Candidatos espalham mentiras sobre ataque do PCC a consulados às vésperas das eleições
Candidatos vinculados ao Partido Liberal (PL) e ao Partido Progressista (PP) circulam informações fora de contexto para gerar alarde em meio às eleiçõesVárias publicações sobre o fechamento das embaixadas dos Estados Unidos e da Austrália serem motivados por uma ameaça de ataque da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), circulam pelas mídias sociais às vésperas do primeiro turno das eleições.
Neste 3 de outubro, véspera da abertura das urnas no Brasil, Bereia identificou vídeos publicados por candidatos a deputado, vinculados ao Partido Liberal (PL) e ao Partido Progressista (PP), que usam de mentiras, informações imprecisas e fora de contexto para gerar alarde e fazer campanha política. Os conteúdos, que alcançaram mais de um milhão de visualizações, são publicados em um contexto de ameaça de interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro.
São quatro candidaturas propagadoras dessas mentiras nas redes:
•Babi Mendes (243,8 mil visualizações no Facebook e 472,6 mil no Instagram) – Bárbara Hannelore da Silva Mendes, empresária, criadora de conteúdo digital e candidata a deputada federal pelo Partido Liberal (PL-SP)
•Paulo Mansur (105,5 mil visualizações no e 148,5 mil no Instagram) – Paulo Jorge Mansur Neto, candidato deputado estadual pelo Partido Liberal (PL-SP)
•Dr. Marcello (3,9 mil visualizações no Facebook e 190,6 mil no Instagram) – Marcelo Cruz, vereador do Partido Liberal em Praia Grande (SP), candidato a deputado federal pelo PL-SP
•Keilan Fernandes (3,4 mil visualizações no Facebook e 26,5 mil no Instagram) – Keliana Fernandes Mangueiras, jornalista, radialista candidata a deputada federal pelo Progressistas (PP-MS)
Os dados foram coletados até a manhã de 3 de outubro. Total: 347,6 mil visualizações no Facebook e 838,2 mil no Instagram.
Por que embaixadas foram fechadas?
Em 2 de outubro, as representações diplomáticas dos Estados Unidos (EUA) e da Austrália no Brasil comunicaram a interrupção dos serviços presenciais em todas as cidades que oferecem atendimento direto. A justificativa para a medida foram motivos de segurança, mas as autoridades não especificaram quais seriam as ameaças potenciais, o que contribuiu para o surgimento de boatos.
No mesmo dia, a Polícia Federal (PF) cumpriu mandados de busca e apreensão em São Paulo e no entorno do Distrito Federal como “ações preventivas”. As investigações se baseiam em um suposto plano de atos contra as instalações diplomáticas do país estadunidense, mas, até o momento, não encontrou elementos que confirmariam a ameaça inicialmente apontada.
Em paralelo, Canadá, Reino Unido, Irlanda e Alemanha publicaram comunicados recomendando vigilância redobrada aos cidadãos que pretendem estar no Brasil. O alerta é para o risco de manifestações políticas espontâneas e distúrbios civis associados ao acirramento eleitoral e ao pleito que ocorrerá no dia 4 de outubro.
Os vídeos apurados pelo Bereia elencam uma série de informações fora de contexto para construir uma ideia falsa e espalhar pânico de que ameaças do PCC motivaram o fechamento das embaixadas dos Estados Unidos e da Austrália.
O PCC planeja ataques durante as eleições?
Uma das afirmações que circulam por publicações de candidatos é de que a Polícia Civil de São Paulo teria identificado um plano do PCC para atacar agentes de segurança, mas nenhuma ameaça recente contra embaixadas foi identificada. Nos últimos anos, integrantes da organização criminosa foram condenados por planejar ataques contra autoridades e o sistema penitenciário, mas não há histórico de planos contra representações diplomáticas.
Em maio passado, em meio a um contexto de tensões impostas pelo governo dos Estados Unidos ao Brasil, o governo Donald Trump designou o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, de forma contrária à classificação do Brasil como facções do crime organizado. A medida gerou reação no governo federal e abriu uma discussão sobre os limites da atuação de um país estrangeiro diante de questões de segurança pública dentro do território nacional.
O governo brasileiro contestou a possibilidade de ações extraterritoriais dos Estados Unidos sobre o Brasil. Em julho, o Ministério das Relações Exteriores informou ao Congresso Nacional que a classificação das facções como narcoterroristas poderia abrir espaço para medidas estadunidenses contra as instituições do Estado brasileiro. O Itamarary afirmou existir possibilidade de uso de força militar dos Estados Unidos em território brasileiro.
Estrangeiros foram impedidos de acompanhar as eleições brasileiras?
Vídeos checados pelo Bereia repetem a informação de que diplomatas dos Estados Unidos que verificariam as eleições tiveram visto negado. Em julho deste ano, Ministério das Relações Exteriores do Brasil confirmou a negativa de vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos por outros motivos.
Segundo o Itamaraty, a decisão ocorreu porque o pedido foi apresentado após um encontro em Brasília no qual políticos brasileiros levantaram suspeitas sobre as urnas eletrônicas diante de diplomatas estrangeiros, a exemplo do ocorrido em 2022. O governo brasileiro considerou que a visita poderia representar uma instrumentalização política do processo eleitoral.
O questionamento às urnas eletrônicas voltou a ganhar destaque após o então pré-candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), divulgar informação falsa sobre as urnas brasileiras. Na ocasião, Bereia checou o conteúdo publicado por Flávio e constatou o uso de informações falsas para atacar o sistema eleitoral brasileiro.
Centenas de observadores de vários países e organismos internacionais estão no Brasil para as eleições
Desde 1º de outubro passado, mais de 140 observadores de sete organizações internacionais chegaram ao Brasil para acompanhar as eleições de 2026, incluindo representantes da Organização dos Estados Americanos (OEA), da União Europeia, Parlamento do Mercosul (Parlasul), Liga dos Estados Árabes e The Carter Center (EUA).
As missões têm caráter de observação independente e técnico e deverão produzir relatórios sobre o processo eleitoral. Assim, elas acompanharão etapas como a preparação, a votação e a apuração, avaliando aspectos como integridade, logística, tecnologia e cumprimento das normas eleitorais.
A OEA enviou 91 observadores de 23 países, que acompanharão o processo em 20 estados e no Distrito Federal. Além das organizações internacionais convidadas pelo TSE, entidades nacionais também foram credenciadas para atuar como observadoras.
Referências
Agência Brasil
G1
CNN Brasil
Outras Palavras
*Esta matéria foi publicada originalmente pelo Bereia Informação e Checagem de Notícias.
**O selo atribuído à checagem foi adaptado aos padrões utilizados pelo Site Avoador, mantendo o mesmo significado.
Foto de capa: Coletivo Bereia