“A dança é uma técnica que exige se desafiar”, conta a bailarina Itana Leão

Em entrevista ao Avoador, ela nos conta sobre as dificuldades de Vitória da Conquista, a falta de valorização do público e muito mais. 9 de junho de 2017

Formada em balé clássico e há oito anos na cidade de Vitória da Conquista, a bailarina e professora Itana Leão é uma apaixonada pela arte da dança. Apesar de ter se graduado, inicialmente, em Letras, foi a dança que, desde cedo, a acompanhou, tanto como instrumento de lazer quanto profissionalmente. “A dança, para mim, representa vida, essência, continuidade”.

Atualmente, ela faz um curso à distância pela Universidade de Surrey da Inglaterra, o Certicate in Ballet Teaching Studies, que ensina técnicas em balé clássico, e estimula aos demais os profissionais de dança a estarem em constante aperfeiçoamento. “Eu acho que nós, enquanto profissionais, precisamos mostrar o que nós temos, precisamos dizer quem nós somos, dizer as nossas qualificações profissionais, para demonstrar o quanto precisamos estudar para estar em sala de aula”, enfatiza a bailarina.

Em entrevista ao Avoador, ela conta mais sobre as dificuldades em Conquista, numa cidade que não possui espaços públicos para a arte, a falta de valorização do público que está despreparado para eventos culturais e muito mais.

 

Avoador: Para trabalhar com arte, seja ela qual for, é necessário, além de habilidade e sensibilidade, uma dose de amor. Qual é a sua história na dança? O que ela representa para você?

Itana: Minha história com a dança foi amor à primeira vista. Na verdade, muito mais do que amor à primeira vista, já nasci amando a dança. Eu faço balé desde os três anos de idade. Hoje, já passei dos 30 e continuo dançando. Na verdade, eu acredito que a dança nos escolhe e não nós escolhemos a dança, porque, além das técnicas e do estilo que você busca, tem que ter uma sensibilidade de dentro para fora, ter um amor. Eu comecei a fazer o balé clássico aos três anos de idade por indicação médica e nunca mais parei. É a dança que sustenta a minha vida. Falar em dança é algo que me arrepia, porque tem que ser sentido para você entender o que é dançar. E isso é um desafio a mais na sua vida, porque é preciso estar sempre aberto a aprender, a se aprimorar. Afinal, a dança é uma técnica que exige se desafiar, se permitir e insistir. E a dança é a minha vida e dançar é aprimoramento, continuidade, sensibilidade.

“Só com um espaço e apresentações frequentes podemos criar a cultura de valorização da arte, seja da dança ou de qualquer outra. É preciso vivenciar a arte para saber apreciá-la.”

Avoador: E como é trabalhar com dança em Conquista e região? Exista uma procura por cursos na área?

Itana: Eu tenho uma escola há oito anos na cidade e, nesse período,percebi uma progressão. do como era antes para o como é hoje. As pessoas estão começando a entender que a dança vai muito além de uma atividade física. Ela hoje é educacional, além de proporcionar uma série de benefícios psicológicos.

Hoje, a procura existe, sim, mas ainda digamos que não é 100% compreendida. Isto é, as pessoas procuram, mas nem todas entendem o maior objetivo de fazer, de praticar essa dança. Muitos ainda estão na ideia de praticar como atividade física, o que não é errado, muito pelo contrário, é sim importante. Mas as pessoas precisam entender que a dança, como arte, tem uma trajetória, um progresso, e esse progresso é baseado em conteúdo, em continuidade. Você precisa compreender para praticar, não é simplesmente agir, dançar. Então, hoje em Conquista, em comparação ao que era, há oito anos, eu acho sim que melhorou bastante, mas ainda precisamos educar as pessoas no sentido da importância da dança. A procura existe. As pessoas têm nos procurado, principalmente, como uma fonte de fuga. Então, elas querem associar a atividade física ao prazer. O que você aprende na sala de aula é o que você leva para a vida, e isso em todos os sentidos, psicológicos, sociais, enfim.

 

Avoador: Este ano foi realizado o 5º Dança Conquista- festival de Danças que reuniu mais de 80 bailarinos de Conquista, região Sudoeste e até de Salvador. Qual a receptividade do público? E como foi a cobertura jornalística sobre o evento?

Itana: Sim, este ano fizemos o 5º Dança Conquista na nossa cidade. O quinto considerando que o primeiro ano foi um festival interno, em que os alunos criavam as coreografias, e dessas coreografias, eles iam sendo premiados. Este ano foram três dias de festival. Então, o objetivo maior do Dança Conquista é a valorização dessa arte que é a dança. O evento tem crescido nos últimos anos. Neste último, vieram representantes de 14 cidades da nossa região, inclusive, de Salvador, Poções. Foram mais de 200 bailarinos. Nós acreditamos que necessitamos ter projetos na região que abordem a dança, que interajam com essa cultura. Entretanto, a partir do momento que nós decidimos fazer, enfrentamos uma série de desafios, como de custo, de logística. Este ano a gente conseguiu alguns apoios, mas apoios em troca de serviço. Mas um dos maiores problemas para o evento é o fato da cidade não ter um teatro. Para mim, esse tem sido o pior e o mais difícil desafio de ser superado. Também tem a questão que as pessoas ainda acham que o ingresso deve ser grátis. Elas não entendem como tudo funciona, que por trás tem toda uma logística. Por isso, eu digo que 90% dos participantes do evento são de fora, ou seja, 10 % são de Conquista. Quanto à mídia, toda a nossa divulgação foi por rede social, compartilhamento e tudo mais, até porque foi o único meio financeiro viável. Quando acontece uma divulgação nos meios locais, é porque nós fomos procurar. Infelizmente, ainda falta a valorização do público para prestigiar, dos empresários para investirem na realização de eventos e da imprensa para divulgar.

“Para ser bailarino é preciso estudar durante anos, fazer cursos constantemente, e é uma vida dedicada à dança.”

Avoador: E o que falta para a dança ser mais valorizada em Conquista e região?

Itana: Eu acho que precisa um pouquinho mais de seriedade, de direcionamento. Hoje, talvez há muitas pessoas se dizendo “profissionais da dança”, o que talvez tenha trazido uma banalização. O profissional da área precisa se valorizar, porque para ser bailarino é preciso estudar durante anos, fazer cursos constantemente, é uma vida dedicada à dança. A gente também precisa de políticas públicas que incentivem e patrocinem projetos artísticos. A questão financeira também é complicada. Dança também tem logística, também tem custo. Então a falta desse investimento, desse olhar direcionado faz com que a dança fique limitada a quem tem condições de custear uma aula de dança, pagar um ingresso ou participar de eventos de formação. Então falta essa coisa mais coletiva, essa coisa mais acessível, de fato entender que dança é para todos. Falta ainda uma valorização cultural daqueles que se dizem com cultura, mas que ainda não entendem a importância que a arte tem na vida das pessoas.

“Então falta essa coisa mais coletiva, essa coisa mais acessível, de fato entender que dança é para todos.”

Avoador: Temos grandes talentos “perdidos” em Conquista? O que fazer para mudar esse cenário de anonimato?

Itana: Com certeza. Conquista é um celeiro de talentos. Nós temos muita gente boa, muitos bailarinos pouco reconhecidos, muitos grupos bons, e aí vem aquela grande questão da valorização e da falta de investimento. Nem todo mundo tem condição de investir, nem todo mundo tem condição de assistir e fazer aulas. Muita gente fica sem poder dançar, por conta da condição financeira, e talentos acabam desperdiçados por isso. Então, faltam projetos para valorizar esses talentos. Não adianta nada um talento parado no mesmo lugar. É preciso proporcionar as aulas e as condições para que esse passarinho voe mais alto. Para isso, é preciso investimento em projetos desse tipo. Eu, por exemplo, faço atividades extras para conseguir arrecadar fundos e poder visitar outros lugares e mostrar o meu trabalho. Mas, infelizmente, nem todo mundo tem essa condição. Mudar esse cenário é uma questão política. Enquanto isso não mudar, infelizmente, os anônimos irão existir e muitos talentos serão desperdiçados.

 

Avoador: Você acredita na dança como um instrumento de inclusão social?

Itana: Muitas crianças hoje de escolas públicas, de creches têm acesso à dança. É um tipo de inclusão que está sendo praticada. Mas é ainda aquela questão: não basta oferecer, tem que dizer o porquê, tem que dizer o para que. É preciso ensinar a valorizar a cultura, mostrar a sua importância, não apenas a prática pela dança por si só.

“Não há uma educação para a cultura, pois pessoas com acesso à dança, por exemplo, não conseguem valorizá-la. A cultura também deve acompanhar o processo de crescimento estrutural e econômico da cidade.”

Avoador: Além dos problemas colocados acima sobre o cenário da dança em Conquista, o que mais você tem a destacar?

Itana: Eu costumo dizer que nós artistas, não passamos por uma situação difícil, nós vivemos numa situação difícil, o que é constante. Talvez, por isso, que os artistas são tão verdadeiros, tão sensíveis. Eles estão acostumados com essas dificuldades e, mesmo assim, deixam transparecer o amor por sua arte de uma forma inatingível. Então o ideal seria que todos entendessem que essa arte ela tem valor. Um valor não só financeiro, mas um valor de essência, de sensibilidade, um valor de um público que saiba interpretar a dança. Então, eu acredito que culturalmente Conquista tem um ponto crítico. Não há uma educação para a cultura, pois pessoas com acesso à dança, por exemplo, não conseguem valorizá-la. A cultura também deve acompanhar o processo de crescimento estrutural e econômico da cidade. Vamos entender que a cidade precisa de um teatro, de um espaço cultural, de uma movimentação não só da dança, mas de todas as artes como um todo. Entender ainda que criar espaços culturais vai possibilitar que os nossos artistas mostrem o seu trabalho, que estes atraiam pessoas de fora, as quais irão movimentar a economia local. Então a maior crítica é exatamente de espaço que nós não temos, da ausência de uma intervenção pública nesse sentido. Só com um espaço e apresentações frequentes podemos criar a cultura de valorização da arte, seja da dança ou de qualquer outra. É preciso vivenciar a arte para saber apreciá-la.

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