Processo de divulgação de artigos científicos é impactado pela pandemia

Entre 1º de janeiro e 30 de abril, os artigos em preprintis relacionados à covid-19 foram acessados e distribuídos 15 vezes mais do que os que têm relação com outros temas 23 de junho de 2020 Raquel Rocha

A necessidade de encontrar respostas sobre a covid-19 tem impactado a divulgação dos artigos científicos e despertado reflexões sobre os parâmetros de confiabilidade na comunidade científica. Aumentou a quantidade e velocidade dos trabalhos publicados, especialmente em preprints (pré-impressos em português), que são aqueles trabalhos publicados em repositórios online antes de passarem por uma revisão.

De acordo com reportagem da Revista Piauí, na base de dados da pesquisa em biomedicina, a Medline, apenas, em 2020, forma publicados 23 mil artigos científicos que citaram a covid-19. O estudo Preprinting a Pandemic, realizado por pesquisadores de seis instituições (Leibniz Information Centre for Economics, na Alemanha, ASAPbio, nos Estados Unidos, University of Liverpool, University College London, The Company of Biologists e University of Cambridge, na Inglaterra), aponta que, entre 1º de janeiro e 30 de abril, os preprintis relacionados à covid-19 foram acessados e distribuídos 15 vezes mais do que os que têm relação com outros temas, e o número de downloads é 30 vezes mais.

Os dois principais repositórios de ciências biomédicas são o bioRxiv, no qual o estudo das seis instituições, em formato de preprint, foi publicado, e o medRxiv. Nos primeiros quatro meses da pandemia, 2.527 preprints foram publicados nessas plataformas. Em comparação ao zika vírus e ao ebola, nos quatro primeiros meses de cada um dos surtos, 78 artigos foram publicados nos repositórios em relação ao zika vírus e 10 ao ebola.

Para se adaptar a essa nova realidade, muitos periódicos tradicionais resolveram rever suas políticas de publicação, com o intuito de facilitar e acelerar a divulgação do conhecimento científico. O período médio para a publicação era de 166 dias, de acordo com o estudo Preprinting a Pandemic. Esse tempo foi acelerado para uma média de 25 dias a menos, no período da pandemia. O ritmo do compartilhamento também acelerou, e esses preprints também ganharam popularidade nas redes sociais, oito dos dez mais populares ganharam mais de 10 mil tuítes cada.

A cloroquina também afetou a divulgação de preprints, principalmente no Twitter, por causa do presidente dos Estados unidos, Donald Trump, e do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e a insistência deles em torná-la a cura para a covid-19. A cloroquina foi associada a dois dos dez preprints mais populares no microblogging. Além disso, o estudo Preprinting a Pandemic apontou como esses artigos recebem atenção na imprensa: dos 10 artigos mais tuitados, cinco apareceram na imprensa. Essa mudança cultural pode ser uma oportunidade de conectar a comunidade cientifica com a mídia para a divulgação de preprints, uma vez que, em comparação aos trabalhos relacionados à pandemia, outros preprints publicados no bioRxiv receberam pouca cobertura.

Fonte:  Revista Piauí 

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