“Eu vejo, eu olho, eu fotografo”

O fotógrafo Rogério Ferrari conta como a atenção, a sensibilidade e a leitura crítica da realidade são importantes para um bom registro 10 de outubro de 2018

Há mais de 30 anos como fotógrafo, passando inclusive pela convergência da fotografia analógica para a fotografia digital, Rogério Ferrari, 53 anos, natural da cidade de Ipiaú, no interior da Bahia, percorreu o mundo afora registrando diferentes povos e movimentos sociais e suas lutas. Esses registros hoje fazem parte do seu trabalho “Existências e Resistências”.

Os estudos sobre a humanidade e, ao mesmo tempo, a sua história na fotografia começaram na década de 1980, antes dele ingressar no curso de Ciências Sociais, que só finalizou em 2012. Em 2016, ele conquistou o título de mestre em Antropologia e, atualmente, faz doutorado nessa mesma área na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Rogério trabalhou como fotojornalista em diversos veículos de comunicação nacionais e internacionais. No Brasil, fotografou o Movimento dos Sem-Terra, os Ciganos na Bahia, os Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul e a vivência dos moradores das áreas periféricas de Salvador. No exterior, registrou os palestinos sob a ocupação israelense, os Curdos na Turquia, os Zapatistas no México, os refugiados palestinos no Líbano e na Jordânia, os refugiados Saarauis no deserto do Saara e nos territórios ocupados pelo Marrocos e os Mapuches no Chile.

Dentre suas produções bibliográficas, estão os livros fotográficos “Palestina – A Elouquência do Sangue” e “Parentes”, sendo este último o seu novo trabalho. O lançamento aconteceu em Vitória da Conquista no mês de setembro, quando participou da Jornada de Fotografia e Cinema da Uesb, promovida pelo curso de Cinema e Audiovisual, em parceira com o Janela Indiscreta Cine-Vídeo.

Na sua passagem pela cidade, o fotógrafo exibiu seu curta “Muros”, no qual que faz uma relação do cenário social das periferias de Salvador com o cenário da Palestina. Além disso, ministrou a oficina “Fazer fotografia: ver o olhar” e participou de um bate-papo, ao lado do fotógrafo conquistense Micael Aquillah, na escola de teatro Cazazul, onde também lançou seu livro. Além disso tudo, ele deu uma entrevista ao Avoador em que conta as conexões da sua obra, as sutilezas da sua técnica e marca e também do seu engajamento com os temas escolhidos para fotografar.

Avoador: Como você descobriu a sua marca como fotógrafo?

R. F.: Eu tive interações com fotógrafos fora do Brasil, que tinham certas críticas. Em uma ocasião, quando fui apresentar um trabalho, uma editora de um jornal fez uma crítica muito construtiva, de forma pontual, sobre as características da minha fotografia e foi o que me fez pensar. Esse foi um momento interessante, foi em 2008, quando eu já estava há oito anos fazendo um trabalho mais sistemático e, por atenção e consideração a essa crítica, que me pareceu muito pertinente pela propriedade das observações, eu coloquei mais atenção e mais critério no fazer, que já estava em mim e que eu fiz apenas aguçar. Isso se definiu mais em função de um trabalho a partir de uma única ou duas lentes especificamente, uma prioridade com a 50 mm, uma observação para alguns aspectos relacionados à composição da cena em cima daquilo que eu já vinha vendo… Enfim, um tipo de fotografia simples, mas que, a partir do meu olhar e da minha relação com os temas, eu formei uma perspectiva própria.

 

“A partir do meu olhar e da minha relação com os temas, eu formei uma perspectiva própria”

 

Avoador: E sobre ver e olhar, qual a sua percepção sobre esses termos em uma ótica pessoal e profissional?

R. F.: A banalização do olhar, a indiferença que significa ver e não olhar, ou seja, o olho é o músculo que a gente mais utiliza. Mas ele está atrofiado na medida em que a gente se depara com a realidade, se relaciona com as pessoas e com as coisas e perde de vista a atenção do próprio olhar, inclusive, de estar falando e se olhando, de estar passando pelas coisas, se relacionando com as coisas, vendo mas não olhando. Essa suposta dicotomia é para sugerir uma dimensão da falta de atenção. Quer dizer, ver a gente vê, mas o fato de olhar é para dizer que a atenção se põe ali. No caso da fotografia, é no sentido de pensar a fotografia, é como uma junção dessas coisas: eu vejo, eu olho, eu fotografo, eu reitero, eu comunico. Eu vou de encontro ao que é essa coisa estranha de que é ver e não olhar, como expressão da desatenção e de um condicionamento que turva o olhar.

Avoador: Em seu trabalho “Muros”, você faz uma relação do cenário brasileiro com o cenário da Palestina. E no conteúdo do curta, há uma mesclagem de fotos dos dois locais. Qual a importância dessa relação para o entendimento da situação social em que os dois países vivem?

R. F.: É a importância de perceber a equivalência das realidades. A condição comum ao mesmo tempo sobre a qual, seja não só como ser humano, porque existe todo tipo de ser humano, mas como pessoas que compartilham, ainda que em geografias diferentes, de uma mesma condição resultante de um poder que oprime; seja o poder de um estado nacional, seja o poder de um estado ou de uma força que ocupa outro território; seja em consequência de que as pessoas, no caso dos brasileiros que habitam as periferias do Brasil, sofrem a repressão que ocorre pelo fato de serem pobres e pretos e a condição socioeconômica que resulta de um processo histórico e atual  de  concentração de poder e de exploração da pessoa. Então, eu fiz uma relação no caso de Muros, um documentário realizado por Camele Queiroz e Fabrício Ramos, e a partir do trabalho que eu fiz na Palestina, a gente percebe o quanto há de equivalência entre a condição do povo brasileiro que vive nas periferias com a condição dos refugiados palestinos, diante da ocupação israelense. Há uma dimensão da violência de uma força ocupante no estado israelense e, no caso dos brasileiros, eles são refugiados em seu próprio país, assim como os palestinos.

 

“Os brasileiros são refugiados em seu próprio país, assim como os palestinos”

 

Avoador: Essa ideia surgiu por uma vivência nas periferias de Salvador?

R. F.: Sim. Na Palestina, me deu um estalo, me fez pensar naquilo que eu já conhecia porque eu tenho uma relação, desde transitar por diversos ambientes, desde o que foi a relação que eu tenho com a periferia e com as pessoas de um modo geral, pela minha posição política de buscar participar das ações comunitárias, da organização popular e também por meio do jornalismo. No caso de Salvador, eu transitei bastante pela periferia e vi a dimensão e a existência das pessoas sob um poder tão cruel, o poder do estado controlado pelo capital, por uma burguesia cruel. Então, eu tinha um conhecimento prévio das duas situações.

Avoador: Em seu novo livro, “Parentes”, como em outras obras suas, você coloca textos de sua autoria que, junto com as fotos, contam sobre a luta de povos indígenas por terra e autodeterminação. Nesses momentos, qual é a importância de atrelar a fotografia à palavra?

Livro “Parentes”, mais recente trabalho de Ferrari. Foto: Avoador.

R. F.: A palavra apareceu como um complemento, ou seja, o livro é de fotografia e a palavra vem acrescentar informações que são desconhecidas. Então, têm pessoas que escrevem no livro “Parentes” a respeito de um pataxó e mais duas outras pessoas, a fim de proporcionarem, através do texto, uma informação histórica e atual sobre a realidade e a diversidade dos povos indígenas na Bahia. O texto é um complemento, porque dentro do que faço, eu acredito na importância didática também, ou seja, no sentido de informar e educar, porém, não é simplesmente para uma educação passiva tal qual aquela que predomina no ensino formal, mas uma educação que sugira uma reação, que instigue a partir da informação. Assim, dentro desse propósito de que seja uma obra que tenha uma dimensão ampla, acho que o texto vem como um complemento para dar essa dimensão mais ampla a informação que eu quero proporcionar.

Avoador: Como fotojornalista há mais de 30 anos, quais são as dicas para uma boa fotografia em Jornalismo?

R. F.: Essa história de dar dicas é difícil, porque vai do que cada um entendeu. De como cada um se relaciona com as pessoas, de como cada um percebe as situações. Eu acho que a atenção, a sensibilidade, a conexão, o olhar, esses aspectos podem remeter a uma técnica, uma formação técnica, por conta da importância de você ter uma compreensão da linguagem fotográfica. Mas, sobretudo, é importante a leitura da situação, o que implica em uma preocupação e um interesse sobre a realidade na qual você está vivendo e que você está registrando. É uma coisa cultural, porque tem fotojornalistas que estão ali trabalhando, mas não têm uma implicação, um interesse em discernir ou de informar sobre a situação. A realidade na qual ele está se relacionando e informando, de alguma maneira, também lhe dá a possibilidade de discernir ao ponto de compor a cena, de como retratar e de que forma definir a perspectiva do relato.

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