Conquista reabre o comércio mesmo com o crescimento do número de casos da covid-19

Com 1.489 notificações da covid-19, 159 casos confirmados e 54% dos leitos de UTI ocupados, retomar as atividades econômicas pode ser perigoso para a população 2 de junho de 2020 Cristiane Silva

O estado da Bahia ainda não alcançou o pico de casos da covid-19, mas muitas cidades já divulgaram planos de reabertura do comércio, o que gera preocupação sobre a possibilidade do surgimento de novas pessoas infectadas pelo vírus. Vitória da Conquista já retomou as atividades econômicas, nesta segunda-feira, dia 1º de junho.

O decreto de reabertura foi publicado no domingo (31/05) pelo prefeito Herzem Gusmão, depois de 13 outras publicações que mantiveram os estabelecimentos fechados por três meses. Nele, há um protocolo de medidas a serem adotadas para evitar o contágio da covid-19, como o uso das máscaras e do álcool gel por clientes e funcionários, e uma retomada gradual dividida em cinco fases.

O planejamento dessas ações foi realizado pelos membros do Comitê de Gestão de Crise (CGC), criado pela Prefeitura, que se reuniram pela última vez no dia 27 de maio. Entre os representantes do CGC, do qual fazem parte a Câmara de Vereadores, a Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), o Conselho de Segurança Pública, o Ministério Público do Trabalho e o Sindicato dos Hospitais e Estabelecimentos de Serviços de Saúde da Região Sudoeste,  a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Secção de Vitória da Conquista e o Conselho Municipal de Saúde publicaram notas em defesa do isolamento social. 

A professora dos cursos de Medicina e Psicologia da Uesb e também integrante do Conselho Municipal de Saúde, Monalisa Barros, que atualmente faz pós-doutorado em Portugal, salientou a importância de ter realizado um fechamento precocemente, antes de qualquer caso ou morte. No entanto, ficou surpreendida pela reabertura justamente quando o Brasil está em um processo contínuo de aumento de casos da covid-19. “O grande problema da abertura é que as pessoas entendem como um o retorno à normalidade, e elas não vão frequentar apenas o comércio. Elas vão achar que podem se reunir, sair às ruas, bater papo, não usar máscaras, fazer alguns encontros. Comemorar aniversários, churrascos, São João, mesmo com as festas tendo sido suspensas. Eu não to entendendo qual foi a lógica dessa abertura, e aí eu não falo só de Vitória da Conquista, de todo país”, desabafou. 

O economista e professor da Uesb, Marcos Tavares, também concorda que é perigoso retomar as atividades econômicas neste momento. “Abrir o comércio em meio à pandemia, num momento em que se registra crescimento dos casos, põem em risco vidas. Essas decisões precisam dialogar com o Conselho Municipal de Saúde e colocar a vida em primeiro lugar.”

Para ele, em Conquista, pode ocorrer o mesmo que aconteceu na cidade de Feira de Santana, onde houve a flexibilização precoce da abertura do comércio. O resultado foi um grande aumento no número de casos da covid-19, o que obrigou a Prefeitura a fechar o setor novamente. “O problema é que entre esse abre e fecha, o contágio prospera, vidas podem ser ceifadas e a crise só se agrava”, ressaltou.

Até segunda (01/06), o município registrava 1.489 notificações, 159 casos confirmados e cinco óbitos, desde a data da primeira confirmação, 31 de março. Durante a última semana, entre o período de 24 a 30 de maio de 2020, foram registrados 39 novos casos da covid-19, totalizando 145 pessoas até o último sábado (30/05). Entre os confirmados, 76 são do sexo feminino e 69 do sexo masculino. Entre eles, 47 profissionais da saúde. Há, portanto, um crescimento gradual dos infectados com a doença, não uma estabilização. Uma preocupação a mais são os trabalhadores da linha de frente vulneráveis à doença. 

Entre o período de 24 a 30 de maio de 2020, foram registrados 39 novos casos da covid-19, totalizando 145 pessoas até o último sábado (30/05). Foto: Janaína Borges

Sobre a rede hospitalar de Conquista destinada exclusivamente para o tratamento da covid-19,  existem disponíveis 114 leitos pelo Sistema único de Saúde (SUS), sendo 64 enfermarias e 50 Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Até o dia 1° de junho, a taxa de ocupação é de 10,9% dos leitos clínicos e 54% dos leitos de UTI. Destes, 10% dos leitos de UTI são ocupados por pacientes da cidade.

Essa aparente folga na estrutura do serviço público de saúde para acolher os doentes da covid-19 deve ser encarada com mais cuidado. Conquista é a capital do Sudoeste baiano e, além de servir à população dos municípios vizinhos com uma diversidade de estabelecimentos comerciais, supre a ausência que esses locais têm de hospitais estruturados para dar conta de atendimentos com maior complexidade, como a exigência de respiradores e UTI’s, que é o caso da atual doença.

Até o momento (01/06), estão internados em Conquista pacientes de Ipiaú, Jequié, Guanambi, Urandi, Pau Brasil, Itapetinga, Belmonte, Caetanos, Brumado, Cândido Sales, Itamarajú, Eunápolis, Itacaré, Poções, Rio do Antônio, Prado, Ituaçu, Itagibá, Guajerú e São Paulo (em trânsito).

Também é necessário ressaltar o quanto o contágio da covid-19 está espalhado pela cidade. Até o dia 31 de maio, em 36 bairros tiveram casos identificados da doença, sendo os mais preocupantes: Candeias (18), Centro (12), Lagoa das Flores (11), Alto Maron (10), Brasil (9) e Boa vista (9). Confira a tabela completa.

Em depoimento ao Avoador, uma pessoa anônima, residente de um condomínio do Candeias, contou que os moradores estão com medo, pois descobriram que uma família de quatro pessoais que ali reside testou positivo para  a covid-19. “Diante disso, percebemos que há um número crescente de casos na cidade e não o contrário. Então não entendo porque reabrir o comércio agora”, desabafou. 

Marcos Tavares destacou ainda que há pouca testagem sendo realizada na cidade, o que leva a uma subnotificação de casos da covid-19. O economista fez alguns questionamentos sobre a decisão da Prefeitura de Conquista. “O governo municipal vai conseguir oferecer um serviço de transporte público decente e sem aglomeração?. Outra questão é: os setores econômicos que vão reabrir apresentaram um plano de cuidados de modo a evitar a propagação do vírus?”.

O economista questionou também se o poder público terá capacidade de monitorar e testar a maior parte da população, além de fiscalizar os estabelecimentos. “Sabe-se que os comerciantes sofrem com as perdas econômicas, as quais são agravadas pela falta de políticas de apoio por parte do governo brasileiro, entre elas de crédito. A questão é: em meio à pandemia, a reabertura geral das atividades econômicas é a melhor alternativa?”.

Brasil x Portugal

A professora Monalisa Barros, que está em Portugal, traçou um paralelo entre as ações portuguesas e as decisões tomadas no Brasil no combate à covid-19. O país do outro lado do Atlântico também não atingiu o pico da pandemia, apesar dos inúmeros diários, mas ainda assim está no processo final de isolamento.

Mas, para que chegasse nesse cenário, o governo português tomou medidas rápidas. Imediatamente, as aulas foram suspensas e o comércio fechado, sem muita resistência dos empresários em relação às medidas emergenciais. “É óbvio que para todo mundo estava muito claro que haveria perdas financeiras, mas isso era menor do que a importância da manutenção das vidas”.

Nos últimos dias, o Brasil registrou cerca de 30 mil novos casos confirmados da covid-19. Esse número é equivalente ao total de casos que Portugal teve durante toda a pandemia. Por meio desses dados, é possível observar que a reabertura das atividades econômicas pode ser uma decisão prematura e perigosa. “As pessoas entendem o retorno à normalidade, e elas não vão frequentar apenas o comércio”, disse Monalisa.

A professora ressalta os efeitos do período de isolamento para a saúde mental das pessoas. Para ela, o sofrimento psíquico e mental no Brasil é maior do que em países como Portugal porque, além de lidar com seus próprios problemas e traumas, os brasileiros são submetidos aos comportamentos contraditórios dos governos federal, municipal e estadual. “Se a gente somar essas atitudes dos governos a uma abertura, nesse momento, sem programação, acredito que o resultado será muito ruim para o país e para as pessoas. É uma decisão contrária a possibilidade de salvar vidas”, afirmou.

Os critérios da OMS 

A OMS (Organização Mundial de Saúde) já estipulou critérios para que os países retomem suas atividades. A entidade alertou, em abril, que os países não podem reabrir o comércio repentinamente sem ter capacidade para identificar onde o vírus está, isolar os casos, mapear as redes de transmissão e ter leitos para tratar todos os pacientes.

O órgão definiu seis critérios que deveriam ser seguidos pelos governos locais:

– A transmissão da doença precisa estar controlada;

– O sistema de saúde tem de estar funcionando plenamente, com capacidade para detectar, testar, isolar e tratar todos os casos;

– O risco de haver novos surtos precisam ser minimizados;

– Locais de trabalho e escolas, onde há aglomerações de pessoas, devem adotar medidas preventivas;

– Os governos têm de controlar os riscos de importações de novos casos da doença;

– As comunidades devem estar educadas, engajadas e empoderadas para poderem combater a pandemia.

Foto de capa: Janaína Borges

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