“A menina que tinha dons”: o universo pós-apocalíptico de Mike Carey

O romance do autor inglês mostra o que há de repulsivo no comportamento humano por meio da história de uma menina de 10 anos confinada em uma base militar na Inglaterra 12 de janeiro de 2020 < Ricardo Santos

Em qualquer criação artística, a execução importa mais do que a ideia. Um tema banal pode resultar numa grande obra. Não que zumbis seja algo banal. Considero um tema perfeito, principalmente, como metáfora política. O filme clássico de George Romero A Noite dos Mortos Vivos (1968) ainda é insuperável nesse sentido.

A representação dos zumbis mais em voga atualmente é a serie de televisão The Walking Dead. A série mostra um cenário em que a civilização chegou ao fim após os mortos começarem a reviver e a devorar os vivos. Então se dá uma luta pela sobrevivência a qualquer custo. A metáfora aqui é mais moral. Questiona-se a todo momento o que é certo ou errado dentro de uma visão de ética do antigo mundo, considerado civilizado.

No romance A menina que tinha dons de M.R. Carey, na verdade, o roteirista de quadrinhos Mike Carey, de títulos como Lucífer e O Inescrito, os zumbis também se mostram como uma ameaça ao estilo de vida e a maneira de pensar anteriores.

Mike Carey

“Esta não é uma história de terror típica. O horror não se dá por uma montanha russa de sustos baratos, e sim pelo o que há de repulsivo no comportamento humano”, Ricardo Santos. Foto: Reprodução/Rocco

Numa Inglaterra devastada, dentro de uma base militar, um grupo de cientistas, soldados e civis tenta viver com os restos materiais e emocionais do mundo que acabou. E há os nascidos depois do cataclismo, que apenas conhecem o que havia antes por meio de algumas referências desse passado. No caso de Melanie, uma menina de 10 anos, os livros, principalmente, sobre mitologia grega.

Melanie e outras crianças são mantidas confinadas enquanto são educadas por alguns professores. Elas são escoltadas para as aulas por soldados que apontam armas para as suas cabeças. As crianças ficam amarradas o tempo todo.

Como eu disse antes, a execução de uma obra de arte é o que importa. Em A menina que tinha dons, tudo é executado de maneira soberba. A ideia do romance é básica. Um grupo de pessoas tenta sobreviver num mundo em convulsão. O brilho está em como o autor expandiu sua premissa.

Esta não é uma história de terror típica. O horror não se dá por uma montanha russa de sustos baratos, e sim pelo o que há de repulsivo no comportamento humano. Outro atrativo é a mistura de beleza e crueldade que percebemos na biologia, na própria natureza. Há muitas informações científicas, descrições técnicas, o que às vezes pode cansar o leitor, mas que não deixa de ser fascinante.

O ritmo do romance é mais lento. Há cenas de ação, mas são raras. Há muita tensão. Acima de tudo, o romance é um estudo de personagens. O que leva o leitor a continuar virando as páginas é o desenvolvimento na jornada dos cincos protagonistas. Os insights que cada um tem mostram que até mesmo crianças e pessoas consideradas mais brutas podem ter uma vida interior complexa.

O texto foi escrito na terceira pessoa do presente. O que pode aborrecer no início acaba sendo um recurso bastante justificável no contexto da trama. Passa-se bem a sensação de urgência, precariedade e incerteza.

A ressalva fica para a personagem que representa a Ciência com jeito de cientista louca, que só vai piorando sua conduta ética durante o romance, terminando de forma quase caricata.

A Rocco está de parabéns pela edição bem cuidada. Revisão acima da média, tipografia elegante e de fácil leitura, e papel amarelo de boa gramatura. A capa segue a versão em inglês, sendo emborrachada, gostosa de pegar. A tradução de Ryta Vinagre é bastante competente.

Esse romance não vai agradar apenas aos fãs de terror, mas a qualquer leitor interessado em personagens muito bem desenvolvidos e reflexões pertinentes sobre um possível futuro próximo.

*Ricardo Santos é escritor, editor e servidor público. Nasceu em Salvador e é formado em Jornalismo pela Uesb. Ele possui um blog e seus contos foram publicados em sites, coletâneas e revistas, como Somnium e Trasgo. Organizou a coletânea Estranha Bahia (EX! Editora, 2016; 2ª edição 2019), finalista do prêmio Argos. Também é autor do romance juvenil Um Jardim de Maravilhas e Pesadelos (2015) e do livro de viagens Homem com Mochila (2018). Seu mais recente livro é a coletânea Cyberpunk (Draco, 2019). 

Imagem de capa: Reprodução/Rocco