Bovinos alimentados com até 30% de caroço do algodão na dieta não têm o sabor da carne alterado

Caroço, torta e farelo de algodão são importantes fontes de proteína e fibra, unindo preço acessível, qualidade e aproveitamento sustentável 6 de outubro de 2025 Arthur Vitor

Na pecuária moderna, marcada pelo crescimento dos sistemas de confinamento, semiconfinamento, sistema de recria e free stall, os pecuaristas têm buscado alternativas para a formulação de dietas. Elas devem ser completas e balanceadas devido aos altos níveis de exigências nutricionais que esses sistemas de produção demandam. A alimentação fornecida no cocho precisa garantir fibra, energia e proteína para que os nutrientes sejam transformados em produtos de origem animal, como: carne, leite, lã, pele e ovos.

Porém, um fator determinante são os altos preços dos concentrados convencionais, como o milho e a soja. “Com o aumento dos preços dos alimentos tradicionais, é preciso substituí-los, de maneira que haja a diminuição de custos de produção sem comprometer a produtividade animal” pontua Flávia Nunes, médica veterinária e mestre em zootecnia com ênfase em nutrição e alimentação de ruminantes. Neste contexto, os subprodutos do algodão tornam-se uma alternativa eficiente na alimentação animal.

O aumento expressivo por sistemas intensivos, seja do setor dos monogástricos (aves, suínos, equideos) ou de ruminantes (bovinos, caprinos, ovinos), associa-se bem com a alta demanda da utilização dos subprodutos da cadeia produtiva do algodão. Os coprodutos são resíduos agroindustriais secundários gerados no processo de industrialização do caroço e transformados em torta e em farelo. O caroço, a torta e o farelo são capazes de fornecer suplemento de boa qualidade nutricional, especialmente para vacas em lactação.

 

Na Fazenda Recanto Feliz, em Manoel Vitorino, na Bahia, a zootecnista e pecuarista Lara Andrade não cultiva o algodão, mas encontrou no caroço uma solução para o seu rebanho de 33 vacas nelores e aberdeen angus, que são destinadas a manter a reprodução. “O custo é mais barato em relação a outros concentrados, além de ser fonte de energia em período de seca. A dieta do meu rebanho é composta por um alimento proteico energético, o caroço de algodão e a palma forrageira fornecida duas vezes ao dia”, pontua.

Os ainda polêmicos coprodutos do algodão

A Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e a Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento (Faped) apoiaram a realização de um estudo técnico científico sobre a viabilidade de utilização dos subprodutos do algodão na alimentação animal. A pesquisa foi conduzida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Algodão). Ao longo de um ano, a equipe analisou cerca de 150 estudos científicos para embasar a elaboração do relatório.

Apesar da comprovação do alto valor nutricional dos coprodutos do algodão, da redução de custo, da elevação da produtividade e do fortalecimento da sustentabilidade na pecuária. O estudo alerta, contudo, para o uso responsável dos subprodutos, especialmente por conta do gossipol que em grandes quantidades pode ser tóxico. E, ainda, traz recomendações sobre a quantidade ideal da composição alimentar usando os coprodutos do caroço do algodão, para que não altere o sabor da carne.

O algodoeiro possui um fator antinutricional chamado de gossipol, produzido em glândulas espalhadas por toda a planta, como nas sementes, raízes, folhas, brácteas, flores e pétalas. O gossipol é uma substância tóxica e natural que tem a função de proteger a planta contra pragas e doenças. O excesso de gossipol na alimentação de ruminantes pode causar problemas de saúde para os animais, como a diminuição da taxa de crescimento, perda de apetite, inflamação, danos hepáticos e intestinais.

 

O uso de gossipol interfere na reprodução animal, em machos ele possui efeito espermicida, mata espermatozóides, por isso não deve ser fornecido aos animais destinados à reprodução. Já nas fêmeas ele interfere na produção de hormônios reprodutivos, prejudicando a ovulação, e em filhotes pode ocorrer intoxicação. “Na prática, os produtores somente observam o aparecimento de algum efeito adverso no animal”, observa a médica veterinária Flávia Nunes. Os coprodutos do algodão não podem ser utilizados sem orientação adequada para a alimentação animal.

Além disso, os atuais consumidores buscam cada vez mais alimentos com qualidade aromática, textural e palatável. O caroço tem o potencial de maximizar o depósito de tecido muscular, o que gera melhor composição química da carne, logo, tem-se aceitabilidade do consumidor. A depender da qualidade e do tipo de caroço fornecido no cocho, ele pode ser empregado em sistemas intensivos de produção, sem provocar alterações importantes nas características da carcaça ou rejeição da carne produzida por parte do consumidor.

A pesquisa conduzida pela Embrapa Algodão mostra que o uso acima dos limites preconizados pode alterar características da carne, incluindo o sabor. A utilização do caroço de algodão para bovinos em confinamento deve ser limitada a, no máximo, 30% na dieta total, pois níveis superiores podem causar sabor e odor característicos à carne dos animais. Em ovinos, a recomendação é de até 20%, abaixo desse valor não se encontra efeitos negativos na carne de cordeiros destinados à produção de corte.

A transformação de ‘lixo’ em subprodutos

A cerca de 900 km de Manoel Vitorino – BA, a “Pérola d’Oeste”, a “Capital do Agronegócio” e a “Capital do Matopiba” são nomes dados com orgulho e carinho pelos moradores de Luís Eduardo Magalhães (LEM), no extremo oeste baiano. Os apelidos não surgiram por acaso, eles mostram o quanto a produção agrícola é importante para transformar o cerrado em campo fértil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estática (IBGE), LEM é o segundo maior município exportador da Bahia, com 16,5% de participação na balança comercial do estado.

O município ocupa a 5° posição no ranking econômico entre todas as cidades da Bahia, com o Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 8,8 bilhões. A região é considerada uma forte fronteira agrícola e possui alguns pilares do agronegócio, destacando com uma alta demanda da agricultura familiar e com as produções de culturas de soja, milho e algodão. “Essa região aqui tem aptidão agrícola incrível, é inacreditável”, afirmou Júlio Busato, produtor rural e ex-presidente da Abapa (Associação Baiana de Produtores de Algodão).

É nesse contexto que a Icofort Industrial S/A em 2010, com objetivo de atender às exigências do mercado, instalou-se na Pérola d’Oeste, sendo a mais moderna empresa para extração de óleo de algodão. “A nossa matéria prima é o caroço de algodão e o nosso principal produto é óleo bruto, quanto mais rendimento tivermos com ele, mais a empresa ganha valor agregado”. Já a ração é subproduto e serve para cobrir custos, originando a torta e o farelo, conta Vitor Ramos, supervisor de produção da Icofort.

O caroço de algodão é obtido através da separação da fibra, durante o descaroçamento do algodão nas algodoeiras. Aderido ao caroço é possível encontrar o línter, fibras curtas. Os caroços são submetidos a etapas de limpeza para remoção de impurezas e passam pelo processo mecânico de remoção do línter. Em seguida, os caroços sem línters são separados em cascas e sementes oleaginosas e submetidos a um processo de esmagamento em um filtro-prensa, separando-se o óleo e a torta. A casca pode ser removida antes da prensagem, podendo ser comercializadas separadamente. O material que sobra após a extração mecânica do óleo é chamado de torta, e da extração química, farelo.

 

A consolidação do ‘boi vegetal’ e a expansão na Capital do Agronegócio

Há um trocadilho na produção pecuarista que diz o seguinte: ‘de um boi se aproveita tudo, até mesmo o berro’. Na agricultura, esse jogo de palavras ganha uma nova forma,  pois  em  conformidade  com  Silmara  Ferraresi,  diretora  de  relações institucionais da Abrapa, “da planta do algodão nada se perde, tudo se aproveita”. O algodão (Gossypium spp.) é uma planta constituída de pluma e de caroço que são produzidas juntamente, pois cada fibra de algodão é uma única célula que surge a partir da superfície do caroço.

Com o aumento da produção da pluma do algodão a cada ano no Brasil, consequentemente ocorre o crescimento da produção de caroço de algodão. A pluma do algodão é utilizada em diferentes setores: roupas, acessórios e calçados. Além disso, artigos do lar como roupa de cama, mesa, banho, tapetes, passadeiras, revestimentos de pavimentos, tecidos decorativos e revestimentos de móveis. No campo da saúde, são feitos a gaze, prótese, suturas, máscaras e itens de higiene pessoal.

A Bahia se destaca sendo o segundo maior produtor de algodão – cotonicultura -, atrás apenas de Mato Grosso. A cadeia produtiva do algodão é uma atividade que passa pelas mãos de 41 mil pessoas empregadas no setor. O ciclo de produção referente a 2023/24 bateu mais um recorde na produção do algodão, que somou 691,3 mil toneladas. Assim sendo, mesmo diante do cenário de estiagem, a expectativa é que a safra 2024/25 de algodão na Bahia poderá ser 14% maior em relação ao último levantamento.

Segundo o diretor executivo da Abapa, Gustavo Prado, a estimativa é que a produção do estado deve alcançar cerca de 780 mil toneladas de algodão em pluma, sendo 37% oriundos de irrigação e 66% advindos do sistema de sequeiro. Quando observada a área total plantada, representa 413 mil hectares, na Bahia, o algodão, em 2023, ocupava apenas 0,55% da área total. Em relação à produtividade, comparada com a safra de 2023/24, a safra 2024/25 projeta queda de 14,45%.

 

No que se refere a integração do uso dos subprodutos do algodão na alimentação animal ainda é um mercado restrito, mas em ascensão. Conforme a presidente da Abapa, Alessandra Zanotto, a associação tem buscado cada vez mais incentivar a produção pecuária na região. “A gente tem trabalhado com os pecuaristas locais, não só buscando suporte ao governo, mas estimulando o setor secundário, como a indústria de carne”, disse.

Foto de capa: Embrapa Algodão.

3 respostas para “Bovinos alimentados com até 30% de caroço do algodão na dieta não têm o sabor da carne alterado”

  1. Parabéns!! Adorei a reportagem!!

  2. Dávyne Nascimento disse:

    Incrível!

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