Carroceiros conquistenses reclamam das regras impostas pela Prefeitura

Com as medidas, as carroças da cidade precisarão de emplacamento para melhor identificação do guia e fraldas para impedir dejetos nas ruas. 9 de junho de 2017

Manuel da Silva, 36 anos, carroceiro há 10, profissão herdada do pai, com renda estimada em 800 reais, menos que o salário mínimo atual de 937 reais, e dois filhos para sustentar mais a esposa, é um dos dois mil profissionais a atuar no ramo da carroçaria em Vitória da Conquista. Ele é um dos atingidos pelas medidas adotadas pela Secretaria de Serviços Públicos da Prefeitura de Vitória da Conquista que preveem o emplacamento das carroças e a colocação de fraldão nos animais.

“Eu não sei como vou manter as coisas, pois as coisas da carroça não são baratas e parece que vamos arcar com tudo”, desabafa Antônio da Silva, 31 anos, que também é carroceiro, e divide com o colega as mesmas preocupações em relação às medidas municipais. “Falando é tudo simples, mas na realidade não é assim que as coisas funcionam”, lamenta o carroceiro.

Apesar da Lei sobre as carroças estar em implementação na atual gestão do prefeito, Herzem Gusmão,ela foi sancionada na administração do ex-prefeito Guilherme Menezes (PT), em 2008. Segundo a Secretaria de Comunicação da Prefeitura, “o atual trânsito desse tipo de veículo não atende às exigências legais. O condutor de veículo de tração animal deve obedecer às normas e às sinalizações previstas no CTB (Código de Trânsito Brasileiro), à legislação complementar e às resoluções do Contran (Conselho Nacional de Trânsito)”. O poder municipal alega ainda que houve um estudo para incorporação desse sistema nas carroças.

Com as medidas, que entraram em vigor a partir de abril, as carroças da cidade precisarão de emplacamento para melhor identificação do guia, bolsões nos animais e fraldas para impedir dejetos nas ruas conquistenses. Outras mudanças trazidas pela aplicação da lei diz respeito a proibição de trafego de carroças na Praça Barão do Rio Branco e nas avenidas Lauro de Freitas e Francisco Santos, centro da cidade. Além disso, impede que menores de 18 anos guiem os veículos.

Quem concorda com as propostas da Prefeitura no que diz respeito à obediência das sinalizações previstas na CTB (Código de Trânsito Brasileiro) é o carroceiro Paulo Santos, 50 anos, 33 dedicados ao transporte de entulhos, resíduos de restaurantes e bares de segunda a domingo pela manhã. “Quando mal tinha carros aqui, nós, levávamos todos os fretes, uma época boa de grana”, relembra o carroceiro. Apesar de apoiar o emplacamento das carroças, Santos é incrédulo em relação às fraldas nos animais. “Nem todos os animais aceitam esse tipo de coisa. Penso que é gente inventando conversa”.

A professora do curso de Comunicação da Uesb, Mary Weinstein, que é coordenadora do Projeto de Pesquisa Jornalismo, Cidade e Patrimônio Cultural, garante que a cidade só tem a ganhar com as carroças nas ruas, como algumas cidades europeias que as utilizam este transporte. “Em Vitoria da Conquista, eles fazem parte do presente, do cotidiano, sendo utilizados para o transporte de carga, para produção de renda para o sustento de famílias. Ou seja, são funcionais.Pelo valor, acho que a atividade do carroceiro poderia até ser registrada como patrimônio imaterial de Vitória da Conquista”, enfatiza.

Entre os dilemas e as adaptações, os carroceiros seguem com suas atividades, dia após dia, mesmo com as novas exigências do Governo Municipal. O que resta é aguardar as adaptações dos trabalhadores ligados a tração animal e se a terceira maior cidade da Bahia, quase dez anos depois, sofrerá alterações nesse cenário. No final de 2016, 50 carroceiros, que davam suporte no serviço de coleta de lixo, fizeram as placas para o transporte. Mas ainda falta os cerca de dois mil profissionais que atuam no setor.