Eva Mota e a marcenaria para mulheres

Após atuar por anos no Jornalismo, a baiana Eva Mota decidiu empreender e investir em oficinas de marcenaria para mulheres na Bahia e depois em São Paulo 23 de setembro de 2019

Jornalista, filha e neta de artesões, e empreendedora, há quase nove anos Eva Mota realiza oficinas de marcenaria “Faça Você Mesmo” para mulheres que desejam se profissionalizar ou apenas fazer da atividade um hobby. O projeto teve início em Vitória da Conquista, onde Eva se formou em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb).

Após finalizar a graduação em Design de Interiores em 2013, Eva deixou os telejornais para se dedicar a marcenaria artesanal. Na Rede Bahia e na Record, ela atuou como apresentadora, repórter, editora, produtora e chefe de Jornalismo. “Deixei de acreditar na forma de comunicação que elas praticavam. Por isso, eu decidi formar a minha própria empresa”, disse a baiana.

Em Conquista, a empresária não encontrou muito espaço para o seu projeto de marcenaria exclusivamente para mulheres. “Enquanto eu levava um mês para formar uma turma em Salvador, em Vitória da Conquista eu levava três meses”, contou Eva. Após um ano na cidade, ela se mudou para São Paulo, onde até hoje trabalha no ramo da marcenaria oferecendo workshops intensivos que duram de 8 a 9 horas por dia. Em entrevista ao Avoador, Eva falou sobre empreendedorismo, como surgiu o projeto e o machismo que precisa enfrentar todos os dias no mercado de trabalho.

Avoador: Quando e por que você decidiu trocar o jornalismo pelo empreendedorismo?

E.M.: Eu gosto de dizer que não troquei um pelo outro. Eu continuo sendo jornalista porque ainda trabalho com a comunicação, só não lido mais com o jornalismo factual. Hoje, eu escolho fazer comunicação na internet ao escrever para editorias específicas como as de cultura e economia. Por isso, digo que sou jornalista antes de qualquer coisa. Eu apenas saí das empresas onde trabalhei, que foram a TV Uesb, enquanto estudante, e depois, como profissional formada, a Rede Bahia e a Record Bahia. Eu não queria mais ser representada por nenhuma dessas empresas porque eu deixei de acreditar na forma de comunicação que elas praticavam. Por isso, eu decidi abrir o meu próprio negócio.

Avoador: Os conhecimentos em Jornalismo têm ajudado você na carreira de empreendedora?

E.M.: Demais. Eu sou comunicadora antes de qualquer coisa, e a comunicação é a base de tudo. Eu só estou conseguindo manter esse projeto aceso por conta da minha comunicação. Afinal, eu abri um nicho de mercado na Bahia. Hoje, até homens dão cursos de marcenaria para iniciantes, sendo que nunca fizeram isso antes, mesmo sendo privilegiados na área. Muitas pessoas me dizem que gostaram da minha forma de comunicação e por isso escolheram o meu curso. Mesmo que um dia eu não trabalhe mais com marcenaria, a comunicação ainda será a minha base.

“Viver com o machismo é talvez uma das maiores dificuldades em ser mulher. Só por ser mulher, eu tenho que fazer mais esforço para adquirir o conhecimento e para conseguir agarrar as oportunidades”.

Avoador: Como foi o início de sua carreira na marcenaria em Vitória da Conquista?

E.M.: Foi difícil porque Conquista é uma cidade pequena. Eu busquei aulas de marcenaria de mulher para mulher durante 9 meses, do norte ao sul da Bahia, e não encontrei nada. Então, fiz cursos em outras cidades, mas sempre com homens. Pensando nisso, e em busca de uma realização pessoal, eu resolvi criar o curso de marcenaria de mulher para mulher, mas não consegui muito espaço. Enquanto eu levava um mês para formar uma turma em Salvador, em Vitória da Conquista eu levava três meses. Mas mesmo assim, no início, eu fiquei um ano realizando oficinas na cidade, afinal, foi onde o projeto nasceu. Mas acho que Conquista é uma cidade muito resistente a inovação, principalmente, quando se trata de uma mulher fazendo marcenaria. Graças a minha insistência, eu ultrapassei Vitória da Conquista e hoje trabalho em São Paulo.

Avoador: Ao ler algumas entrevistas concedidas por você, percebemos que sua família contribuiu muito para o seu conhecimento em marcenaria. Como exatamente eles te influenciaram?

E.M.: Por meio da memória afetiva. Tenho muitas memórias de “mainha”, “painho” e meu avô, que era tropeiro na Chapada Diamantina. Em 2013, eu desenhei um banco inspirada pelas cangalhas que meu avô levava nas viagens, e só agora, em 2019, eu tirei esse banco do papel em um dos meus cursos. Além disso, eu cresci vendo meus pais usando as mãos como principal objeto de trabalho. Meu pai foi sapateiro antes de virar policial rodoviário, minha mãe era costureira, meu avô materno costurava selas e bolsas. Talvez, minha família seja minha principal fonte de inspiração.

Avoador: Como funcionam os cursos de marcenaria para mulheres? Onde é possível obter mais informações?

E.M.: Meus cursos acontecem em formato de workshops intensivos que duram de 8 a 9 horas por dia. São praticamente oficinas itinerantes porque as realizo onde consigo fechar turmas e encontrar lugares parceiros para recebe-las. Eu amo minhas oficinas, amo fazê-las e conhecer mulheres nesse processo. Na verdade, eu fico mais ansiosa e empolgada que elas. Nos cursos, há o conteúdo teórico de introdução, quando eu mostro os tipos de madeira, as ferramentas e os equipamentos de segurança. A depender da turma, eu insiro identificação de madeira. Nessa aula, as alunas olham a madeira com lupas que aumentam a imagem em 10 vezes e é lindo ver a reação delas. Só depois a gente parte para a prática, que é o desenho e o plano de corte. Minhas oficinas têm certificado e são para a mulher hobbista e para a que quer se profissionalizar também. A divulgação dos cursos é feita totalmente pelo Instagram, e a inscrição e forma de pagamento é toda online. E com isso, esse projeto tem se tornado minha vida, já são quase 9 anos de “faça você mesmo”.

“Enquanto mulheres estão sendo mortas a cada 12 minutos, eu não acredito que o empoderamento feminino exista. Ele é político e em grupo, não serve apenas para uma mulher, mas para todas as mulheres”.

Avoador: Quais são as principais dificuldades de atuar em uma área dominada por homens?

E.M.: O machismo, que não está só nessa área. Viver com o machismo é talvez uma das maiores dificuldades em ser mulher. Só por ser mulher, eu tenho que fazer mais esforço para adquirir o conhecimento e para conseguir agarrar as oportunidades. Um exemplo disso é a questão do patrocínio. Eu só recebo apoio para o projeto de uma empresa de Vitória da Conquista, que é administrada por uma mulher. No início, eu mostrei meu projeto para muitas empresas da cidade, mas só consegui fechar a parceria com essa. Em Salvador, eu insisti muito e consegui uma reunião com uma única empresa. Então, eu apresentei o projeto, mas fui negada três meses depois porque disseram que estavam apoiando um outro, nesse caso, era a inciativa de um grupo de estudantes (homens) de um curso de Engenharia Mecânica que criava carrinhos para competição de kart. Isso mostra um pouco da minha realidade. Por ser mulher, tenho que fazer duas vezes mais esforço.

Avoador: Você se considera uma mulher empoderada por atuar e ter sucesso em uma área majoritariamente masculina?

E.M.: Não. Enquanto mulheres estão sendo mortas a cada 12 minutos, eu não acredito que o empoderamento feminino exista. Ele é político e em grupo, não serve apenas para uma mulher, mas para todas as mulheres. Por isso, não me considero empoderada, e não me considero com sucesso. Eu questiono isso para quem me acompanha: quais são os parâmetros do sucesso? Eu, por exemplo, nasci dentro de uma família, tinha uma casa para me abrigar, tive comida e boa educação. Então, eu nasci com sucesso. Ter o meu trabalho sendo reconhecido e reverberado nos meios de comunicação é apenas mais uma das muitas consequências dele. Eu tento manter meus pés na realidade, pensando que o sucesso é relativo.

“Eu sou uma crente, tenho muita fé na criatividade e na união das mulheres como força de transformação. Eu sou apaixonada pela criação e por todas as potências que ela pode desenvolver”.

Avoador: O que é o empreendedorismo criativo?

E.M.: Eu costumava usar mais esse termo, mas há um tempo deixei de lado porque empreendedorismo é empreendedorismo e ponto. Trabalhar com criatividade é necessário em todas as áreas, mas a expressão “empreendedorismo criativo” chegou ao Brasil em 2012, quando Gilberto Gil era Ministro da Cultura. Por isso, falar sobre economia criativa e artigos intangíveis como ideias, habilidades e talentos como meios de negócio ainda é uma coisa muito nova por aqui. Muitas pessoas ainda não entendem que há uma forma diferente de se fazer negócios. Empreendedorismo é criar formas de nos sustentarmos por meio das nossas habilidades e talentos, e se a gente pensar bem, as ideias são necessárias em todas as profissões. Até um professor precisa de ideias legais para dar uma aula.

Avoador: Você tem algum projeto futuro para executar em Vitória da Conquista?

E.M.: Não, é muito difícil trabalhar em Conquista, mas estou planejando junto a uma amiga um projeto de aulas gratuitas para mulheres em situação de violência. Nós queremos rodar o Brasil, e quem sabe Vitoria da Conquista não esteja no roteiro? Mas esse projeto ainda é um embrião.

Avoador: No seu site há uma descrição sobre você: “Sou empreendedora criativa, designer de interiores, jornalista. Baiana, mãe de um trio de bichanos e adoro uma boa risada”. Além disso, como você caracteriza Eva Mota?

E.M.: É muito difícil falar da gente, mas posso dizer que eu sou uma criadora. Eu gosto de criar coisas para encorajar outras mulheres, gosto de dar vida às minhas ideias. Eu sou uma crente, tenho muita fé na criatividade e na união das mulheres como força de transformação. Eu sou apaixonada pela criação e por todas as potências que ela pode desenvolver.

Foto de capa: Arquivo pessoal

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