Como a indústria do algodão no Oeste Baiano contribui para a empregabilidade e permanência de mulheres no mercado de trabalho
Entre o campo, as máquinas e a gestão, mulheres ampliam sua participação na cadeia produtiva do algodão no Oeste da Bahia, ainda marcada pela predominância masculina 29 de agosto de 2026 < Estela de Assis e Rebecca Di Pardi*O Brasil ocupa o terceiro lugar no ranking de maior produtor mundial de algodão, e Luís Eduardo Magalhães é a cidade que está à frente da economia do Oeste Baiano, de acordo com a Revista Veja Negócios. Por trás desse trabalho, estão mulheres em cargos superiores, administrativos, maquinários, e onde tudo se inicia: no campo.
Na gestão, Isabel da Cunha foi a primeira mulher a presidir a Abapa, em seguida, por meio de uma eleição, Alessandra Zanotto Costa assumiu a gestão para os biênios 2025/2026, consolidando a segunda geração da família de cotonicultores na liderança. Atualmente seis mulheres integram a diretoria da entidade, incluindo nomes como Alessandra Zanotto Costa, Patrícia Kyoko Portolese Morinaga, Ana Paula Franciosi, Elisa Zancanaro Zanella, Liliana de Oliveira Zempulski e Isabel da Cunha.
A partir de 2021, a Abapa passou a formar turmas de treinamento focadas em mulheres, onde elas teriam a oportunidade de serem preparadas para atuar em diferentes tipos de funções da produção agrícola, inclusive, áreas tradicionalmente ocupadas em sua maioria por homens, como maquinários, por exemplo. No total, desde então, foram criadas 15 turmas, nas quais mais de 160 mulheres tiveram a oportunidade de aprendizagem. De 2010 até 2025, mais de três mil mulheres foram beneficiadas por alguns dos projetos da Abapa.
De acordo com Ana Paula Franciosi, no ano passado, em 2025, o grupo possuía uma colheitadeira de algodão, e a importância dessa iniciativa é voltada tanto para levar a figura feminina para esse cenário, quanto para inspirar outras mulheres a ocupar esse espaço.
“Usando esse caso em específico, da gente ter uma operadora pela primeira vez dentro do grupo, trabalhando numa colheitadeira de algodão, o nosso papel é pegar essa situação e usar como exemplo e replicar em outras fazendas e para o restante do nosso escritório. Para mostrar que é um ambiente seguro, que é um ambiente em que ela pode se sentir confortável, que ela pode buscar a profissionalização”, explica.
Além disso, a importância da presença feminina vai muito mais além do escritório e até mesmo do campo. Um exemplo disso é a soteropolitana Maria Carolina Jesus da Silva, de 28 anos, que em busca de melhores oportunidades, acompanhou o pai que trabalhava em Luís Eduardo Magalhães desde 2018. Hoje, ela faz estágio de treinamento no cargo de operador.

Maria carolina de Jesus, estagiária em treinamento.
Maria Carolina relata a surpresa ao descobrir as possibilidades a partir do algodão, que hoje garante alimentos de animais, roupas, papel-moeda, itens hospitalares, e produtos derivados da semente. “Nunca imaginei, mas eu pesquisei um pouco e é possível fazer muita coisa. Principalmente papel para fazer dinheiro. Nunca imaginei mesmo.
- Subprodutos do algodão.
- Subprodutos do algodão.
- Subprodutos do algodão.
- Subprodutos do algodão.
Busca pela Equidade
A trajetória de Isabel da Cunha ajuda a ilustrar esse caminho dentro da Abapa. Ela nasceu em Tapera, no Rio Grande do Sul, e cresceu vendo o pai trabalhar na lavoura. Em 1983, mudou-se com a família para a Bahia e ajudou a construir a Fazenda Marechal Rondon, no Oeste baiano. Durante os anos 2000, participou da primeira reunião da instituição da Abapa, e em 2002, foi eleita tesoureira, tornando-se a primeira mulher a integrar a diretoria da associação.

Isabel da Cunha – Atualmente presidente da Associação dos Produtores de Algodão do Tocantins (Apratins).
O avanço feminino conquistado neste espaço ainda é um processo gradual. Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), nas fazendas certificadas pelo programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR), na safra de 2023 e 2024, dos 41 mil empregos diretos gerados pela produção, apenas 4.891 foram ocupados por mulheres, pouco menos de 10% do total.
Nos setores seguintes, como a indústria têxtil e de confecção, a realidade é diferente. No Brasil, cerca de 1,3 milhão de pessoas trabalham formalmente nesses setores, e 60 % delas são mulheres.
Para a presidente da Abapa, Alessandra Zanotto Costa, essa mudança também fez parte da própria trajetória. Filha de um produtor rural sem herdeiros homens, ela precisou conquistar espaço dentro do negócio da família. “Convencer meu pai a considerar minha opinião na decisão final custou energia” , contou.

Alessandra Zanotto – Presidente da Assosiação Baiana dos Produtores de Algodão.
Sobre o futuro do setor, Alessandra afirma pragmática : “Um dia não precisaremos falar de equidade, pois a questão estará superada.” Alessandra defende que a ampliação da capacitação e oportunidades segue como um dos desafios para a participação feminina na cadeia do algodão.
*Reportagem produzida para a 6ª edição do Prêmio ABAPA de Jornalismo pelas estudantes Estela de Assis e Rebecca Di Pardi, do 4º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.



