Com um ofício nas mãos: a parceria inédita entre a Abapa e a reabilitação de dependentes químicos no oeste baiano

Como uma parceria inédita entre o Centro de Treinamento e Tecnologia da Abapa e projetos de reabilitação transforma um curso técnico em ponte para a reinserção social em Luís Eduardo Magalhães. 28 de agosto de 2026 < Vivian Costa

Com as mãos trêmulas, postura acuada e um olhar atento, Nelson Ribeiro, de 45 anos, observa os colegas operarem uma empilhadeira, carregando paletes de madeira e seguindo o caminho delimitado por cones em um grande galpão. As empilhadeiras saem, completam o trajeto e retornam para o mesmo lugar. A observação de Nelson é minuciosa. Logo será a sua vez. Ele está prestes a fazer a avaliação prática final do curso de operação e manutenção de empilhadeira, oferecido pelo Centro de Treinamento e Tecnologia da Abapa (Associação Baiana dos Produtores de Algodão) em Luís Eduardo Magalhães. O olhar de Nelson carrega uma ambiguidade: o peso do passado e a esperança no futuro. O curso, para ele, é uma nova oportunidade de reconstruir a vida. “Para a minha vida, tá sendo um recomeço”, diz Nelson.

Nelson está em reabilitação da dependência do álcool no Centro de Recuperação Semear, instituição de base religiosa evangélica que atua no apoio, na prevenção e na reabilitação de homens em situação de vulnerabilidade devido ao uso de substâncias químicas e álcool. 

Depois de 33 anos convivendo com o vício, Nelson destaca a dificuldade que o alcoolismo impôs à sua vida: “Eu venho de muitos anos de alcoolismo, né? Praticamente desde os meus 12 anos até há 2 meses atrás, no álcool. Perdi meu orgulho próprio, perdi minha credibilidade ao ponto de morar na rua”, conta Nelson. 

Nelson Rodrigues Foto: Vivian Costa

Nelson relata as dificuldades que enfrentou em seus anos de dependência, principalmente as familiares: separou-se da esposa e perdeu contato com os filhos. Morando na rua, longe da família e dependente do álcool, ele se via sem esperanças de um futuro próspero. Essa realidade começou a mudar quando sua mãe conheceu o pastor Alírio, um dos coordenadores do Centro de Recuperação Semear. Foi por meio dela que Nelson conseguiu um encaminhamento e saiu de Goiânia para Luís Eduardo Magalhães para iniciar o tratamento de reabilitação. Foi também por meio de uma parceria entre o Centro de Treinamento e Tecnologia da Abapa e o Projeto Semear que Nelson foi encaminhado para o curso de operação e manutenção de empilhadeira que tem duração de três dias corridos, com carga horária de cerca de 26 horas, reunindo conteúdo teórico e prática de operação supervisionada.

Um olhar que não julga 

Marcelo Santos de Jesus, obreiro do Projeto Semear, Marcelo Santos de Jesus acompanha os alunos do projeto nos cursos. Ele destaca o valor dos cursos técnicos profissionalizantes oferecidos pelo Centro de Treinamento da Abapa durante o tratamento de reabilitação: “É bastante importante, com certeza. Porque essa parceria, o Projeto e a Abapa aqui, ela é muito importante. Porque, quando eles vêm, eles não veem mais um julgamento, né? Eles veem uma oportunidade, que a pessoa tá acreditando no potencial dele, né?”, diz Marcelo. 

Marcelo Santos de Jesus Foto: Vivian Costa

Edmo Mendes, psicólogo do CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) em Luís Eduardo Magalhães. Responsável pelo tratamento psicológico dos acolhidos do projeto Semear, enfatiza a relevância de uma profissionalização para o fortalecimento da reabilitação psicossocial e a reinserção deles no mercado de trabalho: “A proposta do cuidado em saúde mental e da atenção psicossocial ela se dá também mediante o processo de eles se sentirem pertencentes à sociedade, de terem acesso à garantia de direitos, e isso também está na vinculação, na articulação com a área do trabalho aqui com a Abapa.” Edmo Mendes ressalta que o acompanhamento psicológico é fundamental no processo de reabilitação e como as oportunidades podem fazer a diferença na vida deles: “Inclusive, nós estamos muito felizes, né, com o feedback deles, a devolutiva. Eles estão bastante empolgados com essa oportunidade que estão tendo, né, de poder desenvolver habilidades motoras, psicossociais, profissionais e também de buscar encontrar essa potência que existe dentro deles.”

Edmo Mendes Foto:Vivian Costa

Outra chance, outro caminho 

Outro projeto atendido pelo curso oferecido pelo Centro de Treinamento é o Cristolândia, programa que atua na reabilitação e ressocialização de pessoas em situação de rua e dependência química. 

Renner Wesley Santos, missionário do Projeto Cristolândia e técnico em Agronegócio, destaca a relevância que uma profissionalização pode trazer para os acolhidos do projeto: “Você percebe até na fisionomia o ânimo de participarem, de estarem ali para agregar alguma coisa, conhecer pessoas, tirar dúvidas sobre o conhecimento, ainda mais um conhecimento tão rico na nossa área, no caso. Eles vêem isso também como uma oportunidade: poxa, então alguém tá enxergando potencial em mim, alguém tá me vendo, né? Alguém tá investindo em mim.”  

 

Renner Wesley Santos Foto:Vivian Costa

 

Henrique Gomes Foto:Vivian Costa

Henrique Gomes, de 44 anos, natural de Londrina, no Paraná, está se reabilitando no Projeto Cristolândia e também faz o curso de operação e manutenção de empilhadeira no Centro de Treinamento da Abapa. Ele demonstra animação para trabalhar na área do agronegócio: “É algo muito forte aqui na cidade, né? É um aprendizado novo, vai agregar na minha vida e é uma área boa”, relata Henrique. Para ele, o Centro de Treinamento é indispensável para Luís Eduardo Magalhães, dada a importância do agronegócio na região. 

Uma parceria sem precedentes

A parceria entre o Centro de Treinamento e Tecnologia da Abapa e os projetos Cristolândia e Semear é inédita e, além de oferecer uma nova oportunidade de vida a quem passa por ela, supre uma demanda real do perfil econômico de Luís Eduardo Magalhães: mão de obra qualificada no setor da cotonicultura na região. 

A Bahia é o segundo maior produtor nacional de algodão desde a safra 2003/2004, atrás apenas do Mato Grosso, com cerca de 413 mil hectares plantados na safra 2025/2026, segundo dados da Abapa. É no oeste baiano que essa produção se destaca: Luís Eduardo Magalhães é um dos maiores polos da cotonicultura no Brasil. 

A Abapa (Associação Baiana dos Produtores de Algodão), fundada no ano 2000 para organizar e representar os produtores de algodão do Oeste da Bahia, tem sede em Barreiras e filiais em Luís Eduardo Magalhães e Correntina, e é reconhecida como entidade de utilidade pública pela Assembleia Legislativa da Bahia. A associação possui programas que impulsionam a pesquisa, a inovação, a sustentabilidade e a capacitação no setor agrícola. 

Uma das frentes da associação é o Centro de Treinamento e Tecnologia, criado para suprir a demanda de mão de obra, capacitando produtores e equipes em manejo, sustentabilidade e boas práticas agrícolas, com foco também em uma oferta inclusiva na capacitação de mulheres nos cursos e treinamentos. Entre 2010 e 2026, o centro já capacitou 161 mil pessoas em 6,4 mil cursos e eventos, segundo dados da Abapa. 

Centro de Treinamento e Tecnologia da Abapa Foto:Vivian Costa

O Centro de Treinamento e Tecnologia da Abapa oferece cursos e treinamentos voltados para o ramo agrícola, como Mecanização Agrícola, Movimentação de Cargas, Transporte Rodoviário, Aviação Agrícola, Irrigação, Educação Continuada, Contábil, Jurídica e NRs de Saúde e Segurança do Trabalho, entre outros. Conta com o respaldo de empresas parceiras do agro, fornecedoras de tecnologia, e de instituições educacionais como o Senai e o Senar, fortalecendo a mão de obra da cidade e da região, sobretudo nos setores da cotonicultura e da agricultura, com inovação e tecnologia. 

“Hoje nós temos aqui o projeto social chamado Cristolândia e o Semear, onde tem pessoas que são dependentes químicos, de bebida alcoólica, de drogas. Esses adultos buscam esse local para voltar novamente para a sociedade, e esse local busca ressocializar de uma forma diferente, treinando, capacitando e dando dignidade para essas pessoas. Muitos daqueles homens vão ter uma profissão nova, a operação de uma máquina. Quando ele voltar para a sociedade, ele não volta mais como um indigente”, ressalta Deibi Soares, coordenador administrativo do Centro de Treinamento. 

Deibi Soares Foto:Vivian Costa

Diego Barros, instrutor técnico do curso de operação e manutenção de empilhadeira no Centro de Treinamento da Abapa, lembra também da importância do curso para garantir a segurança do trabalho e do trabalhador: “Na verdade, a gente traz muito mais segurança ao campo, né? A gente tem aí diversas profissões que surgem todos os dias, né? E em todas elas existem riscos. E a gente tenta mitigar isso, tenta trazer um pouco de conhecimento teórico e prático a fim de habilitar o profissional, né? Fazer com que ele entenda a complexibilidade de operar uma máquina agrícola e ele conseguir compilar o conhecimento teórico e prático”, afirma Diego. Ele ressalta ainda o papel da qualificação de mão de obra local, favorecendo a economia da região: “A gente tem o intuito de capacitar mão de obra local para que, quando o produtor precisar disso, ele consiga, obviamente, só esticar o braço e ter uma mão de obra qualificada dentro do seu raio de trabalho”, explica Diego. 

Diego Barros Foto:Vivian Costa

Além de Luís Eduardo Magalhães, o Centro de Treinamento e Tecnologia da Abapa também leva os cursos para outros locais, como Rosário, distrito de Correntina, onde fica uma filial física da Abapa, suprindo uma demanda urgente de mão de obra em um dos maiores polos de produção de grãos e fibras do sudeste baiano. 

Além disso, por meio do Centro de Treinamento e Tecnologia, a Abapa também mantém outros projetos, como o Conhecendo o Agro, iniciativa que leva o conhecimento agrícola e do agronegócio para as escolas públicas da Bahia.

Execução da prova avaliação final Foto:Vivian Costa

 Agora, emocionado com a aprovação na avaliação final do curso de operação e manutenção de empilhadeira oferecido pelo Centro de Treinamento e Tecnologia da Abapa, Nelson Ribeiro se permite sentir a felicidade de uma vida toda. Ele afirma querer fincar raízes em Luís Eduardo Magalhães, formar família e utilizar o diploma técnico conquistado no Centro de Treinamento. “Aprender nunca vai ser um desperdício”, afirma Nelson. 

*Reportagem produzida para a 6ª edição do Prêmio ABAPA de Jornalismo pelo estudante Elival Santos, do 6º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.