Catadores transformam resíduos em renda e contribuem para a preservação ambiental
Na Bahia, a estimativa é de aproximadamente 2.748 catadores distribuídos em 100 cooperativas. Em Conquista, são cerca de 600 catadores, segundo a Defensoria Pública 5 de novembro de 2026 < Rafaella Leite, Raquel Gomes e Rebeca AlmeidaEntre os pedestres que caminham pelas ruas e o movimento dos carros, os catadores de materiais recicláveis coletam e ressignificam aquilo que, para muitos, já perdeu sua utilidade. Diariamente, esses trabalhadores saem de casa e enfrentam o sol, a chuva e as condições climáticas cada vez mais adversas, empurrando carrinhos de mão ou pilotando motocicletas adaptadas para transportar os materiais. Ao final do dia, o que foi descartado por alguns se transforma em possibilidade de renda para outros.
Em Vitória da Conquista, Wallace Sousa iniciou sua trajetória como catador aos 11 anos. Após o pai sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC), ele decidiu recolher resíduos e vendê-los para contibuir com a renda familiar. A primeira coleta lhe rendeu R$30,00. “O valor era pouco, porém, nós estávamos tirando o lixo do meio ambiente, que é o mais importante”, contou. Hoje, aos 32 anos, ele atua como agente ambiental, presidente da Associação de Coletores de Resíduos Sólidos Recicláveis (Acres) e administrador do grupo Império Recicla Mais, no bairro Cruzeiro.
No Brasil, há cerca de um milhão de pessoas que vivem da coleta e da comercialização de resíduos reutilizáveis, segundo dados do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). Na Bahia, de acordo com levantamento da Secretaria de Meio Ambiente, a estimativa é de aproximadamente 2.748 catadores distribuídos em 100 cooperativas. O número não considera os trabalhadores que atuam de forma independente, sem vínculo com associações ou cooperativas.
Em Conquista, a Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE/BA) estimava cerca de 600 catadores na cidade, em levantamento de 2021. Uma pesquisa da DPE realizada no mesmo ano apontava que 83,5% desses trabalhadores eram negros e pardos, com renda familiar mensal de no máximo R$500,00. Em 2023, eram 508 trabalhadores.
Na terceira maior cidade da Bahia, o trabalho dos catadores ganhou mais visibilidade após a criação de associações e cooperativas, algumas formalizadas com o apoio do programa Mãos Que Reciclam, desenvolvido pelas defensoras públicas Kalyani Gonzaga e Aline Brito Mulle. Atualmente, a Acres e a Cooperativa de Catadores Recicla Conquista são organizações reconhecidas por sua atuação no município.
Mas, para além das cooperativas e associações, existem aqueles trabalhadores que atuam de forma autônoma. Sem acesso a maquinários adequados e equipamentos de proteção individual, eles correm mais riscos no trabalho e vendem os seus materiais por um preço mais barato.
A rotina dos catadores autônomos
Com a força nos pés e nas mãos para puxar o seu carrinho, Raimundo Silva atua como catador independente há quatro anos. Seu objetivo diário é preencher três sacolas para que, a partir de 100 kg coletados, possa vender o material a R$ 0,45 o quilo.
Segundo Raimundo, foi a dificuldade de ocupar outras áreas de trabalho que o levou para a coleta de resíduos sólidos.“ É o meu pão de cada dia”, afirmou. Para ele, o seu ofício é importante para o meio ambiente, mas também é um trabalho árduo, cansativo e que apresenta riscos, principalmente pela falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). “Já cortei minha mão, já furei meu pé com espinhos. Têm muitas coisas que o povo descarta e a gente não vê, pisa em cima e se machuca.”

“Nós trabalhamos para limpar a natureza. Se todos pensassem assim, o mundo seria melhor”, afirma o catador Raimundo Silva. Foto: Rafaella Leite
Além dos riscos à sáude, o catador ainda precisa lidar com a falta de reconhecimento da relevância do seu serviço. “Nós trabalhamos para limpar a natureza. Se todos pensassem assim, o mundo seria melhor. É um trabalho digno, eu gosto de fazer e me sinto feliz”, contou.
Matheus Barbosa também entende a importância do seu papel. Ao raiar do sol, com sua moto e uma carretinha atrelada para carregar os quilos de recicláveis, ele sai de seu depósito de triagem no Cruzeiro em direção aos pontos de coleta em bairros como Aparecida, Alto Maron, Nova Cidade, Vila Serrana e Morada dos Pássaros. A partir daí, começa, então, a caçada aos resíduos.
Depois de 35 anos como fotógrafo, por influência de sua ex-companheira, há 7 anos, ele trabalha como catador autônomo. Em seu depósito, ele mesmo faz todo o processo de triagem, separação e venda do material. Porém, por não ter acesso a equipamentos como a prensa ou a máquina de corte, o seu preço de venda fica mais barato. Mas isso não o impede de continuar. “Sou catador com orgulho”, afirmou.
Espaços de coleta e reciclagem em Conquista
Seja nas ruas de forma autônoma ou nas cooperativas, são os trabalhadores que movimentam a cadeia de reciclagem. Porém, com a estrutura oferecida pela cooperação, os catadores têm condições de trabalho mais dignas, segundo o presidente da Acres, Wallace Sousa.
Em 2024, a Acres recebeu o alvará de funcionamento por meio da atuação do Núcleo de Gestão Ambiental (Nugam) da 2ª Regional da DPE/BA, com sede em Conquista. A instituição, formada por 48 associados, administra o Centro de Triagem de Resíduos Sólidos, primeiro equipamento municipal voltado à gestão de resíduos. De acordo com Wallace, o Centro “facilitou a vida dos catadores.”
Localizado no bairro Boa Vista, o Centro de Triagem possui 2.000 m², sendo um galpão dividido em cerca de 17 boxes que separam cada tipo de material. O local é equipado com prensa, módulo administrativo, banheiros, copa, área externa e ecoponto. É nesse espaço que os catadores podem armazenar os recicláveis e, após isso, utilizar equipamentos que agreguem valor a esses resíduos.
“O papelão prensado é mais valioso do que o papelão solto, então tudo isso influencia no valor que ganha o catador”, relatou o presidente da Acres. Segundo Wallace, antes da inauguração do espaço, em 2025, os catadores não tinham boas condições de trabalho e realizavam o processo de triagem sob o sol e chuvas. “Os trabalhadores tinham que levar os resíduos para casa para não perder”, complementou.
Dos 48 associados da Acres, 32 são mulheres e 16 são homens. Cada catador coleta, em média, de uma tonelada a 1,03 tonelada de materiais recicláveis durante o mês. No Centro de Triagem, eles realizam o armazenamento, a separação e a destinação dos resíduos coletados.
Em outro ponto da cidade, a Cooperativa de Catadores Recicla Conquista possui um galpão na Rodovia BA 262, km 08, no Distrito do Pradoso, próximo ao Aterro Sanitário. Além disso, a cooperativa possui três ecopontos, locais onde a população pode descartar voluntariamente resíduos que não devem ir para o lixo comum. Em parceria com a Prefeitura, a organização realiza a coleta nas residências e também em empresas e durante eventos da cidade.
Catadores prestam serviço ambiental
Além de ser fonte de renda para os trabalhadores, a reciclagem cumpre um papel fundamental na preservação ambiental e no desenvolvimento sustentável. A atuação dos catadores tem relação direta com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída por meio da Lei 12.305/2010.
A legislação federal estabelece que a gestão e o gerenciamento de resíduos devem seguir uma ordem de prioridade: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento e disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos. Além disso, incentiva a participação de cooperativas e associações de catadores na coleta seletiva, na triagem e na recuperação de materiais recicláveis.
“Quando esses materiais não são reutilizados, são descartados e destinados a vazadouros a céu aberto, os famosos lixões, contaminam a população e o ecossistema”, explicou a engenheira ambiental Lariane Lima Farias.

Para a engenheira ambiental Lariane Farias, os recursos gastos em aterros são “um desperdício”. Foto: Rafella Leite
Os aterros sanitários, diferente dos lixões, são espaços projetados para receber o lixo de forma controlada, com solo impermeabilizado e sistemas de drenagem, mas, ainda assim, segundo Lariane, não é um mecanismo favorável ao meio ambiente, além de custar mais caro.
“Quando esse resíduo ocupa um espaço em um aterro sanitário, sendo que ele poderia ter sido reciclado, isso influencia negativamente no meio ambiente e, também, nos custos de gestão integrada de resíduos do município”, ressaltou a engenheira ambiental.
Para Lariane, os recursos gastos em aterros são “um desperdício”, pois com o trabalho do catador e o apoio de toda a população com a reciclagem e o reuso, o dinheiro público poderia ser destinado para outras necessidades.
Apesar do trabalho realizado pelas cooperativas e associações, o descarte irregular de lixo ainda é um problema que atinge diversos bairros e loteamentos de Conquista. No Vila Elisa e no Miro Cairo, localidades mais afastadas do Centro da cidade, os moradores se queixam do acúmulo de resíduos em terrenos baldios, resultado da ação dos próprios moradores, mas também da falta de ações efetivas de fiscalização e de educação ambiental do Poder Público.
Em entrevista ao Conquista Repórter, o professor da Uesb e especialista em gestão de resíduos sólidos, Altemar Amaral, explicou que o município precisa disponibilizar pontos de coleta próximos aos bairros de população de baixa renda, especialmente para resíduos da construção civil, além de investir na educação ambiental. “Precisa ter uma política, inclusive para conscientização. Mas é um processo longo, que a gente não vai conseguir resolver a curto prazo.”
Enquanto ainda há o que avançar na política ambiental em Vitória da Conquista, são as mãos dos catadores que contribuem cotidiamente para a sustentabilidade ambiental e a destinação adequada dos resíduos sólidos. “São os catadores os reais profissionais, os protagonistas de toda a cadeia”, finalizou a engenheira ambiental Lariane Lima Farias.
Foto de capa: Rebeca Almeida
*Essa reportagem faz parte da série Narrativas Afetuosas, produzida na disciplina Jornalismo na Internet II, por alunos do 7º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.




