Agosto é o mês do orgulho e da visibilidade lésbica
Nesta sexta-feira (29/08), é celebrado o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, que surgiu a partir de um encontro realizado no Rio de Janeiro em 1996 29 de agosto de 2025 Nanda DedaAgosto é considerado o mês de luta por direitos das mulheres lésbicas por reunir duas datas marcantes para a comunidade: o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, celebrado nesta sexta (29), e o Dia do Orgulho Lésbico, comemorado em 19 deste mês. As datas surgiram a partir de eventos políticos das décadas de 80 e 90.
O Dia Nacional da Visibilidade Lésbica passou a ser simbólico a partir de 1996, quando foi realizado o 1º Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), no Rio de Janeiro. No evento, foram debatidas principalmente propostas para a saúde da comunidade lésbica, como a necessidade de acesso a preservativos femininos, os impactos da epidemia de HIV entre mulheres homoafetivas, e outras demandas por políticas públicas.
Um estudo sobre a trajetória dos movimentos lésbicos, feito pela pesquisadora Núbia Carla Campos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), destaca que, na época do seminário, por medo de atos de violência e repressão, a organização do evento pediu à imprensa que o nome do hotel onde aconteceriam as atividades não fosse divulgado.
“O I Senale foi o primeiro evento, de âmbito nacional, organizado e integrado somente por lésbicas e mulheres bissexuais. Antes, as lésbicas do Brasil se reuniam conjuntamente em encontros brasileiros com gays, travestis e transexuais. Desta forma, permanecemos invisíveis em todos os espaços”, disse a ativista Marise Fernandes à pesquisadora da UERJ. Ela esteve presente durante esse momento histórico.
Mais de dez anos antes do 1º Seminário Nacional de Lésbicas, em 19 de agosto de 1983, um protesto no Ferro’s Bar, localizado no Centro de São Paulo, marcou aquela data como o que atualmente é conhecido como o Dia do Orgulho Lésbico.
Dia do Orgulho
O Ferro´s Bar, na capital paulista, funcionou entre 1961 e 1990. No início, era frequentado apenas por artistas e jornalistas, mas, no final daquela década, virou referência para a comunidade lésbica. O bar era o ponto de encontro do Grupo de Ação Lésbico Feminista (Galf) que, no local, realizava reuniões e distribuía o folhetim “ChanaComChana”. O material divulgava produções artísticas e ações do grupo, com foco nas pautas lésbicas.
Em 1983, o grupo passou a ser agredido verbalmente e fisicamente pelos proprietários do bar, que queriam impedir a venda e a distribuição do folhetim. Em uma entrevista para o G1, Alice Oliveira, frequentadora do Ferro´s, disse que o bar lucrava com o dinheiro das mulheres lésbicas, mas, ainda assim, começou a agredi-las.
Em resposta às violências e proibição da circulação do folhetim, Alice e Rosely Roth, antropóloga, ativista e criadora do “ChanaComChana”, organizaram um protesto para o dia 19 de agosto de 1983, reunindo movimentos de lésbicas, gays, feministas, parlamentares e a imprensa. A manifestação contou com mais de 100 pessoas. Depois do ato, a venda do folhetim passou a ser permitida no Ferro´s.
A data ficou marcada na história e, em 2008, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), o Dia do Orgulho Lésbico foi reconhecido.
História e resistência
A criação de ambas as datas tem como objetivo combater a lesbofobia, preconceito contra mulheres lésbicas. Segundo dados do 1º LesboCenso Nacional, em 2021 e 2022, mais de 78% das mulheres lésbicas brasileiras relataram que já sofreram algum tipo de assédio ou violência por causa de sua orientação sexual.
Realizada pela Liga Brasileira de Lésbicas (LBL) e pela associação lésbica feminista de Brasília Coturno de Vênus, a pesquisa é uma das poucas no Brasil com foco nessa população. A ausência de dados específicos é um problema que resulta na violação de direitos e na falta de políticas públicas específicas para essas mulheres.
Uma matéria do Site Avoador, publicada em 2024, destacou a luta das mulheres lésbicas contra o preconceito e a violência sexual. Ao veículo, a jornalista Ana Carolina Bastos enfatizou o quanto a comunidade é invisibilizada. “Ao nadar contra a corrente e ‘sair do armário’, somos menosprezadas e seguimos vivendo à margem da sociedade, com a falta de direitos básicos e com os índices de violência a cada dia maiores”, disse.
Em Vitória da Conquista, geralmente rodas de conversas e outros eventos marcam o mês da visibilidade lésbica. No ano passado, um debate aconteceu no Centro Integrado de Direitos Humanos, promovido pela Coordenação de Políticas de Promoção da Cidadania e Direitos de LGBT, ligada à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Semdes), e pelo Conselho Municipal da Diversidade Sexual e de Gênero (CMDSG).
A cidade também conta com coletivos sociais, entre eles o Grupo Safo, formado por mulheres lésbicas e bissexuais que atuam em defesa dos direitos da comunidade.
*Nanda Deda é bolsista do Programa de Extensão Jornalismo como Forma de Transformação Social no Combate à Desinformação.
Foto de capa: freepik