Chapa 3 “Uesb cada vez mais forte”: “É necessário ampliar os programas de permanência estudantil”
A chapa é composta pelos professores Reginaldo Pereira, do campus de Itapetinga, e Cássia Brandão, do campus de Jequié 10 de abril de 2026 Rebecca Di Pardi*Os dois pedagogos Reginaldo Pereira e Cássia Brandão são os candidatos à reitoria da Uesb que compõem a chapa 3 “Uesb cada vez mais forte”. Professores dos campi de Itapetinga e Jequié, respectivamente, eles formam o grupo que pretende dar continuidade à gestão de Luiz Otávio Magalhães, reitor da universidade desde 2018. Docente do Departamento de Ciências Humanas, Educação e Linguagem (DCHEL), Reginaldo é o atual Pró-Reitor de Graduação da instituição.
A trajetória acadêmica de Reginaldo começou na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), em Ilhéus, quando ingressou na graduação em Pedagogia. Posteriormente, cursou mestrado em Educação na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e doutorado na mesma área na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Ele também integra o corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED/Uesb). Atua ainda como coordenador do Grupo de Pesquisa Infância, Educação e Contemporaneidade (GIPEC), onde desenvolve estudos nas áreas de Currículo, Práticas Educativas e Diferença, com foco nas relações entre educação, infância e contemporaneidade.
A candidata à vice-reitora, Cássia Brandão, é professora do Departamento de Ciências Humanas e Letras (DCHL), campus de Jequié, onde atualmente exerce a função de Assessora Acadêmica. Ela é licenciada em Pedagogia pela Faculdade de Educação da Bahia (FEBA), mestre em Educação pela Ufba e doutora em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb).
No plano de gestão, a chapa 3 destaca, entre os principais eixos de sua candidatura, a defesa da democracia e dos direitos humanos, o combate à discriminação de gênero, a inovação pedagógica como reinvenção da docência e a valorização do trabalho.
Confira a seguir a entrevista da chapa 3 ao Site Avoador. Para manter a isonomia, foram enviadas simultaneamente nove perguntas para cada chapa, sendo oito iguais e uma específica para cada dupla, respeitando o Art. 18 do Regulamento Eleitoral, que prevê “elaboração de roteiro único e padronizado, com no mínimo 70% (setenta por cento) perguntas idênticas para todas as chapas”.
Avoador – O Restaurante Universitário (RU) é uma importante política de permanência estudantil. Apesar dos subsídios em vigor para habilitados ao PRAE, alunos estrangeiros e cadastrados na Ação de Apoio Alimentar, o movimento estudantil ainda reivindica outros aprimoramentos, a exemplo do preço de R$2,00 por refeição para todos os discentes, sem distinções, o funcionamento regular no período noturno e a reposição dos alimentos em tempo hábil. Quais são as propostas da chapa para garantir alimentação e estrutura de atendimento adequadas no RU?
Chapa 3 – Os Restaurantes Universitários da Uesb, de fato, se constituem em importante política de permanência estudantil e, ainda mais, de sociabilidade, convivência e encontros. E, justamente por isto, eles devem ser um dos objetos prioritários da gestão da universidade. Houve avanços nos últimos anos, entre eles, a ampliação da refeição subsidiada a R$ 2,00 aos alunos habilitados ao Prae, de 2 para 3 refeições diárias, o cadastramento automático de todos os estudantes da graduação na ação de apoio alimentar, garantindo subsídio de 50% do valor da refeição aos alunos não habilitados, e a expansão do subsídios das refeições também para os alunos da pós-graduação. Ampliar a faixa de subsídios para todos os alunos da universidade é uma meta que deve ser perseguida, ainda que seja difícil de ser alcançada de forma imediata, contando apenas com os recursos do orçamento da Universidade. E para atingir esta meta, será necessário não apenas a ampliação dos recursos financeiros para o subsídio das refeições dos RUs, como também investimentos em obras e reformas, para ampliação e qualificação dos restaurantes e, ainda, construção de ao menos mais um RU, para os estudantes de graduação e pós-graduação do campus II, de Jequié. Por fim, será necessário também o aprimoramento dos processos de definição dos cardápios e de fiscalização dos serviços prestados pelas empresas contratadas, para assegurar qualidade às refeições servidas e cumprimento dos horários de funcionamento definidos em contrato.
Avoador – Existem cursos na Uesb, especialmente de graduação, que lidam com a falta de professores. Dessa forma, disciplinas são ofertadas em período especial de férias para tentar minimizar o atraso dos semestres e docentes são sobrecarregados com atividades de ensino, o que compromete a atuação na pesquisa e extensão. Por que a sua chapa é a melhor candidata para negociar com o Governo do Estado da Bahia a realização de concursos públicos?
Chapa 3 – Nos últimos 4 anos, a Uesb realizou 4 concursos públicos para docentes e viabilizou cerca de 150 convocações a partir dos concursos realizados. Mas ainda é excessivamente longo o intervalo entre a comprovação da necessidade do professor e a efetiva realização do concurso, nomeação e posse dos aprovados. O principal entrave na realização dos concursos são as longas tratativas até que se obtenha os atos de autorização do Governo do Estado para realização destes concursos. A Uesb tem, hoje, 43 pedidos de realização de concurso que foram encaminhados para o Governo em setembro de 2025 e até o momento ainda não dispõem de ato de autorização para o concurso. E, mesmo que haja a autorização nos próximos meses, os novos docentes concursados somente serão empossados em 2027 (em função do ano eleitoral), praticamente dois anos após a apresentação dos pedidos pelos Departamentos. É uma realidade que afeta a Uesb e todas as demais universidades estaduais. A solução talvez não seja a de identificar “a melhor chapa para negociar com o Governo”, mas sim a melhor equipe de gestão para atuar em articulação com as demais universidades, com as representações de docentes, técnicos e estudantes, com lideranças políticas e avançar na luta pela efetiva autonomia da universidade para realização de seus concursos públicos, a partir do momento em que ela demonstre planejamento e disponibilidade orçamentária para incorporação de novos professores efetivos. E isto a Chapa 3 está disposta a fazer.
Avoador – Nos últimos anos, os índices de concorrência em alguns cursos tiveram uma queda significativa. Se eleito(a), quais políticas pensa em adotar para tornar a Uesb uma universidade mais atrativa para novos estudantes?
Chapa 3 – São muitos os motivos que podem levar à diminuição de inscritos para acesso a determinados cursos da Uesb e, às vezes, nem todos os motivos são negativos. Há cerca de 15 anos, a Uesb era a única opção de ensino superior pública em Itapetinga, Jequié e Vitória da Conquista e hoje, nestes municípios, temos, felizmente, outras instituições públicas atuando na oferta de cursos de graduação, como a Ufba, o Ifba, a UFSB e o IFBaiano. Mas a Universidade pública predominantemente presencial, como a Uesb, também sofre concorrência de instituições privadas que ofertam milhares de vagas em cursos a distância, contando, muitas vezes, com financiamento aos estudantes, com recursos públicos, como atrativo. Neste quadro, “para tornar a Uesb uma universidade mais atrativa para novos estudantes”, são necessárias ações e programas articulados em duas frentes: por um lado, assegurar o aprimoramento acadêmico de seus cursos, garantindo formação de qualidade no ensino, na pesquisa e na extensão, para que os novos estudantes vivenciem a importância da formação em cursos regulares e presenciais, com convivência diária com outros discentes, com docentes e técnicos da universidade; por outro lado, aprimorar e ampliar os programas de permanência estudantil, de forma a criar condições objetivas e concretas para que estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica possam perceber que a Uesb é, sim, uma instituição capaz de os acolher e oferecer oportunidades de transformação de vidas.
Avoador – Há uma demanda nos três campi por melhorias na infraestrutura, desde a implementação de rampas para pessoas com deficiência física até a reforma de laboratórios, salas de aula e auditórios. Quais são as propostas da chapa para aprimoramento dos espaços físicos da universidade?
Chapa 3 – A Uesb passou diversos momentos de sua história sem planos e ações de planejamento de infraestrutura. Como resultado, hoje a instituição vive um déficit evidente em estruturas prediais, em condições de acessibilidade, em estruturas de energia e de redes de comunicação. Este déficit atinge as políticas de permanência estudantil, com a necessidade de construção e/ou ampliação de restaurantes e residências universitárias e dos núcleos de atendimento e inclusão para pessoas com deficiência; as políticas gerais de acessibilidade em todos os campi; as demandas por espaços acadêmicos, como gabinetes de trabalho docente e novos laboratórios de ensino, pesquisa e extensão; as condições de trafegabilidade, deslocamento e paisagismo nos campi; a capacidade de alimentar a demanda de energia elétrica, evitando oscilações e interrupções nos serviços etc. Este déficit não será sanado em uma única gestão. Mas é necessário que se assegure que, em nenhum momento mais, a Uesb passará qualquer ano sem a implementação de etapas e ações de aprimoramento de sua infraestrutura física, com obras de construção, ampliação e recuperação de suas instalações. Este investimento em infraestrutura deve ser contínuo e planejado, e deve contemplar: a) ação política para o fortalecimento do orçamento institucional; b) definição de Plano Diretor e prioridades institucionais, ano a ano, pelos Conselhos Superiores; c) organização técnica e administrativa para execução dos planos de infraestrutura aprovados.
Avoador – Diante dos desafios de financiamento e valorização da produção acadêmica, quais propostas a chapa apresenta para ampliar os investimentos em pesquisa e extensão na Uesb, garantindo recursos, infraestrutura e incentivo à participação de estudantes e docentes?
Chapa 3 – Nos últimos anos já foram adotadas algumas ações que julgamos importantes para a ampliação dos investimentos em pesquisa e extensão da Uesb, com a implementação de diversos programas que asseguram a descentralização dos recursos financeiros da instituição, com transferência direta de recursos para coordenadores de projetos de pesquisa, de extensão e de editoração científica, para coordenadores de cursos de graduação e de programas de pós-graduação, diretores de departamento e coordenadores de laboratórios. Acreditamos que estas iniciativas devem ser mantidas e aprimoradas, mediante a organização de suporte técnico e operacional para que diretores e coordenadores de programas e projetos possam utilizar estes recursos que foram descentralizados. Este suporte técnico deve auxiliar os coordenadores nas atividades de organização dos planos de trabalho, no levantamento e cotação de preços das despesas relacionadas aos projetos, programas e laboratórios, na realização das prestações de contas e em outras atividades técnicas que são indispensáveis na execução de despesas mediante utilização de recursos públicos.
Avoador – Os trabalhadores e trabalhadoras terceirizados/as da Uesb enfrentam frequentemente a falta de recebimento dos seus salários. Entre 2024 e 2025, a universidade teve que assumir o pagamento dos salários desses funcionários diante da incapacidade da empresa de cumprir as obrigações contratuais. Esse problema é recorrente diante da política de terceirização que vem sendo adotada pelo Governo do Estado da Bahia. Caso eleita, como a chapa pretende lidar com as demandas dos terceirizados, que desempenham serviços essenciais na Uesb?
Chapa 3 – Hoje, no serviço público, nos Estados, municípios e na União, diversos serviços essenciais às instituições são desenvolvidos mediante a contratação de empresas de locação de mão de obra, não se admitindo, para eles, a organização de carreiras e realização de concurso público. Assim, em todo o serviço público estadual, de acordo leis e decretos, devem ser realizados por meio de terceirização serviços relacionados a: a) conservação e limpeza; b) copa e cozinha; c) suporte administrativo e operacional a prédios públicos (atividades de recepção, controle de acesso de pessoas, manutenção de áreas verdes e de campos agropecuários); d) manutenção predial (pedreiros, serventes, pintores, eletricistas etc.); e) vigilância e segurança patrimonial; f) transporte (motoristas). Estes serviços, embora essenciais na Uesb, não mais são realizados por servidores públicos, e sim por trabalhadores e trabalhadoras com vínculo empregatício com empresas de locação de mão de obra. Neste cenário, um compromisso que assumimos é o de afirmar e reconhecer os direitos das pessoas que atuam nestes serviços como cidadãos e cidadãs e como trabalhadores e trabalhadoras. E outro compromisso essencial é o de que a Universidade, ainda que não seja a empregadora destes trabalhadores, tem responsabilidade subsidiária sobre as condições de trabalho destas pessoas, fiscalizando a atuação das empresas e assegurando condições dignas para o cumprimento dos direitos trabalhistas para a realização dos seus serviços.
Avoador – O assédio moral e sexual é uma realidade nos três campi da Uesb, que exige acolhimento das vítimas e apuração rigorosa de denúncias. Como a chapa planeja viabilizar canais de denúncia por meio dos quais as vítimas, estudantes, professores ou técnicos, sejam resguardadas e não revitimizadas?
Chapa 3 – O assédio moral e sexual deve ser enfrentado de forma contundente e transparente. Mas, para uma abordagem mais ampla do tema, é necessário reconhecer que ele não é uma realidade apenas nos “três campi da Uesb”, mas está presente em diversas universidades brasileiras, em vários órgãos públicos, na gestão de empresas privadas, até mesmo na organização de instituições religiosas – o que não diminui a responsabilidade da Uesb, mas deve nos auxiliar a encarar o problema não como algo localizado, mas, pelo contrário, como sintoma de estruturas de poder autoritárias e com fortes recortes de violência de gênero. E, por isto, a Uesb deve aprimorar seus mecanismos de apuração e julgamento das denúncias, combater a morosidade processual, as dificuldades na composição das comissões processantes e as diferentes assimetrias de poder/dependência na universidade que, muitas vezes, inibem a denúncia. Tais mecanismos devem envolver: a) programas de formação sobre assédio moral, sexual e discriminação e definição de códigos de conduta claros e amplamente divulgados; b) criação de equipes, nos campi, que assegurem escuta qualificada e apoio aos(às) denunciantes, especialmente para escuta e acolhimento de vítimas femininas. Toda denúncia deve ser acolhida e apurada com rigor, sem generalizações que não correspondem à realidade institucional, mas também sem complacência com práticas incompatíveis com a vida universitária e com a vida social.
Avoador – Desde 2013, a ONG Amigo Pet atua voluntariamente na Uesb oferecendo alimentação e cuidados veterinários aos animais comunitários. Porém, a universidade não possui uma política voltada para a causa animal ou espaço para manejo adequado dos animais, especialmente aqueles doentes ou em recuperação. Quais são as propostas práticas da chapa para garantir apoio aos docentes e discentes que voluntariamente cuidam dos animais comunitários?
Chapa 3 – Na verdade, a Uesb aprovou, no final do ano passado, em reunião do Consu, sua política voltada para a causa animal, com o nome de “Política Institucional de Cuidados e Combate aos Maus-Tratos aos Animais Comunitários dos campi da Uesb”, e decidiu pela criação de uma comissão permanente para implementação, acompanhamento e avaliação da política para o manejo ético dos animais comunitários. Nosso entendimento é o de que, após a deliberação do Consu, que resultou em uma Resolução (Resolução Consu nº 01/2026), publicada em janeiro deste ano, cabe à gestão – qualquer que seja ela – assegurar todas as condições para que a Comissão Permanente, que deverá ser composta por 12 membros, envolvendo os três campi da Uesb, possa atuar efetivamente na política de cuidado dos animais comunitários e no combate aos maus-tratos, com autonomia para tratar de todas as questões envolvidas, inclusive as demandas relacionadas à definição de espaços adequados para recuperação de animais doentes ou em recuperação, de áreas em que seja necessário evitar ou impedir a presença e circulação de animais comunitários e áreas de alimentação desses animais nos campi.
Avoador – A implementação de políticas afirmativas na Uesb tem sido um dos focos da sua campanha. Para a chapa 3, como um olhar racializado para a universidade pode ser um diferencial em uma possível gestão?
Chapa 3 – A Chapa 3 tem como candidato a Reitor um homem negro, oriundo de uma comunidade periférica – Salobrinho, Ilhéus –, de uma família que, anteriormente, jamais tinha em seu horizonte a perspectiva de ingresso dos filhos em uma universidade pública. Ser hoje candidato a Reitor significa, para o candidato da Chapa 3, que ele, pessoa negra, não apenas ingressou em universidades públicas – como aluno de graduação (na Uesc), como aluno de Mestrado (na Federal de Uberlândia), como aluno de Doutorado (na Federal de São Carlos), e como docente (na Uesb) – mas que, nestas Universidades, ele atuou nos movimentos organizados de defesa da Universidade Pública, a ponto de ter seu nome indicado para representar e defender uma proposta coletiva de gestão acadêmica e administrativa. Não se trata de uma vitória pessoal de nosso candidato, mas de mais um passo em uma luta que tem diversos atores, pela abertura plena das universidades públicas brasileiras à diversidade da população brasileira – homens, mulheres, pessoas cis e pessoas transgênero, brancos e pretos, indígenas e quilombolas – e para que esta diversidade esteja presente não apenas discutindo políticas afirmativas para a instituição, mas construindo todas as políticas inerentes à Universidade: políticas para o ensino, a pesquisa, a extensão, para a formação profissional, para o desenvolvimento da ciência, para a cultura, para a formação política e para o desenvolvimento econômico e social dos territórios de influência da Uesb.
*Rebecca Di Pardi é voluntária do Programa de Extensão Jornalismo como Forma de Transformação Social no Combate à Desinformação.
