Nos embalos da banda Sambodara

Géssica Maria e Caio Paiva, integrantes da banda de samba, contam a história do grupo musical, além dos desafios da monopolização do mercado musical e a sua relação com o público conquistense 19 de março de 2020 Sebastião Nascimento

A cidade de Vitória da Conquista é palco para diversos cantores, duplas ou bandas que se apresentam nos barzinhos, restaurantes e eventos da cidade. Por vezes, esses músicos enfrentam adversidades devido à baixa visibilidade no cenário cultural local. Se cantar qualquer gênero musical já é uma tarefa difícil, cantar samba em uma cidade dominada pelo sertanejo é um desafio ainda maior. Esse é um obstáculo que a banda Sambodara encontra, mas apesar de tudo, tem colhido bons resultados.

A banda tem em sua formação fixa o casal Géssica Maria de 25 anos e Caio Paiva (22). Géssica é natural de Rio de Contas e mora, atualmente, em Vitória da Conquista, onde também cursa História na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Já Caio é conquistense e cursa Filosofia, na mesma instituição.

A música Retalhos de Cetim de Benito Di Paula é uma das mais pedidas pelo público durante o show da banda Sambodara. Foto: Jamile Duarte

A história da banda

Apesar dos dois dividirem os palcos juntos, a banda começou no ano de 2015, em um projeto pessoal de Géssica que sempre teve a sua essência no samba. No início, a percursora da Sambodara ainda cantava sozinha, até conhecer Caio um ano após o surgimento da banda. “Quando nos conhecemos, Caio já tinha um trabalho dele por fora. Era autoral e fazia um som no cenário cultural de Conquista e eu também já tinha meu trabalho”, relata Géssica. E foi em setembro de 2016, com os dois juntos, que a banda fez seu primeiro show no Teatro Municipal Carlos Jehovah.

O samba é originário dos batuques trazidos pelos africanos que vieram como escravos para o Brasil, fato histórico que é a inspiração para o nome da banda Sambodara. “Odara, em Iorubá, na língua africana significa belo e lindo e também tem uma vertente religiosa que é Exu de Candomblé, já que sou candomblecista”, conta Géssica.

Depois dessa formação da banda e do nome, a dupla assumiu a responsabilidade de levar para o público o samba raiz, mas abrangendo outras vertentes do gênero. A Sambodara abrange, desde o samba de roda que é regional, até o samba carioca. A banda só não canta o pagode, pois acreditam que não comtempla o samba que eles defendem. “As pessoas cantam pagode como se fossem samba e o público abraça como se fosse o samba raiz e não é! Ai vem à questão da ignorância”, justifica a jovem.

Relação com o público

Para que uma banda se mantenha no mercado e fomente seu consumo, além de boa qualidade, é preciso que ela se venda para o público. Caio e Géssica mostraram a importância das mídias sociais na divulgação do trabalho, levando em conta a falta de apoio de políticas culturais. “Nossa mídia é totalmente independente. Na verdade, a gente faz a parte artística, direcional, midiática, faz tudo”, conta Géssica. Caio salienta  esse trabalho dobrado gera sobrecarga: “O músico que não tem apoio: ele é tudo, de produtor a designer”.

A Sambodara é uma banda que, mesmo mantendo a fidelidade ao samba raiz em um cenário dominado pelo sertanejo na cidade, consegue se impor no mercado da música e manter a agenda de shows em Conquista. Caio ressalta que de sexta a domingo o trabalho não para, fora alguns eventos durante a semana. Além disso, Géssica fala da dificuldade de conciliar os shows e as atividades da universidade: “a gente só não faz mais shows por conta da universidade. Para conciliar, fica difícil”.

Samba não é um gênero que encontra em todos os bares da cidade. Com domínio maciço de outros estilos e a falta de apoio do poder público, os artistas encontram dificuldades em sobreviver puramente da música. Mas o publico tem dado uma resposta positiva e o Sambodara vê o mercado com bons olhos. “Mesmo Conquista tendo influencia mineira do sertanejo, o samba tem aceitação na cidade”, afirma Caio.

Se existe o pagode, rodas de samba, samba rock, tudo se deve ao samba raiz. Considerado como o começo de tudo, o ritmo traz instrumentos como pandeiro, cavaquinho, a cuíca, entre outros. Foram muitos nomes que fizeram história no samba, mas foi a partir da década de 70 e 80 que uma nova geração de sambistas surge fortalecendo o ritmo. Nomes que inspiram até hoje quem é fiel ao samba raiz. Géssica conta com carinho que se inspira em Elza soares e Clara Nunes. E complementa: “aqui na Bahia tem as mães de santo cantando samba de roda, que escutamos muito e aprendemos com elas”.

Os músicos contam que por ser uma banda independente é necessário fazer um pouco de tudo, desde os shows até divulgações. Foto: Jamile Duarte

 Monopólio versus visibilidade

Outro entrave para a banda local se manter no mercado é a monopolização do mercado, visto que visibilidade de um só gênero dificulta a aceitação do público. Ainda assim, Caio Paiva sente uma ascensão da banda Sambodara na cidade. “A gente encontra resistência, devido ao período cultural que estamos passando. Temos uma ditadura musical com o sertanejo e arrocha. O problema não é existir isso, mas existir só isso”, afirma o cantor. Para Géssica, essa ditadura musical não existe só nos bares, mas também nos veículos de comunicação: “Quando ligamos o rádio, só passa esse gênero”.

Mesmo com essas dificuldades, Sambodara tem conquistado uma visibilidade que surpreendeu até os seus integrantes, que não esperavam fazer tantos shows. “Alcançou um patamar que nem a gente esperava, por ter sido espontâneo, por a gente não investir muito tempo. A música foi uma consequência do que a gente gostava e a gente tem uma visibilidade de forma espontânea, como uma vitrine”, conta o rapaz.

Desafios e preconceitos

Cantar um gênero considerado pelos críticos um dos mais originais da música brasileira é um grande desafio para qualquer artista. Com a banda Sambodara, não é diferente. Eles se veem no papel de tentar quebrar os preconceitos que reinam em relação ao samba e seus simpatizantes. “É muita responsabilidade. Nós ainda temos muitas barreiras em relação ao preconceito. O samba veio do subúrbio do Rio de Janeiro, Salvador, veio das rodas de sambas, fundos de quintais, terreiros e muita gente não conhecem ou conhecem e discriminam”, diz Géssica.

Outro desafio é o fato de Géssica Maria ser mulher e negra. Apesar da população composta por pessoas pretas e pardas, ser equivalente a quase 54% da população nacional, segundo o IBGE publicado no site da UOL, os parâmetros sociais passam longe do que se entende por equidade e é um desafio, principalmente para as mulheres negras se sobressaírem em relação aos preconceitos. Na música, a vocalista Géssica conta que existem as dificuldades que toda mulher negra de classe baixa enfrenta, pois ela tem que se manter estudar e se profissionalizar. Com a música, preconceitos de gênero ficam ainda mais evidentes devido a sua exposição, mas a vocalista aconselha que “não deve se estacionar por receber o primeiro não, ou encontrar dificuldades por aí”.

A banda trabalha apenas como intérpretes, mas já tem planos para lançar um trabalho autoral, o que já era feito por Caio antes de integrar a Sambodara. “O projeto está em desenvolvimento, mas já é um trabalho nosso que estamos focados para 2020”, conta o músico esperançoso.

A dificuldade do artista local se tornar reconhecido em uma cidade como Vitória da Conquista tem sido cada vez maior. Mesmo com as barreiras existentes, a banda Sambodara vem provando que é possível ser fiel a um gênero e se manter no mercado. Além disso, a banda não perde o ânimo e abraça o samba original e raiz com atenção e cuidado para conquistarem cada vez mais espaço e independência com a sua potencialidade.

Foto de capa: Jamile Duarte

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