Mulheres podem decidir a eleição presidencial de 2018

Resultado da votação deve sofrer influência direta da rejeição das eleitoras ao candidato Jair Bolsonaro e do alto índice de indecisão das mulheres 6 de outubro de 2018

Esta é uma das eleições mais acirradas desde a redemocratização do Brasil, e o resultado dependerá do voto das mulheres, que são a maioria dos eleitores. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), existem 77.339.897 mulheres aptas a votar no Brasil, que representam 52% do eleitorado. Entre esse eleitorado feminino, metade ainda não sabia em quem votar para presidente de acordo com a primeira pesquisa do Datafolha, divulgada no dia 20 de agosto. E um levantamento feito pelo Nexo das pesquisas realizadas pelo Instituto no período de 2002 a 2018 indica que em todas elas, a indecisão entre as respondentes do sexo feminino se mostrou superior em relação aos eleitores homens.

Para a pedagoga Lúcia Marques, de 57 anos, a dificuldade de escolher um dos candidatos, especialmente a presidente da república, está relacionada à experiência com os governantes anteriores, que não considerou positiva. “Eu, como professora, tenho vivenciado experiências terríveis em relação à política e à educação nesses últimos anos.  A desonestidade e a corrupção perpassam por todos os partidos que estão no poder”, diz.

Ela conta ainda que tem acompanhado de perto situações como falta de merenda escolar e materiais básicos para as instituições de ensino, bem como o corte de benefícios trabalhistas dos professores. Segundo a pedagoga, “isso não é recente, mas vem piorando com o passar do tempo. Eu tenho medo do que pode acontecer daqui para frente”, desabafa.

Já a professora do curso de História da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Cleide Lima, argumenta que a sua indecisão é causada pela falta de identificação com as propostas dos atuais candidatos. “A gente tem candidatos que, de fato, não pautaram efetivamente os problemas que as mulheres enfrentam atualmente, e nessa questão, eu estou me referindo a grande massa, a classe de mulheres trabalhadoras”, comenta.

Representatividade e #EleNão

Apesar do poder de decisão sobre quem será o novo presidente da república, a participação de mulheres em cargos políticos é ainda reduzida. Em 2018, dos 13 presidenciáveis, há apenas duas mulheres concorrendo ao cargo máximo do executivo: Marina Silva (REDE) e Vera Lúcia (PSTU). Já como vice candidatas à presidência cinco estão na disputa: Ana Amélia (PP), Kátia Abreu (PDT), Manuela D’avila  (PCdoB) e  Sonia Guajajara (PSOL).

Para a professora Cleide, essa baixa participação das mulheres no meio político é algo cultural e possui raízes históricas. “Historicamente foi reservado à mulher o espaço privado, a casa, e ao homem o espaço público, o da política. Como essa sociedade é machista e patriarcal, a mulher não se enxergava nesse meio. Então, cabia ao homem tomar decisões. E podemos dizer que acontecia quase um monopólio da política por parte dos homens, mas isso vem mudando por uma conquista das mulheres”, explica.

Entre os candidatos à presidência em 2018, o que mais tem a rejeição das mulheres é Jair Bolsonaro (PSL) que já fez comentários machistas e misóginos contra o sexo feminino, além de falas racistas e homofóbicas. Por conta disso, as mulheres organizaram o Ato #EleNão, como uma forma de demonstrar o quanto esse candidato é indesejado. De acordo com informações do G1, a manifestação ocorreu em mais de 100 cidades brasileiras, e até mesmo no exterior, em cidades como Nova York, Lisboa e Barcelona.

A estudante de Psicologia Ana Marques, de 22 anos, que participou do Ato em Vitória da Conquista, declarou: “Eu, como mulher, negra e LGBT, tenho minha existência ameaçada caso o Bolsonaro seja eleito.  Ele prega contra tudo o que sou e contra tudo o que a maioria da população Brasileira é. Mulheres, negros, nordestinos, LGBTS e pobres, todos nós estaremos com nossas vidas em risco, e a população precisa se conscientizar que ele não é a única opção para uma mudança no Brasil.  Temos outros bons candidatos, é preciso estudar”.

Manifestações de insatisfação política como essas demonstram que as mulheres estão cada vez mais preocupadas com o espaço que ocupam na sociedade e estão lutando para que tenham suas vozes ouvidas e respeitadas. A professora Cleide explica que a consciência em quem não votar é o que pode leva-las a decidirem o próximo presidente. “Os jornalistas e cientistas políticos têm apontado que as mulheres serão decisivas nas eleições por estarem nessa camada de indecisas e, ao mesmo tempo, por rejeitarem o candidato que está hipoteticamente à frente das pesquisas, Jair Bolsonaro”.