, lésbica, do subúrbio, é emblemático. Após a sua morte, saíram muitas inverdades a deslegitimando pela sua raça e pela sua cor. O que você pensa sobre isso? Como podemos reverter isso na nossa sociedade?

 

Eu acho que cada vez mais se posicionando nessa “sunção” da nossa condição étnica, e Marielle fez isso e realizou outras ações com competência. Agora, todos os comentários contrários e depreciativos que fizeram sobre Marielle representam o imaginário que as pessoas têm sobre as mulheres negras. O imaginário sobre as mulheres negras, inclusive a partir da própria literatura, é sempre um imaginário que nos inferioriza, que nos coloca no lugar da subalternidade ou que critica a nossa sexualidade, seja ela qual for. E quebrar com esse imaginário, que foi construído dentro de um processo histórico, não é fácil. Acho que cada uma de nós que consegue romper, que consegue sair desse lugar de subalternidade, esse lugar de exclusão onde a mulher negra é colocada, acho que cada uma de nós que consegue fazer isso, repito: sempre erguer a perspectiva da coletividade, eu acho que nós estamos trabalhando para essa desconstrução assim como Marielle, apesar de ter sido morta.

“O imaginário sobre as mulheres negras nos inferioriza, nos coloca no lugar da subalternidade ou critica a nossa sexualidade, seja ela qual for”

Avoador: A senhora está sendo homenageada na Fligê, em Mucugê, uma cidade baiana cuja maioria da população negra, e essa homenagem é um ato político. O que a senhora pensa sobre isso?

 

Para uma mulher negra, não só escrever é um ato político, como também publicar, poder se apresentar, poder se afirmar como escritora negra. Para mim, isso tem um sentido positivo muito grande, justamente porque sou uma mulher negra que se apresenta fora do lugar de subalternização que a sociedade brasileira nos coloca. Assim como hoje todos buscam a minha literatura, que também essa homenagem sirva de motivo de curiosidade para que busquem a literatura de outras mulheres negras que estão produzindo e publicando, mas que não tem ainda a visibilidade que eu tenho. E tenho dito muito também que não tomem a minha história como exemplar porque, quando você é exemplar, você corre o risco de ser considerada uma excepcionalidade e ser retirada do seu lugar de origem. Então, hoje eu acho que a minha história serve também para questionar que regras são essas da sociedade brasileira onde poucas escritoras negras têm visibilidade e se dá visibilidade a uma mulher com 71 anos de idade, por que custou tanto? Então, que a minha visibilidade não sirva para criar um discurso “nós temos uma escritora negra, já tá bom”, se não parece que a situação está resolvida, e não está.

 

“Para uma mulher negra, não só escrever é um ato político, como também publicar, poder se apresentar, poder se afirmar como escritora negra”

Avoador: Para finalizar, a senhora gostaria de dizer mais alguma coisa?

 

Cada pessoa negra que se projeta não pode esquecer que atrás dela tem várias pessoas que não se projetaram. Então eu acho que a gente tem todo o direito de buscar ascensão pessoal, mas essa ascensão só faz sentido se ela puder abrir caminho para outras pessoas também.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *