6 de setembro de 2019

Verdades e mentiras sobre as queimadas na Amazônia

O Xereta investigou as principais informações divulgadas sobre o tema nas redes sociais

Nas últimas semanas, fotos, vídeos e textos circularam pelas redes sociais e pelo aplicativo Whatsapp sobre as queimadas na Amazônia. Esse conteúdo tem gerado dúvida sobre sua veracidade e o Xereta resolveu investigar. Durante a investigação, identificamos duas notícias e quatro publicações em redes sociais envolvendo fotos e vídeos duvidosos que atingiram grande relevância social e que foram veiculadas por figuras públicas. A editoria apresenta o resultado da checagem, fruto de uma metodologia de trabalho rigorosa, para que a veracidade das informações fique clara e ao alcance de nossos leitores. 

Bolívia envia avião com água para Amazônia – INCOMPLETO 

Reprodução/Ipea/Exército Brasileiro

As mensagens que circularam nas redes sociais sobre o governo da Bolívia ter enviado um avião com capacidade de 150  mil litros de água para auxiliar no combate aos incêndios na Amazônia são verdadeiras. No entanto, a informação está descontextualizada. 

A aeronave cisterna, o Boeing Supertanker 747-400, foi contratada pelo presidente Evo Morales para auxiliar no combate aos incêndios florestais no departamento de Santa Cruz, leste da Bolívia. O território faz parte da área denominada Amazônia Internacional, localizada na região norte da América do Sul. Com sete milhões de metros quadrados, sua abrangência se estende por nove países: Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela Guiana, Guiana Francesa e Suriname. 

O avião chegou à cidade de Santa Cruz de la Sierra, capital de Santa Cruz, na sexta-feira, 23 de agosto, e se juntou às tropas de combate ao fogo no território de Chiquitania, região fronteiriça com o Mato Grosso.

Buscamos informações no site oficial do governo boliviano onde constam diversas notícias sobre sua atuação no combate às queimadas. A primeira matéria que faz menção à contratação da aeronave está datada em 21 de agosto quando o presidente Evo Morales anunciou a indicação ao Ministro da Economia e Finanças, Luis Arce, para contratação do Boeing 747. O chefe de estado ainda informou a criação o Gabinete de Emergência Ambiental composto pelo vice-presidente, pelos ministros da Presidência, do Governo, do Meio Ambiente e Água e do Desenvolvimento Rural, bem como a ministra da Saúde. 

Em outra notícia, não datada, o Ministro da Presidência Juan Ramón Quintana anunciou a realização de sobrevoo de reconhecimento das áreas mais atingidas pelas chamas na quinta-feira – presume-se que ele se refira à quinta-feira, 22 de agosto, tendo em vista o anúncio da contratação da aeronave no dia anterior. O objetivo era reconhecer os pontos mais críticos para que, quando o avião cisterna chegasse, sua atuação fosse mais eficiente. 

No dia 22 de agosto, em outra nota no site do governo boliviano, Quintana informa as avaliações resultante do reconhecimento aéreo da região e novamente cita a aeronave Super Tanker. A área que, à época, suscitou mais preocupação foi o Parque Nacional de Otuquis no Pantanal, fronteira com o Brasil e Paraguai. 

No mesmo dia, o ministro também anunciou o horário de chegada do avião na cidade de Viru Viru e, ainda indicou a primeira missão da aeronave: ajudar a controlar os incêndios florestais.

Em outras quatro matérias institucionais (1, 2, 3 e 4) entre os dias 23 e 27 de agosto, o governo boliviano detalha e avalia a atuação do SuperTanker no combate ao fogo. 

Desse modo, constatamos que a notícia é verdadeira, porém está descontextualizada podendo levar à compreensão de que o avião foi encaminhado para a Amazônia no Brasil. Por essa razão, a informação ganhou o selo INCOMPLETO do Xereta. 

Bolsonaro usa dados positivos do PT para mentir sobre a atual situação da Amazônia  – VERDADEIRO

Reprodução

Após repercussão internacional sobre as recentes queimadas na Amazônia, o governo de Jair Bolsonaro (PSL) enviou uma circular do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), em conjunto com o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), para seus representantes fora do país elencando argumentos para amparar a defesa da política ambiental brasileira usando dados dos dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva e metade do primeiro de Dilma Rousseff. 

O telegrama apresentava uma “redução significativa   no desmatamento, passando de 27.700 km² em 2004 para 7.500 km² em 2018 (redução de 72%)”. Porém, segundo o dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), desde 2012, o país enfrenta um crescimento quase contínuo da derrubada de floresta.Grande veículos de comunicação do país tiveram acesso ao documento que não chegou a ser divulgado na imprensa para preservar a identidade das fontes. A BBC Brasil chegou a publicar matéria indicando o equívoco do governo Bolsonaro. 

Em nota de posicionamento para a BBC Brasil, o Itamaraty afirma que “o documento não tem como objetivo constituir um guia de implementação de diretrizes ambientais ou avaliação exaustiva do que aconteceu ano a ano no Brasil, mas busca contra-arrestar nefasta campanha de difamação das credenciais brasileiras como país dotado de grande diversidade florestal e biológica e grande produtor mundial de alimentos.”

Após análise dos dados do INPE, classificamos a notícia como VERDADEIRA. 

Camada de fumaça sobre a Amazônia é real – VERDADEIRO

A imagem compartilhada por vários internautas é real e foi divulgada pela Nasa em suas redes. No Twitter, a agência americana diz: “Fumaça de incêndios florestais se espalha por vários estados brasileiros nesta imagem de cor natural tirada por um instrumento @NASAEarth no satélite NPN da Suomi. Embora seja temporada de incêndios no Brasil, o número pode ser recorde”.

Segundo a Nasa, a fumaça é resultado das queimadas que atingem a região amazônica desde julho. Até agora foram registrados 796.280 focos de queimadas no Brasil.

A equipe do Xereta entrou no sistema de satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e teve acesso às imagens geradas no dia da publicação da foto da NASA. A imagem acima, gerada pelo sistema,  mostra a existência da fumaça sobre a região da Amazônia, comprovando a veracidade da foto da NASA. Esta também se confirma por se tratar de uma publicação oficial da entidade em suas redes oficiais. 

Por esse motivos, classificamos a notícia com o selo VERDADEIRO. 

Animais queimados na Amazônia – FALSO

Várias mensagens com imagens de animais queimados circularam nas redes sociais como forma de alerta para o que está acontecendo na Amazônia. Porém, as fotos usadas nas postagens foram tiradas em outros lugares em diferentes situações. 

A imagem do coelho com pelos queimados foi feita em um incêndio que ocorreu no estado da California nos Estados Unidos, em 2018. A foto foi tirada na cidade de Simi Valley no condado de Ventura pelo fotojornalista Chris Rusanowsky e publicada em sua conta oficial no Instagram em 13 de novembro de 2018.A região foi devastada pelo incêndio que ficou conhecido como RockyPeakFire, em referência a região montanhosa atingida pelo foto. O período foi marcado pelos maiores e mais devastadores incêndios registrados no estado americano.

Para confirmar essa informação, buscamos palavras em inglês associadas aos incêndios que nos levaram a uma notícia do Jornal Standard. Na matéria, o jornal apresenta uma série de imagens feitas nos incêndios florestais da Califórnia (Califórnia Fires), devidamente creditadas ao seus autores. Assim, chegamos ao nome do fotógrafo Chris Rusanowsky que publicou em seu site e em sua conta no Instagram a referida foto.

A partir dessas informações, classificamos a associação do coelho queimado com a Amazônia como o selo Xereta FALSO. 

Já a imagem de um  animal correndo em meio às chamas foi feita durante queimada em um canavial em Sertãozinho, no interior de São Paulo A foto foi tirada em 17 de agosto de 2011 e cadastrada no site FolhaPress, agência de notícias que reúne possui um banco de imagens online produzidas por fotojornalista no Brasil. O site pertence ao Grupo Folha. 

Fizemos buscas nos sites de pesquisa e chegamos à informação de que a foto teria sido tirada em um canavial. A partir daí, encontramos a foto, com a data em que foi tirada e seu autor,  no site da da FolhaPress. Classificamos a informação com o selo FALSO.

Já o tatu, que foi resgatado das chamas, foi encontrado em um canavial em Araras, à margem da Rodovia Anhaguera (SP-330) em um incêndio que devastou a região em 30 de julho de 2018. O animal foi encontrado pela equipe de monitoramento da Usina São João e levado para o Centro de Recuperação de Animais Silvestre de Araras.  Numa busca na rede, encontramos informações sobre o incêndio no canavial sites locais. Já a foto do animal é localizada no site “Repórter Beto Ribeiro” em tratamento no centro em 31 de julho de 2018. O tatu, que teve 70% do corpo queimado, morreu dias depois. 

E por último: a imagem de um tamanduá morto foi feita em Presidente Venceslau, também no interior de São Paulo, e está relacionada a uma notícia do jornal Integração – Diário Regional publicada em 20 de maio em 2011 sobre uma queimada ilegal em uma fazenda. 

Fogo em aldeia indígena – FALSO

Vídeo de mulher Pataxó chorando após desastre em Brumadinho viralizou nas redes sociais

Um vídeo compartilhado pelo perfil no Instagram do grupo ativista The Queer Crown da cidade de San Luis Obisco na Califórnia, EUA,mostra uma mulher indígena chorando ao apontar para as chamas que invadiram sua aldeia. O texto que acompanha o vídeo afirma: “Célia Pataxó é uma ativista da tribo Pataxó, cuja aldeia foi primeiro ameaçada (e perdeu sua principal fonte de água e comida) devido ao desastre da barragem de Brumadinho no último ano e agora foi destruída pelo fogo. 

Enquanto o fofo continua a queimar na Amazônia, mantenha em mente que esses incêndios não são parte do ciclo natural do ecossistema de lá como são nos climas ocidentais dos Estados Unidos. Em vez disso, eles são causados pela indústria mineradora e agricultura presentes nessas áreas, e pela queima intencional das terras da floresta tropical para limpá-las para a agricultura. Comunidades indígenas tem vivido nessas terras e protegido-as por Gerações. Agora, no entanto, o presidente de direita Jair Bolsonaro está reduzindo proteções da floresta tropical e retirando as terras do controle dos indígenas para, ao invés, ser utilizado para exploração comercial. 

Doe e apoie os líderes indígenas e organizações que que estão no solo trabalhando para proteger a Amazônia, um recurso vital de fornecimento de oxigênio do mundo todo.” 

O vídeo, na verdade, retrata Célia Ãngohó, porta-voz e esposa do cacique da aldeia Naô Xohâ da Tribo Pataxó na cidade de São João de Bicas em Minas Gerais. Enviado para a equipe da Tv Record Minas, o vídeo foi utilizado em três matérias da emissora. (1,2 e 3). 

Ao assistir o vídeo, buscamos saber quem compartilhou primeiro. Para isso, entramos no perfil no Instagram da atriz que menciona a ONG por ter publicado o vídeo. Ao assistir o material,  constata-se que na índia Pataxó cita que o estouro da barragem de Brumadinho contaminou o rio que abastece sua aldeia. Essa informação, por si só, já indica que o incêndio da aldeia Pataxó não ocorreu em território amazonense, mas sim no estado de Minas Gerais. 

Em novas buscas, chegamos a vídeos produzidos pela TV Record sobre o incêndio e ao site GaúchaZH, site de notícias da Rádio Gaúcha e do jornal Zero Hora, que fez uma checagem minuciosa do vídeo e da veracidades das informações transmitidas. Os referidos veículos fazem parte do Projeto Comprova que reúne diversos veículos de notícias na checagem de informações. 

O incêndio ocorreu entre os dias 06 e 07 de julho deste ano com suspeita de que tenha sido criminoso. Um relatório enviado pela Polícia Federal a jornalistas do Projeto Comprova indica que os índios relataram a presença de pessoas desconhecidas na região que efetuaram disparados de arma de fogo e possivelmente atearam fogo na aldeia. A tribo está localizada num imóvel da Companhia de Mineração Serra Azul, subsidiária da Vale, próxima ao córrego do Feijão, conforme apurou o Projeto Comprova. 

Após esse processo, a notícia foi classificada com o selo FALSO. 

Bolsonaro divulga foto antiga para simular ações de combate a focos de incêndio na Amazônia  – VERDADEIRO

O Ministério da Defesa inseriu uma foto antiga em sua conta no Twitter entre as que supostamente tinham sido feitas no dia 24 de agosto em ações de combate a focos de incêndio na Amazônia. O post é acompanhado de um link de uma matéria do próprio ministério que faz referência ao trabalho desenvolvido pelas Forças Armadas no combate aos incêndios na Amazônia. Na legenda da foto da matéria, indica-se que trata-se de apenas uma foto ilustrativa. O presidente Jair Bolsonaro compartilhou a foto, sem checar, acompanhada do título da referida notícia 

A foto em questão aparece pela primeira vez no site da FAB em 30 de setembro de 2014 para informar sobre uma missão de treinamento de combate a incêndios realizada pelo Primeiro Grupo de Transporte de Tropa no Distrito Federal entre os dias 19 e 26 de setembro do referido ano. 

Tuíte mostra incêndio na região Sul – FALSO

Tuíte feito pelo jogador Cristiano Ronaldo e outros internautas como forma de alerta para o que está acontecendo na Amazônia possui imagem de incêndio de outra região do país. 

Numa rápida busca na internet, encontra-se um conjunto de fotos do incêndio no sul do país no ano de 2013. Várias matérias relatam o incêndio ocorrido no Rio Grande do Sul na Reserva Ecológica do Taim, como a do Portal G1

A foto postada pelo jogador, e compartilhada por várias pessoas, foi tirada pelo fotógrafo Lauro Alves do Jornal Zero Hora. A informação foi desmentida pelo site GaúchaZH, portal de notícias que reúne conteúdo jornalístico do próprio jornal Zero Hora e da Rádio Gaúcha, ambos do Grupo RBS. 

Classificamos essa notícia como o selo FALSO do Xereta.

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