“O intérprete de Libras é a voz do surdo”

Por meio das mãos e expressões corporais, Jaqueline França, intérprete da Língua de Sinais, possibilita aos surdos uma comunicação com o mundo 20 de março de 2019

O Censo de 2010 realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) identificou cerca de 9,5 milhões de pessoas com deficiência auditiva no Brasil. Para conseguirem se comunicar com ouvintes, os surdos precisam do apoio de um profissional, de um intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras). A Libras foi oficializada em 2002, mas só em setembro de 2010 a profissão de intérprete foi regulamentada no país pela Lei nº 12.319.

Jaqueline França, 37, atua há três anos como uma intérprete de Libras em Vitória da Conquista, após seis anos de estudos na área.  Ela trabalha na cidade em dois programas que atendem as necessidades pedagógicas de alunos com surdez: o CAS (Centro de Capacitação Profissional para Atendimento às Pessoas com Surdez) e a CIL (Central de Interpretação de Libras). Ela também trabalha como intérprete em eventos da Prefeitura de Conquista, igreja Assembleia de Deus e presta serviço de suporte às pessoas com surdez no setor privado.

A intérprete é formada em Pedagogia, nasceu em São Paulo e mora há 22 anos em Conquista. Quanto ao interesse em aprender Libras, ela conta que surgiu após se sentir frustrada por não conseguir se comunicar com um aluno surdo que precisava atender na Escola Estadual Abdias Menezes. Ser uma intérprete de Libras não é apenas fazer a tradução, mas “se colocar no lugar do surdo”, explica Jaqueline. “Não basta a gente conhecer a língua, a gente precisa ter amor pelo surdo”.

Em entrevista ao Avoador, a intérprete conta sobre a “cultura surda” e a importância do intérprete e da Língua de Sinais para a inclusão dos deficientes auditivos na sociedade. “Eu já me considero parte da comunidade surda, não só porque uso a Língua de Sinais, mas porque convivo e conheço as necessidades, a cultura, a língua e a identidade desse sujeito”.

AVOADOR: Há quanto tempo você estuda a Língua Brasileira de Sinais e como surgiu seu interesse por ela?

Jaqueline: Seis anos. Na época, quando eu comecei a aprender, era muito difícil encontrar cursos. Hoje, a gente já tem a Prefeitura que fornece esse curso [Libras] básico, tem o Sesc, têm as universidades. Então, atualmente, apesar da quantidade de pessoas que querem conhecer a Língua de Sinais, eu acho muito pouco a oferta desses cursos, mas de quando eu comecei, melhorou bastante. Meu primeiro trabalho depois que me formei foi na sala de Atendimento Individual Especializado, na Escola Abdias Menezes. O professor precisava dar apoio educacional para alunos com surdez e também oferecer orientações metodológicas, pedagógicas nas disciplinas que eles tinham dificuldade.  Uma vez um surdo veio me pedir orientação e eu não consegui me comunicar com ele, eu fiquei muito frustrada. Eu tinha passado por essa disciplina na faculdade, mas essa disciplina não me deu competência para sinalizar em Libras. Então eu fui buscar meios para estar mais perto da atual necessidade do surdo na escola. Por esse motivo, eu precisei me especializar na área de gestão para lidar com diversos tipos de situações na escola. Eu amo o surdo que precisa da Libras para se comunicar, contar o que está acontecendo com ele, dizer o que sente, compartilhar comigo algo novo, opiniões e construir significados.

 Eu amo o surdo que precisa da Libras para se comunicar, contar o que está acontecendo com ele, dizer o que sente, compartilhar comigo algo novo, opiniões e construir significados.

AVOADOR: Como é a “cultura surda”?

Jaqueline: A cultura surda é multifacetada. Você vai encontrar surdos de vários perfis. Eu acho que a identidade que eu mais tenho dificuldade de lidar é a identidade “embaraçada”. O surdo não se reconhece como sujeito surdo porque ele não sabe a língua de sinais. Ele viveu em um ambiente linguístico oralista [focada apenas na linguagem oral], então, às vezes, ele se comporta como ouvinte, mas ele não se comunica por meio da fala e também não se reconhece dentro da cultura surda. Essa é uma das identidades mais difíceis de lidar. Existe ainda a identidade “híbrida”, que são aqueles surdos que ouviam, e de repente, por algum motivo, um acidente que foi acometido ou até mesmo uma doença, ele para de ouvir. Tem também a identidade “transitória” que é aquela em que o surdo convive por muito tempo, até a adolescência, por exemplo, em um ambiente linguístico em que a família toda é ouvinte e só ele é surdo. Ele “se encontra” na comunidade surda e sabe que existe pessoas como ele, que se comunicam pela Língua de Sinais, e então, começa a sentir a necessidade de participar da comunidade surda, adotando a identidade de sujeito surdo, usuário da Língua de Sinais.

AVOADOR: Qual a importância do intérprete de libras para o surdo?

Jaqueline: O intérprete de libras é a voz do surdo. Se ele não tiver o intérprete, ele não vai ter acesso às informações. As mãos do intérprete é a voz para o surdo. Eu acho muito importante os intérpretes estarem nos espaços onde os surdos necessitam estar. Quando a gente faz isso, a gente se coloca no lugar deles, é como se a gente tivesse em outro país. O intérprete é uma ponte para o surdo se tornar acessível, ter sua necessidade compreendida, tanto nos espaços públicos e privados quanto nas igrejas, e isso é muito importante isso.

“O intérprete é uma ponte para o surdo se tornar acessível, ter sua necessidade compreendida, tanto nos espaços públicos e privados quanto nas igrejas, e isso é muito importante isso”.

AVOADOR: Atualmente, nas igrejas, as pessoas surdas estão encontrando intérpretes?

Jaqueline: A partir do momento que a gente implanta na igreja o Ministério para surdos, a gente começa a ter um “olhar surdo”. A gente começa a se colocar no lugar do surdo, como é ser surdo na igreja. Começamos a nos adaptar e a influenciar as pessoas para conhecerem a Língua de Sinais. Lançamos cursos para conhecer a Língua de Sinais, e com esses cursos, a gente tem montado uma equipe. Há quatro anos temos realizado o curso de Libras na igreja [Assembleia de Deus], e já formamos umas 14 intérpretes. Quem faz o curso com a gente a leva o ministério [Libras] para outras igrejas também.

AVOADOR: Quais as necessidades de formação para exercer a profissão de intérprete de Libras?

Jaqueline: Em Conquista, há uma deficiência no curso de formação para tradutor. Quando o MEC [Ministério da Educação] lançou o ProLibras [Programa Nacional para a Certificação de Proficiência no Uso e Ensino da Língua Brasileira de Sinais e para a Certificação de Proficiência em Tradução e Interpretação da Libras], não existia em nenhuma instituição esse curso para tradutor e intérprete. Os primeiros proficientes na língua que fizeram essa avaliação e passaram foram os Codas [sigla em inglês pra Crianças Ouvintes com  Pais Surdos] e  algumas pessoas que já estavam na área de evangelização nas igrejas. São aquelas pessoas que já tinham fluência na língua, então o que exigiam nesse curso só era o Ensino Médio.  A partir do momento que o intérprete tem o certificado pelo ProLibras, ele já pode começar a trabalhar na área da educação. Mas, os surdos questionaram, porque assim:  “como é que um intérprete de Libras que só tem o Ensino Médio pode atuar na Educação Superior? ”. Ele precisa conhecer todos os sinais. Há uma complexidade muito grande na área dos sinais. Quando sou intérprete na igreja, não significa que eu estou apta para interpretar uma aula de Língua Portuguesa ou uma disciplina de História ou no curso de Administração. Eu preciso conhecer a estrutura e conhecer os sinais. Hoje, para o intérprete trabalhar nessa área [interpretação], ele precisa ter o Ensino Médio completo, ter o certificado de Curso Básico e Intermediário e também um curso que lhe dá habilitação. Ele precisa atestar de alguma forma que ele tem proficiência em Libras.

AVOADOR: Quais as maiores dificuldades para atuar como intérprete?

Jaqueline: As barreiras atitudinais.  Às vezes, quando eu chego na sala de aula e falo com o professor: “você vai ter que mudar a visualização da sua sala, você vai ter que inserir Libras no seu alfabeto, vai colocar aqui o alfabeto bonitinho com a Língua de sinais, porque aqui está seu aluno surdo. Minha querida, [professor respondendo], “eu tenho 24 alunos e um surdo, e eu não tenho tempo para estudar, não tenho tempo disponível, pois trabalho 40 horas”. Então convencer esse profissional de que o aluno é responsabilidade dele é muito difícil. Convencer a família de que ela precisa aprender e interagir em Libras com seu filho é muito difícil. São barreiras atitudinais dentro da família, na escola, nos espaços públicos. O surdo paga IPTU, o surdo precisa participar do lazer que o município propõe, o surdo precisa estar informado. É muito difícil se colocar no lugar dele, e essas barreiras só serão quebradas a partir da conscientização das pessoas de que o surdo faz parte da sociedade, de que ele é responsabilidade minha, de que ele é meu aluno, de que ele é meu filho.

“ O surdo paga IPTU, o surdo precisa participar do lazer que o município propõe, o surdo precisa estar informado”.

AVOADOR: Você acha que a maior dificuldade das pessoas surdas está na família ou escola?

Jaqueline: Família. A família é a base de tudo, é nosso primeiro patrimônio. Vamos supor em uma família: quando eu tenho um diagnóstico de que meu filho é surdo, ele já está lá com 3 ou 4 anos. Olha só o tempo que essa criança perdeu! Eu [família] não aceito, eu não conheço a Língua Brasileira de Sinais e eu vou superprotegê-lo. Então eu vou proteger meu filho porque ele não ouve barulho, e se alguém fizer alguma coisa, algum mal, ele não vai saber falar.  Uma mãe trouxe aqui um filho de 22 anos que viveu a vida toda em uma roça, não sabia contar, ler, nem mexer com cartão magnético. A mãe então falou: “Minha filha, preciso que ele aprenda Libras, porque, se eu partir hoje, não tem ninguém por ele”. Eu falei assim: “Vem a senhora e ele aprenderem Libras”. Quando eles vieram aprender Libras, ela disse: “Por que eu não aprendi mais cedo?”. Então, um rapaz com 23 anos, fora da escola, não consegue interagir na Língua Portuguesa, sua segunda língua [L2], pois não conhece Libras. Esse é um sujeito com identidade “transitória” passando daquela identidade para outra.

AVOADOR: Qual a sua avaliação sobre a inclusão social dos surdos em Conquista?

Jaqueline: É moderado. Eles participam quando são convidados. Não se sentem pertencentes aquele espaço, eles se sentem “acuados”. Por exemplo: “Ah, tem intérprete?” Então a única forma de eu trazer esses surdos para um evento é sinalizando com as mãozinhas [no banner] a acessibilidade.

AVOADOR: Existem surdos que se isolam da comunidade surda? Como eles se comunicam?

Jaqueline: Sim, existem, e eles usam sinais caseiros que só a família compreende. É uma “identidade embaraçada”, só a família consegue compreender o que ele está dizendo. Existia um senhor na Prefeitura de Conquista com essa identidade. Certa vez, ele tentou consertar uma luz no [Centro] Glauber Rocha e me chamaram para ajudar. Eu não conseguia entender o que ele estava falando. Ele não sabia Libras. Então eu não tinha como compreender o que ele estava dizendo. Ele desenvolveu sinais caseiros. É muito difícil.

AVOADOR: A Libras possibilita a mesma expressão de ideias com a mesma riqueza e variedade que o idioma falado?

Jaqueline: Com certeza! Nossa Língua Portuguesa é linear. Quando eu quero intensificar algo que gosto, insiro uma palavra que é o “muito”. Não que ela [Libras] seja a mesma estrutura da Língua Portuguesa, mas ela tem uma variedade linguística que quando você está sinalizando, você pode expressar além dessa palavra “muito”. A gente não utiliza só as mãos, mas as expressões faciais e corporais. Então a Libras, ela vai te dar muito mais. Ela não é linear como a língua portuguesa, ela intensifica muito mais a palavra quando é sinalizada da forma correta, nos aspectos linguísticos que ela já possui. Se for uma música leve, a gente intensifica nos movimentos, nas expressões corporais e faciais. Se for um movimento agitado, a gente precisa também mostrar para o surdo aquele contexto. Se há uma fala mais aguçada, um barulho mais estridente, eles vão compreender.  No teatro, por exemplo, o interlocutor faz uma piada para todos rirem e o intérprete precisa ser a alma daquele interlocutor e passar para o surdo o que ele [interlocutor] está dizendo para o surdo também sorrir como os outros. Então ele precisa passar emoções.

AVOADOR: O que é mais importante na hora da interpretação para o surdo?

Jaqueline: Você pensar no surdo. Você pensar em como o surdo está te vendo e se ele realmente está entendendo aquilo que você está traduzindo. Não basta só sinalizar, é preciso se colocar na condição de ser surdo e aí você vai tornar o seu trabalho com mais qualidade, a sua sinalização com mais autenticidade dentro do contexto que está sendo dito. Na hora da sinalização, você tem que se preocupar com ele. Será que realmente é isso mesmo? Ele está entendendo o que estou dizendo? É muito importante ter essa credibilidade no trabalho, porque, se você não tiver uma credibilidade com o surdo, se ele não confiar em seu trabalho, em sua interpretação, vai acontecer falência do seu ministério ou da sua profissão. Então é muito importante ter ética, é muito importante interpretar dentro do contexto que está sendo dito, é muito importante se colocar no lugar do surdo.

“Então é muito importante ter ética, é muito importante interpretar dentro do contexto que está sendo dito, é muito importante se colocar no lugar do surdo”.

Fotografia: Tamyres Lenes | Edição: Nanda Feminella

* A entrevista teve partes editadas para possibilitar ao leitor uma melhor compreensão do texto.

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