Perigos dos movimentos antivacinação

Carolina Palmeira, infectologista, explica como a escolha de não vacinar traz riscos à sociedade e afeta, principalmente, crianças abaixo de dois anos de idade 12 de fevereiro de 2020

Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o movimento antivacinação na lista das 10 maiores ameaças à saúde global. A resistência às vacinas, causada principalmente pela disseminação de teorias conspiratórias e informações falsas sobre os efeitos da imunização, tem contribuído para o ressurgimento de doenças já erradicadas pelo Ministério da Saúde (MS) como o sarampo, a poliomielite e a rubéola.

Atenta aos problemas que esse movimento tem causado na saúde pública, a médica infectologista, Carolina Palmeira, acredita que não vacinar é mais do que uma escolha pessoal, é uma decisão que traz sérios riscos à sociedade como um todo. Para ela, é preciso denunciar as informações falsas que contribuem para a desinformação e explicar a importância das vacinas.

Carolina trabalha na área de infecção hospitalar do Hospital Geral de Vitória da Conquista e também no Hospital IBR. Durante os atendimentos diários, ela tem observado que as crianças abaixo de dois anos são as mais afetadas pela influência do movimento antivacinação. “Essa criança é, com certeza, a mais prejudicada. Ela não tem nem imunidade para sobreviver a doenças que são passíveis de imunização.”

Em entrevista ao Avoador, a infectologista falou sobre o crescimento do movimento antivacina no Brasil e no mundo, os riscos que ele causa à saúde da população e destacou a importância da vacinação como uma das formas mais eficientes de evitar doenças.

Avoador: Na sua opinião, por que os movimentos antivacina estão crescendo no Brasil e no mundo?

C.P: A maior justificativa é a falta de acesso à informação correta. Eu acredito que uma pessoa bem informada com certeza vai tomar as vacinas necessárias, mas hoje temos as “fake news” que precisam ser denunciadas. Se uma mãe chega nas redes sociais e diz que a vacina deixou o seu filho doente, isso vai causar pânico nas outras mães. A falta de informação verdadeira gera todo um movimento errôneo não só em relação à vacina, mas em relação também à transmissão de doenças no geral, como é transmitida, o que fazer para evitar.

Avoador: Quais são os argumentos utilizados pelas pessoas que optam por não se vacinar?

C.P: Geralmente é a presença de alumínio nas vacinas, e ele realmente existe na composição, mas é uma quantidade ínfima. Outros dizem que os conservantes são responsáveis por causar doenças, ou então dizem que a vacina, ao invés de para prevenir uma coisa, acaba causando outra. Nós sabemos que não é assim que funciona. Os conservantes são muito poucos, e eles não causam tudo isso que as pessoas espalham por aí.

“Muitas crianças chegam no hospital com sarampo ou febre amarela porque não foram vacinadas por medo dos pais. A gente acha que é algo distante da nossa realidade, mas não é.”

Avoador: Quais são os riscos de não tomar as vacinas necessárias?

C.P: O aumento da taxa de mortalidade e o ressurgimento de doenças e patologias que deixam sequelas desnecessárias e poderiam ser evitadas com a vacinação.

Avoador: Como reduzir os efeitos dos movimentos antivacina?

C.P: O risco principal é para a comunidade como um todo e não apenas para um único indivíduo que decide não se vacinar. Por isso, acho que precisamos de medidas extremas. Por exemplo, uma criança não tem informações ou condições de se proteger sozinha, então o pai e a mãe, legalmente, precisam zelar por ela. Acho que a escola poderia solicitar aos pais a carteira de vacinação da criança no momento da matrícula. Eu sou a favor disso porque aquela escola é uma comunidade, de professores e crianças. Precisamos, cada vez mais, destacar a importância de pensar no outro, e essa falta de informação sobre as vacinas é muito perigosa para todo mundo.

“Os mais pobres são os mais prejudicados porque eles já não têm uma boa imunidade. Eles não têm uma alimentação equilibrada, uma higiene ideal, e ainda não vão se vacinar?”

Avoador: De qual faixa etária são as pessoas mais prejudicadas pelo movimento antivacina? Por quê?

C.P: Crianças abaixo de dois anos são as mais prejudicadas porque é a faixa etária mais vacinada. Hoje, a gente vê que o aleitamento materno precisa ser enfatizado e disseminado, mas muitas vezes isso não acontece. Então a criança que já não recebe a imunização passiva da mãe é, com certeza, a mais prejudicada. Ela não tem nem imunidade para sobreviver a doenças que são passíveis de imunização. Muitas crianças chegam no hospital com sarampo ou febre amarela porque não foram vacinadas por medo dos pais. A gente acha que é algo distante da nossa realidade, mas não é. Casos de H1N1 também são comuns. As pessoas fazem pouco causa dessa gripe e ela é muito comum nos pacientes infantis do Hospital de Base aqui em Conquista.

Avoador: Como a população de Vitória da Conquista recebe as campanhas de vacinação? Há algum tipo de resistência em se vacinar?

C.P: Eu não diria que há uma resistência. O que eu vejo é que nós, profissionais da saúde, precisamos usar a forma correta de comunicação para que esse público vá até o posto se vacinar. Por exemplo, na última campanha que nós realizamos, acredito que a gente tenha alcançado mais de 80% da população, mas demoramos um pouco para alcançar essa taxa. A gente teve que intensificar a nossa comunicação com a comunidade. Eu percebo que a televisão é o meio de comunicação que mais incentiva a vacinação. Todo lugar que você vai tem uma televisão ligada dizendo: “Vem vacinar! Olha, o posto é perto da sua casa.”

“Toda vez que alguém me chama para fazer algo relacionado à vacinação, eu sempre me disponibilizo porque acredito que a grande massa precisa estar ciente de que existem “fake news” circulando por aí.”

Avoador: O movimento antivacina atinge uma classe social específica?

C.P: Os mais pobres são os mais prejudicados porque eles já não têm uma boa imunidade. Eles não têm uma alimentação equilibrada, uma higiene ideal, e ainda não vão se vacinar? As “fake news” vem das classes mais altas e atinge a população mais carente.

Avoador: Na sua opinião, a mídia, os profissionais de saúde e os formadores de opinião em geral podem contribuir para que a população esteja bem informada sobre os perigos dos movimentos antivacina?

C.P: Eu acho que nós somos fundamentais para isso. Toda vez que alguém me chama para fazer algo relacionado à vacinação, eu sempre me disponibilizo porque acredito que a grande massa precisa estar ciente de que existem “fake news” circulando por aí. A televisão é o meu meio preferido. Campanhas estaduais e nacionais ajudam muito e, quando a gente mostra números, ajuda mais ainda na conscientização dessas pessoas.

* A entrevista teve partes editadas para possibilitar ao leitor uma melhor compreensão do texto.

Foto de capa: Avoador

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