A dor invisível: o luto de quem perde o filho durante a gestação

O luto perinatal e neonatal, que ocorre diante da perda de um bebê durante a gestação ou nos primeiros dias de vida, é invisibilizado ou pouco compreendido 4 de novembro de 2026 < Giovana Viana, Inara Silva e Victória Alves

A maternidade, para algumas mulheres, começa antes do nascimento de um filho. Ela se constrói na descoberta da gravidez, nos planos para o futuro, na escolha de um nome e na expectativa de conhecer alguém que já ocupa um espaço na família. Quando essa trajetória é interrompida, o que permanece é um luto que, muitas vezes, ainda encontra pouco espaço para ser reconhecido.

De acordo com a psicóloga Monalisa Barros, professora do curso de Medicina na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e referência no Brasil nos estudos sobre luto perinatal e neonatal, que atualmente coordena o projeto de extensão Alemdador (Ambulatório de Suporte Emocional ao Luto Perinatal), o luto neonatal ocorre quando o bebê falece nos primeiros dias ou semanas de vida, e as mães enfrentam a dor de perder um filho ao mesmo tempo em que lidam com as mudanças físicas e hormonais do pós-parto.

Já o luto gestacional, explica a profissional, acontece após a perda do bebê durante a gravidez, seja por aborto espontâneo, nascimento do bebê natimorto ou interrupções por motivos médicos. “Um dos desafios enfrentados pelas mães enlutadas é a invisibilidade do luto. Muitas vezes elas escutam frases de como precisam ser fortes e de como forças divinas sabiam o que estavam fazendo. Embora cada história aconteça de uma forma diferente, o sentimento costuma ser o mesmo: a perda de um filho e de todos os sonhos que já haviam sido construídos para ele”, disse. 

Foi essa realidade que marcou a vida de Camila Morais. Ela passou por duas perdas gestacionais em momentos distintos. Os dois bebês nasceram prematuros, com cerca de seis meses de gestação, mas não conseguiram sobreviver por ainda não terem se desenvolvido completamente. A primeira perda aconteceu em 2020, durante uma gestação considerada de risco. Camila enfrentava complicações como perda de líquido e infecções urinárias, mas não imaginava que o desfecho seria tão repentino.

No hospital, além da dor da perda, ela ainda teve que lidar com uma situação devastadora: dividir o quarto com mães acompanhadas de seus recém-nascidos. “Fiquei desesperada. Chorei muito”, desabafou. 

O luto perinatal e neonatal é a dor diante da perda de um bebê durante a gestação ou nos primeiros dias de vida. Foto: Victória Alves

Pouco depois da alta, outro desafio surgiu. O seu corpo produzia leite, mesmo sem a existência do bebê, e havia uma incompreensão sobre a dor do luto que estava vivenciando. “As pessoas falavam que a dor de quem conviveu com o filho era maior. Diziam que, pelo menos, ele estava só na barriga. Parecia que a minha dor não era reconhecida.”

Anos mais tarde, ela engravidou novamente. Mais uma vez, tratava-se de uma gestação de risco, e desde o início os médicos alertavam para a possibilidade de um parto extremamente prematuro. Camila fez tudo o que podia para prolongar a gravidez, mas novamente precisou enfrentar a despedida. “Foi um momento de muita vulnerabilidade, mas o apoio fez diferença. Foi mais fácil lidar e entender o luto”, relembrou.

Dessa vez, ela encontrou um acolhimento diferente. A maternidade já contava com um espaço específico para mães enlutadas e oferecia acompanhamento psicológico durante a internação. Desde julho de 2023, funciona no Hospital Municipal Esaú Matos, em Vitória da Conquista, a Enfermaria Maria Flor, destinada ao acolhimento de mulheres que vivenciaram a perda gestacional. A iniciativa está relacionada à implementação da Lei Municipal Maria Flor, que determina a reserva de 10% dos leitos dos serviços obstétricos do município para essas pacientes, em espaço separado dos demais. 

Política pública

A experiência de Vitória da Conquista antecedeu a criação de uma política de alcance nacional. Sancionada em junho de 2023, a Lei Maria Flor (Lei Municipal nº 2.780/2023) estabeleceu medidas específicas para assegurar maior privacidade e acolhimento às mulheres que enfrentam a perda gestacional. Além da reserva de leitos em espaço separado, a legislação prevê atendimento preferencial pelos serviços de psicologia das unidades hospitalares.

Dois anos depois, em maio de 2025, foi sancionada a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental (Lei nº 15.139/2025), que estabeleceu diretrizes nacionais para o atendimento humanizado e o acompanhamento das famílias que enfrentam perdas durante a gestação, no parto ou após o nascimento.

Para a psicoterapeuta histórico-cultural e psicóloga hospitalar do Esaú Matos, Laila Azevedo, é fundamental que existam políticas públicas de apoio às mulheres em luto nas unidades hospitalares. “No SUS (Sistema Único de Saúde), quando falamos de cuidado integral e humanizado, falamos também do acolhimento diante da perda. Essa mãe não pode ser tratada apenas como alguém que precisa receber uma notícia difícil ou cumprir procedimentos burocráticos”, enfatizou. 

Desde julho de 2023, funciona no Hospital Municipal Esaú Matos, em Conquista, a Enfermaria Maria Flor, destinada ao acolhimento de mulheres que vivenciaram a perda gestacional. Foto: Victória Alves

Laila ressaltou, também, que o cuidado médico é essencial para o amparo psicológico da família que passa por esta dor, que desorganiza profundamente, em especial, a vida da mulher. A equipe médica deve ter responsabilidade na comunicação, inclusive na hora da notícia da perda. “A comunicação do óbito deve ser feita com clareza, honestidade e sensibilidade. Frases prontas, pressa ou excesso de linguagem técnica podem aumentar ainda mais o sofrimento”, explicou.

“O hospital precisa garantir um cuidado interdisciplinar, envolvendo medicina, enfermagem, psicologia, serviço social e toda a rede de apoio possível. Esse cuidado pode incluir escuta qualificada, orientação sobre direitos, respeito aos rituais de despedida e suporte psicológico nos primeiros momentos do luto”, descreveu a psicóloga.

Negligência médica

Mariana Daneluz é mãe de três filhos. Em 2022, com expectativas altas, ela aguardava o nascimento de seu primeiro filho. Assim que viu o resultado positivo no teste de gravidez, passou a imaginar cenários com o neném e a se ver como mãe de primeira viagem. Ele recebeu o nome de Pedro.

Seu mundo começou a estremecer quando teve um leve sangramento quatro dias após descobrir a gestação. Esperou mais dois dias e foi ao pronto atendimento realizar um ultrassom para verificar se estava tudo bem com ela e o bebê.

Segundo Mariana, a resposta do médico plantonista foi ríspida: “não tem nada aqui.” Ela então perguntou se ele conseguia enxergar o saco gestacional – a primeira estrutura visível no ultrassom que abriga o embrião e o líquido amniótico. “Você tem que conversar com sua médica”, foi a resposta dada pelo plantonista.

De acordo com o psicólogo Otávio Lago, que atua na Unidade de Terapia Iintensiva (UTI) Neonatal Samur, diversas atitudes podem ser classificadas como negligência hospitalar e má conduta médica. Entre elas estão a quebra de garantia da escuta psicológica, a violência obstétrica quando não é respeitado o desejo da família na escolha de analgesia e no tipo de parto, a privação do direito da gestante com o bebê após o parto e a falta de uma comunicação clara, honesta e respeitosa acerca do estado de saúde do feto ou bebê. Esse último citado se enquadra no caso de Mariana. 

De acordo com o psicólogo Otávio Lago, a falta de comunicação clara acerca do estado de saúde do bebê é uma forma de negligência. Foto: Victória Alves

As mães que estão em luto e que sofreram negligência por parte do hospital podem recorrer à Justiça e estão amparadas por um robusto aparato legal. “O principal contexto que garante esse amparo é a Constituição Federal, que garante o direito à dignidade, à saúde e a reparação por danos morais”, explicou a advogada familiar Larissa Rezende. “Também temos o Código de Defesa do Consumidor, pois a relação com hospitais privados é de consumo, então ele estabelece a responsabilidade objetiva do hospital, que responde pela falha no serviço, independente da culpa. Tem o Código Civil, que define que é ato ilícito, incluindo a negligência e o artigo 927, que estabelece o dever de indenizar quem causa dano a outro”. 

Em choque com o atendimento que recebeu do plantonista, Mariana foi atendida por uma médica, que teve uma postura muito mais acolhedora do que o outro profissional. Ela rebeceu então a informação, de maneira humanizada e respeitosa, que havia perdido o filho. Ao relembrar, ela contou que o sofrimento veio em silêncio, de forma intensa e dilaceradora. 

Luto gestacional

Mariana, após perder o filho, passou a se decidicar totalmente ao trabalho e, consequentemente, fugir da própria dor. Quando lhe perguntavam sobre o assunto, se esquivava a fim de se privar dos possíveis julgamentos que sabia que poderia sofrer. Mas prosseguiu sem se abrir e ressignificar a dor. 

Uma mês depois ela foi surpreendida ao descobrir que estava grávida novamente. Desta vez, foi acompanhada por uma obstetra que ofereceu todo o apoio que precisava. À medida que a gestação ia avançando, o medo a acompanhava. O pânico de sentir tudo mais uma vez, de perder mais um filho tão aguardado, a atormentava. O alívio foi imenso quando o bebê nasceu, lindo e saudável. 

Quando a criança completou dois anos e meio, Mariana se sentiu pronta para mais um membro da família. Retirou o DIU e engravidou novamente. A bebê se chamaria Lívia.

Entretanto, a história se repetiu e ela perdeu novamente seu futuro bebê. Diferentemente das outras gestações, Mariana tinha compartilhado a alegria com familiares e conhecidos. Então, sentiu a necessidade de comunicar a perda. Foi aí que ela percebeu que o luto gestacional ainda é pouco compreendido socialmente.

Poucas pessoas perguntavam como ela estava, outras sumiram e algumas nem chegaram a entrar em contato. Grande parte delas não falaram nada por não saberem o que dizer. De qualquer maneira, Mariana se sentiu desamparada e sem local de escuta.

Após passar pelo processo de gravidez duas vezes, desta vez escolheu sentir a dor. Se afastou do trabalho e sentiu o luto, ao invés de tentar superá-lo. Passou a escrever o que sentia, a processar o sofrimento e a entender que o luto não precisa ser paralizador e pode ser ressignificado.

Hoje, Mariana ainda é mãe de três filhos. Tem no currículo vários cursos e se tornou educadora perinatal, que auxília famílias no processo da gestação, do parto e pós-parto. Ela também passou a ser doula, profissional responsável por preparar a ambientação e oferecer suporte emocional para as mães antes e durante o parto. “Ofereço o acolhimento para outras mulheres da forma que que não recebi durante as minhas gestações.”

O Hospital Esaú Matos, em Conquista, conta com a Enfermaria Maria Flor, destinada a mães em situação de perda gestacional. Foto: Giovana Viana

Maria Eduarda, nome fictício dado à entrevistada que pediu anonimato, tem uma história que demonstra que a intensidade da dor pela perda não está ligada ao tempo de gravidez, mas ao vínculo criado desde o momento em que se descobre uma nova vida. Ela ficou grávida muito jovem. Ficou surpresa no início, mas logo vieram os planos, a procura por um nome e a alegria de compartilhar a novidade com a família.

Mas esse processo foi interrompido em menos de um mês. Os exames mostraram que a gestação havia deixado de evoluir e que seria necessário realizar a interrupção. “Foi muito rápido. Quando eu finalmente estava aceitando, pesquisando nomes e imaginando como seria, precisei cortar tudo pela raiz”, desabafou.

Além da perda, ela precisou enfrentar um procedimento que desconhecia completamente. A internação, a espera pela medicação fazer efeito e a necessidade de realizar uma curetagem tornaram aquele momento ainda mais difícil. Esse procedimento é realizado quando é necessário retirar tecidos anormais da parede interna do útero, feito em casos de abortos espontâneos.

Ela descreve a experiência como invasiva e traumática, tanto física quanto emocionalmente. O que mais a marcou foi perceber que, enquanto outras mulheres deixavam a maternidade com seus filhos nos braços, ela saía carregando apenas o vazio da ausência. “Você passa por algo parecido com um trabalho de parto, mas sem sair dali com o seu filho”, contou.

Nos meses seguintes, a mãe conta que a tristeza deu lugar a um sentimento constante de culpa. Evitava falar sobre o assunto, chorava sozinha e acreditava que havia feito algo para provocar a perda. “Eu achava que Deus não tinha deixado eu ser mãe porque era uma pessoa ruim.”

Mesmo iniciando acompanhamento psicológico, ela não conseguiu manter as sessões. Falar sobre o assunto parecia reviver toda a dor. Um ano depois, as lembranças continuam presentes e ainda despertam sofrimento. Hoje, pensar em uma nova gravidez desperta sentimentos contraditórios. Existe o desejo de viver novamente a maternidade, mas também o medo de enfrentar outra perda. “Ao mesmo tempo em que sinto medo de acontecer de novo, sinto que meu filho vai voltar para mim na hora certa.”

Apesar das diferenças entre as três histórias, Camila, Mariana e Maria Eduarda compartilham uma mesma percepção: o luto gestacional ainda é pouco compreendido. Para elas, perder um filho durante a gravidez não significa apenas interromper uma gestação, mas despedir-se de sonhos, expectativas e de uma maternidade que já havia começado.

Camila acredita que falar sobre esse tema é uma forma de acolher outras mulheres que vivem a mesma dor. “O que mais acontece é isso: mulheres que perdem seus bebês e não são vistas.”

Processo do luto 

O processo de luto após a perda de um ente querido, segundo a teoria da renomada psicóloga clínica Therese Rando, ocorre em seis etapas. O reconhecimento, a reação, a rememoração da perda, a renúncia de apegos, a readaptação da realidade e, por fim, o reinvestimento de energia emocional.

Este processo pode ser ainda mais doloroso quando não há tempo para vivenciar momentos com a pessoa falecida. “Uma das tarefas do luto imediato é recorrer às memórias dos vínculos existentes com quem partiu, mas, no caso do luto perinatal, não há como retornar a estas memórias uma vez que não houve encontro ou registro da existência deste filho”, explica a psicóloga Monalisa Barros.

“Um dos desafios enfrentados pelas mães enlutadas é a invisibilidade do luto”, explica a psicóloga Monalisa Barros

O psicólogo Arilson Ferraz, diretor do Instituto do Luto Infinito Amor, reforça a importância do acompanhamento profissional no momento da dor. “A perda pode gerar fortes desarmonias emocionais e físicas, por isso, no luto, a pessoa necessita de assistência semanal com escuta, espaço para fala e orientação do seu processo.” Em Conquista, o instituto conta com uma equipe de sete psicólogos, uma enfermeira e um assistente social para atender famílias em luto.

Monalisa Barros destaca estratégias que podem auxiliar essas mães e famílias enlutadas. Alguns exemplos são a construção da caixa de memórias, que reúne itens de recordação como roupas ou ultrassonografias, assim como a escrita epistolar, como é chamada a ferramenta terapêutica que consiste na escrita de cartas para processar o luto. “Além disso, trabalhamos com a validação desta maternidade, por meio da abertura de espaço para acolhimento da dor e das dúvidas, com uma escuta compassiva e atenta.”

As histórias de Camila, Mariana e Maria Eduarda revelam a importância do acolhimento para famílias que enfrentam um tipo de luto pouco compreendido. “Essa mãe que perdeu um filho precisa ser escutada, amparada e respeitada em seu tempo de dor”, concluiu a psicóloga Laila Azevedo.

Foto de capa: Imagem gerada por IA/Gemini

*Essa reportagem faz parte da série Reportagem Especial, produzida na disciplina Jornalismo na Internet II, por alunos do 7º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.