Irresponsabilidade na prescrição de medicamentos durante a pandemia

O controverso kit-covid nos obriga a encarar a pauta da hipermedicalização e revela a omissão e até má fé de órgãos e profissionais da medicina 20 de abril de 2021 Luciana Paula

No último dia 31 de março, completou um ano do primeiro registro de um paciente diagnosticado com a covid-19 em Vitória da Conquista. Alguns dias antes, em 16 de março, a Prefeitura havia publicado o primeiro decreto com ações de prevenção à disseminação do vírus que se alastrava pelo mundo que incluam o kit covid.

Ainda que a Organização Mundial da Saúde (OMS) tenha buscado, nesse meio tempo, exercer seu protagonismo indicando diretrizes a serem adotadas pelas nações, o fato é que houve bastante dissonância nas medidas colocadas em prática em cada país. O Brasil destacou-se, sobretudo, pelo inconcebível posicionamento de seu Governo Federal, a negação. Mas logo a negação deu lugar a defesa de remédios sem comprovação de eficácia, que foram e ainda estão sendo consumidos por grande parte da população como uma tábua de salvação diante dos medos e incertezas que essa nova doença nos trouxe.

Até a covid-19, estávamos habituados a tratar as enfermidades por meio de fármacos e vacinas. Na ausência deles, parece que nos apegamos a qualquer promessa de cura, aceitando até mesmo um suposto tratamento precoce onde basicamente foram administrados vários remédios sem qualquer evidência de resultado.

Sobre esse tema, cabe ponderar que, até hoje, não foi estabelecido oficialmente um protocolo nacional de atendimento aos pacientes da covid-19. Em maio do ano passado, até chegou a ser publicada uma tal  nota “informativa” sobre a administração de medicamentos para o atendimento precoce. Mas esse documento explicita, já na sua primeira página, que o Ministério não estabelece por meio dessa nota uma diretriz oficial, trazendo apenas orientações para os profissionais de saúde. Ou seja, antes de qualquer conversa, o órgão já se exime da responsabilidade, deixando o ônus para os médicos. E caso esses profissionais não queiram assumir os riscos por prescrever medicamentos ainda sem comprovada eficácia, a “nota informativa” contém, em anexo, um modelo de termo de responsabilidade para que os próprios pacientes arquem sozinhos com as consequências.

“O caráter desta nota é informativo. Portanto, informa-se que não se trata de um protocolo clínico e que não vincula o prescritor, cabendo ao profissional médico assistente do paciente, avaliar e definir os medicamentos que serão prescritos em cada caso específico (vide Nota Explicativa Nº 27).”

Outro reflexo dessa postura titubeante foi visto, recentemente, quando o próprio ex-ministro Eduardo Pazuello se desmentiu sobre essa a defesa do tratamento precoce, alegando que o que vinha propondo era apenas o “atendimento” precoce, algo que não pressupunha a prescrição de fármacos. É importante destacar que o Ministério da Saúde também vem se omitindo no que se refere a outras medidas, como o isolamento social, uma vez que um lockdown nacional nunca chegou a ser instituído. Diante desse cenário, o enfrentamento à pandemia ficou delegado aos estados e municípios. Enquanto quatro ministros da saúde se revezaram na pasta desde o início da pandemia, na ponta do serviço de atenção básica, os 26 governadores e cerca de cinco  mil prefeitos brasileiros ficaram, e ainda estão, lançados à própria sorte e juízo nessa batalha.

Um exemplo disso é o do nosso município. Herzem Gusmão, ex-prefeito de Vitória da Conquista está entre os que, lamentavelmente, perderam a vida. Em 18 de março deste ano, Gusmão faleceu após ter sido diagnosticado com a Covid-19. Desde dezembro do ano passado, o político estava internado no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, capital. Gusmão recebeu atenção da mídia nacional não apenas pela sua trágica morte, mas por ter sido um dos protagonistas na defesa do cit-covid.

A reportagem de Érika Camargo, publicada pelo Avoador no último dia 26 de março, traz detalhes sobre como o uso de remédios como cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina, entre outros medicamentos, tornou-se parte do protocolo de atendimento aos pacientes da covid-19 no município. Ainda que possamos enxergar a atitude de Gusmão, e de outros prefeitos, enquanto ações “isoladas”, é preciso considerar que a apologia ao uso desses medicamentos, e a compra superfaturada de insumos para a produção de alguns dos mesmos, foi a mais forte – se não mesmo a única – medida oficial adotada pelo Governo Federal no combate ao vírus. 

Se por um lado esta foi a ação mais contundente do Executivo federal no combate ao vírus, é preciso enfatizar que o tal do tratamento precoce parece ter entrado no protocolo oficial de atendimento apenas extra-oficialmente. Até mesmo entre os municípios mais entusiasmados, como Vitória da Conquista, o tratamento precoce passou ao largo do “Diário Oficial”. A estratégia do presidente e alguns prefeitos parece ter sido a de agir extra-oficialmente – não na compra e distribuição dos fármacos, que podem ser rastreadas e comprovadas – mas promovendo a administração desses remédios sobretudo através de falas públicas, ou até mesmo, no caso de Herzem Gusmão, através de abaixo-assinados de médicos e profissionais da saúde que obviamente não têm caráter oficial e não comprometem os seus signatários. 

Já o governo da Bahia, que vinha adotando a prescrição desses fármacos nos hospitais do estado com o uso de termos de responsabilidade por parte dos pacientes, no último dia 30 de março, lançou nota técnica recomendando a não prescrição dos fármacos previstos no “kit-covid”. Essa decisão vem à tona em um período em que estudos indicam a ineficácia desses medicamentos e diversas reportagens abordam os riscos à saúde que a administração incorreta dos mesmos vem causando. 

Sobre o tratamento oferecido no setor privado de saúde, é mais complexo apurar quais foram as principais tendências, uma vez que o sistema privado não tem uma gestão centralizada. No entanto, há indícios de abuso na recomendação do tratamento precoce em algumas redes. A Agência Nacional de Saúde Suplementar, por exemplo, investiga denúncias sobre a operadora Prevent Senior, acusada de indicar aos seus médicos a recomendação indiscriminada do tratamento precoce a todos os pacientes em tratamento da covid-19, e até mesmo a orientar que profissionais infectados permanecessem comparecendo ao trabalho. 

Kit covid e a hipermedialização na pandemia a covid-19.

Kit covid e a hipermedialização na pandemia a covid-19. Foto: Agência Brasil

 

Cultura da hipermedicalização

Se hoje já possuímos as primeiras evidências dos riscos e da ineficiência do kit-covid, ainda assim é importante refletirmos sobre como chegamos até essa situação. Não podemos fugir de uma pergunta essencial: por que tantos pacientes, em sã consciência, se submeteram a tomar medicamentos sem comprovada eficácia – alguns até mesmo assinando um termo de consciência por quaisquer efeitos adversos?

O medo deflagrado pela pandemia de coronavírus não seria capaz de, isoladamente, dar conta dessa pergunta. Para encontrar respostas à questão, busquei ajuda da farmacologista Muryel de Carvalho Gonçalves, que tem doutorado e pós-doutorado na área, e atualmente é Conselheira da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência –  Regional Santa Catarina (SBPC-SC). 

Muryel Gonçalves explica que para entender a relação, muitas vezes abusiva, que temos com os remédios na contemporaneidade, precisamos entender como eles deixaram de ser algo que usávamos apenas eventualmente, e passaram a se tornar produtos com uma presença mais constante no nosso dia-a-dia. Segundo Muryel, isso começou a partir do fenômeno histórico conhecido como êxodo rural – ou seja, a partir do momento em que houve maior concentração de pessoas nos meios urbanos. Pois foi a vida urbana que levou à nossa mesa os alimentos industrializados. Pouco a pouco, fomos adotando um estilo de vida moderno, desconectado da natureza, e perdendo hábitos saudáveis como o de plantar os próprios alimentos, se exercitar em tarefas domésticas e de ingerir alimentos mais nutritivos. 

Para dar conta da intensa vida urbana, pouco a pouco, permitimos que grandes empresas – as quais, vale lembrar, visam lucro! – passassem a produzir aquilo que comemos. Foi assim que perdemos o controle sobre a garantia de uma alimentação saudável e que previne doenças. E o Estado tem um papel importante nesse cenário, uma vez que esse tipo de alimentação que temos hoje não é só uma questão de escolhas individuais pouco conscientes. Essa é também uma questão estrutural, uma vez que foram adotadas políticas públicas voltadas ao agronegócio, o que favoreceu apenas algumas dezenas de empresários brasileiros deste setor, e trouxe consequências negativas para a saúde da maior parte da população. 

Esse cenário da urbanização e a normalização do consumo de produtos com agrotóxico favoreceu o aparecimento e agravamento de diversas doenças. E, quando um cidadão, na condição de paciente, busca ajuda médica para lidar com diversos sintomas resultantes desse estilo de vida não saudável, muitos profissionais de saúde escolhem por garantir a sua melhora através da prescrição médica de algum fármaco. Esses profissionais sentem, talvez, que mesmo em casos onde os remédios não são a única alternativa, não seria suficiente apenas aconselhar o paciente a mudar de hábitos. Como por exemplo, recomendando exercícios físicos para controlar o colesterol no sangue, e evitando assim o uso de remédios como a Sinvastatina. 

Já em outros casos, quando os médicos assumem tal postura, e não prescrevem fármacos após uma consulta, há pacientes que podem se sentir negligenciados. Isso se dá sobretudo porque as pessoas, muitas vezes, não entendem como é a atenção primária oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Estamos habituados a uma cultura de saúde baseada no sistema privado, onde o paciente/cliente busca consultas diretamente com médicos especialistas que tendem a não dedicar muito tempo na consulta e solicitar diversos e complexos exames laboratoriais. 

É como se estivéssemos delegando autoridades. A autoridade sobre o diagnóstico passa do médico para os exames laboratoriais. Já a responsabilidade sobre a cura passa de uma atenção integral ao paciente e da promoção de mudança de hábitos não saudáveis, para apenas a remediação de sintomas através da administração de fármacos. Ou seja, antes da pandemia nós já estávamos condicionados a buscar a cura em remédios. E no começo da pandemia, quando nos vimos diante de uma enfermidade nova, ainda que não houvesse um fármaco adequado para seu tratamento, estávamos condicionados a buscar em um fármaco a solução para nossos problemas de saúde. Nesse cenário, em que  há medo e uma cultura de hipermedicalização já corrente, não foi difícil convencer as pessoas a apostar suas fichas em remédios sem eficácia comprovada. 

Hipermedicallização e uso do kit covid

Farmacologista Muryel de Carvalho Gonçalves fala sobre o riscos no uso de remédios.

Farmacologista Muryel de Carvalho Gonçalves fala sobre o riscos no uso de remédios. Foto: Acervo pessoal.

Apesar de ser farmacologista, Muryel acredita que os remédios deveriam ser a última opção para o tratamento da maioria das doenças da atualidade. A pesquisadora defende que doenças cardiovasculares, por exemplo, que levam muitas pessoas à óbito, são “evitáveis e controláveis através de boa alimentação e atividade física”. Já para os casos de depressão, ansiedade, e demais síndromes mentais, ela ressalta: “podem ser tratados com terapias alternativas e tratamento psicológico, antes, durante ou depois do tratamento necessário com algum fármaco”. Por fim, ela enfatiza que muitos dos casos de câncer estão relacionados ao “alto uso de agrotóxicos, e demais fatores como exposição solar, etc”. Uma abordagem mais integral para o tratamento dessas enfermidades, através de uma melhor alimentação e atividade física, e menos centrada na medicação, também seria a mais barata. “Economicamente falando, sabe-se que é muito mais econômico investir em ações preventivas do que em medidas de tratamento”, conclui Muryel. 

Essa atenção integral, sempre foi o princípio do atendimento do SUS, onde o primeiro atendimento aos pacientes se dá através de uma equipe multidisciplinar, que pode ser formada por médicos, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeuta, nutricionistas, assistente social, assim como alunos residentes. E, seguindo tais diretrizes, era de se esperar que o nosso sistema público promovesse uma administração mais consciente de fármacos, a despeito da prescrição de remédios sem eficácia como os do kit-covid.

Assumindo a responsabilidade

Quando nos deparamos com o fato de que alguns dos principais órgãos de saúde, que compraram e distribuíram os medicamentos do kit-covid, não querem se responsabilizar pelos efeitos adversos, precisamos encarar que a responsabilidade pela nossa saúde, em última instância, está também em nossas mãos. Então é importante pensarmos de forma mais consciente sobre as atitudes que tomamos tanto individualmente quanto coletivamente. 

Em nível individual, seria importante fazermos um uso menos recorrente dos medicamentos e buscar a manutenção da saúde adotando melhores hábitos e alimentação. Em maior escala, isso também acabaria incentivando, através de nosso consumo, a produção de alimentos mais saudáveis, sem agrotóxicos, beneficiando a nossa saúde e a do pequeno agricultor. Também enquanto indivíduos, é importante estarmos atentos toda vez que iniciarmos um tratamento farmacológico. A Muryel nos recomenda sempre realizar a leitura da bula do remédio. Ao ler, precisamos verificar duas informações básicas: o uso indicado e os efeitos adversos. O uso indicado nos permite conferir se nossos sintomas realmente correspondem à prescrição da empresa que formulou o remédio. Já os efeitos adversos nos alertam sobre o que pode ocorrer após o início do tratamento. 

É importante entendermos que ao tomar quaisquer remédios, assinando ou não termos de responsabilidade, assumimos riscos. No caso do tratamento precoce do coronavírus, talvez o hábito de ler o uso indicado e os efeitos adversos dos fármacos poderia nos poupar de algumas ciladas.

Muryel destaca os riscos atrelados ao uso de antibióticos, entre os previstos no kit-covid, uma vez que a covid-19 é uma patologia viral. Ou seja, não faria sentido combater um vírus através de um remédio elaborado para atacar uma bactéria. Além de ineficazes, esses remédios podem levar o nosso corpo a desenvolver  uma tolerância, fazendo com que o antibiótico seja ineficaz quando realmente for necessário tratar alguma bactéria no futuro. 

No caso do kit-covid, onde muitas vezes dois antibióticos eram administrados ao mesmo tempo, o risco das bactérias se tornarem resistentes é ainda maior. E se algumas bactérias resistem a esses remédios, a morte de outras pode gerar desequilíbrios e fragilizar o organismo do paciente, deixando ele mais vulnerável a “infecções oportunas”.

Já sobre a Ivermectina, que se destina ao tratamento de infecções parasitárias, Muryel alerta que, além de ineficaz contra infecções virais, o seu uso indiscriminado pode levar a um quadro de hepatite aguda medicamentosa, sendo necessário, em casos extremos, até mesmo um transplante de fígado.

Essas informações nos ajudam a entender o porquê algumas pesquisas mais recentes indicam que o uso desses remédios, além de não proteger os pacientes, ainda deixaram seus organismos mais vulneráveis ao coronavírus. O uso da hidroxicloroquina, por exemplo, já foi apontado por estudos como um fator associado ao aumento da mortalidade entre os pacientes da covid-19. 

A partir dessas informações, que não são de nenhuma forma “exclusivas”, que estão disponíveis em diversas reportagens e pesquisas pela Internet, espero que cidadãos e governantes possam refletir sobre as escolhas que tomamos quando nos vemos diante de uma enfermidade. Além de trazer uma longa explanação sobre a omissão de alguns políticos, e buscar, com a ajuda de uma especialista, promover uma verdadeira “apologia” a atitudes mais críticas e conscientes na promoção da nossa saúde, encerro este meu primeiro artigo com um segundo apelo. 

No que tange às nossas atitudes diante da coletividade, é importante que não sejamos coniventes com a postura omissa e temerária de alguns dos atuais governantes. Quem não se responsabiliza pelos seus atos, não está pronto para assumir um cargo público. As eleições de 2022 não tardam, e nunca foi tão urgente eleger políticos que se atuem de forma efetiva para a promoção da nossa saúde, desde a produção de alimentos mais saudáveis, até o fortalecimento da medicina integral no SUS. E isso só vai acontecer se nós, os cidadãos, vestirmos essa camisa, assumindo a responsabilidade que nos cabe sobre a nossa saúde e a saúde de toda a nação. Afinal, governos e instituições de saúde são responsáveis pela saúde coletiva, mas também é importante nos responsabilizarmos pelas decisões que tomamos, desde o voto até a forma como fazemos uso de medicamentos.

Jornalista e historiadora. Desenvolve pesquisa sobre a Radiodifusão Pública no Brasil. Doutoranda em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e colunista do site Avoador.

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