Com quadra poliesportiva abandonada, grupo de capoeira do Jardim Valéria realiza aulas na rua
Em 2019, o equipamento foi entregue à população, sob a administração da Escola Municipal Anísio Teixeira. Devido à falta de manutenção, o espaço está sem iluminação e com os banheiros destruídos 27 de maio de 2026 Karina Costa e Mariana Lacerda/Conquista RepórterSem iluminação, com portões quebrados e banheiro inutilizável, a quadra poliesportiva do Jardim Valéria é um espaço comunitário que poderia abrigar atividades culturais e esportivas para moradores do loteamento. Porém, pouco mais de sete anos após a entrega do equipamento, em 2019, o cenário é de completo abandono. Diante da situação, os integrantes do grupo Capoeira Pelourinho da Bahia, que atuam na comunidade, não possuem um local para realizar os treinos. “É muito triste ver uma criança treinando a capoeira na rua”, afirma a capoeirista Micaele Silva.
No banheiro, há pias quebradas, acúmulo de lixo, muita poeira e restos de tijolos. Ao redor da quadra, o mato alto facilita que animais peçonhentos apareçam sem que ninguém perceba. O descaso com o espaço público afeta a todos, mas são os capoeiristas que vêm se organizando em busca de uma solução. Segundo Micaele, o grupo já enviou ofícios à Secretaria Municipal de Educação (Smed) solicitando reparos e o uso do local para os projetos sociais dos moradores, mas as demandas não foram ouvidas.
À época da inauguração, a Prefeitura de Vitória da Conquista informou que o equipamento custou mais de R$580 mil, oriundos do Fundo de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Na gestão do então prefeito Herzem Gusmão, a administração do espaço foi atribuída à Escola Municipal Anísio Teixeira, que funciona ao lado da quadra. O Conquista Repórter solicitou posicionamento da Smed sobre o abandono da quadra, mas não obteve respostas até o fechamento desta matéria.
Enquanto a resposta do Poder Público é o silêncio, grupos como o Capoeira Pelourinho da Bahia, que proporcionam educação, lazer e cultura, principalmente para crianças e jovens da comunidade, resistem apesar da falta de apoio do município. Micaele, que nasceu e cresceu no Jardim Valéria, conta que eles mesmos já chegaram a instalar lâmpadas na quadra e limpar o mato que se acumula ao redor.
Sem o envolvimento da Secretaria Municipal de Educação, os capoeiristas dependem da direção da escola para conseguir autorização de uso do espaço. “A gente já conversou com diretor, diretora. Mas é só trocar a direção que encerra o apoio. Não tem palavra com a gente. E também já mandamos vários ofícios, inclusive com abaixo-assinado, para a Prefeitura”, explica.

Micaele começou ainda criança na capoeira e hoje o seu filho de 9 anos também integra o grupo do Jardim Valéria. Foto: Mariana Lacerda.
“A capoeira vem para educar”
Desde 2024, o grupo Capoeira Pelourinho da Bahia realiza atividades no Jardim Valéria, ensinando especialmente crianças sobre disciplina, respeito e resistência. Mas, apesar disso, para o professor Lucas Silva, conhecido como Mestre Graúna, ainda há uma visão equivocada sobre essa expressão cultural.
“Quando a gente pede o espaço, eles falam que não vamos ter cuidado, que a escola vai estar exposta e vai dar marginal, que qualquer um vai entrar, fazer bagunça e roubar. Mas é o oposto disso, porque a capoeira vem para educar”, destaca o professor. “A gente conversa, tem diálogos com os alunos, só que as escolas não abraçam a capoeira, só quando precisam da gente para datas comemorativas”, complementa.

Sem condições de utilizar a quadra poliesportiva, o grupo de capoeira está se reunindo na rua. Foto: Mariana Lacerda.
Segundo Lucas, a justificativa utilizada pelas escolas para não ceder o espaço é a falta de vigias, já que a segurança das unidades é feita por câmeras de monitoramento. O grupo só conseguiu treinar no pátio da Escola Municipal Professora Edivanda Maria Teixeira, também localizada no Jardim Valéria, quando ainda havia um profissional contratado para vigiar o prédio.
Sem a autorização para o uso da quadra poliesportiva ou do pátio de outras escolas do loteamento, os capoeiristas realizam as aulas na rua, onde ficam expostos ao sol e à chuva. “Estamos treinando em um passeio público. Queria que a prefeita olhasse mais para esse bairro, para as nossas crianças. Não precisamos só de escola, mas também de atividades como a capoeira que acolhe e educa”, desabafa Micaele Silva. “Eu quero ser professora e um dia levar o meu grupo para outros lugares”, finaliza.
Foto de capa: Afonso Ribas
*A matéria é resultado do 1º ciclo da Escola Conquista Repórter de Jornalismo, que visitou quatro bairros periféricos de Vitória da Conquista: Vila Elisa, Cruzeiro, Jardim Valéria e Senhorinha Cairo.
*Esta matéria foi publicada originalmente pelo Conquista Repórter