Corpo e mente em movimento: os benefícios das artes marciais em Vitória da Conquista
Muay Thai e Jiu-Jitsu reúnem praticantes de diferentes idades e se destacam pelos impactos positivos na saúde física e emocional 9 de junho de 2026 Pedro CarvalhoEm Vitória da Conquista, o Muay Thai e o Jiu-Jitsu têm conquistado espaço entre pessoas que buscam atividades físicas capazes de combinar condicionamento corporal, disciplina e bem-estar. Inseridas em um mercado fitness que reúne mais de 250 estabelecimentos voltados à saúde e ao esporte, as artes marciais fazem parte de um conjunto de modalidades cada vez mais procuradas.
O Campeão Brasileiro de Muay Thai em sua categoria é o conquistense Renato Costa Santos, que venceu no dia 23 de maio, em Bragança Paulista, São Paulo. Ele representou a Seleção Baiana no torneio nacional e garantiu uma vaga para disputar o Mundial em Abu Dhabi. Com isso, o conquistense passa a integrar oficialmente a Seleção Brasileira de Muay Thai e demonstra o quanto a modalidade tem força na cidade.
De acordo com a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu (CBJJ), e a Confederação Brasileira de Muaythai Tradicional (CBMTT)CBMTT, o crescimento das duas modalidades está relacionado não apenas ao desempenho esportivo, mas também aos benefícios sociais, educacionais e na saúde mental e física dos praticantes.
As academias Amauri Robson e JiuThai consolidam sua relevância local ao alcançarem, juntas, cerca de 400 alunos matriculados. O perfil dos frequentadores destaca-se pelo forte apelo geracional, sendo composto majoritariamente por jovens que buscam no treinamento a integração e entre disciplina, bem-estar e qualidade de vida.
- Academia Amauri Robson. Foto: Pedro Carvalho
- Academia JiuThai. Foto: Pedro Carvalho
O Muay Thai e o Jiu-Jitsu têm origens distintas, mas compartilham uma trajetória marcada por adaptações culturais e pela transformação de técnicas de combate em práticas esportivas e educacionais. A principal característica da primeira modalidade é o uso de técnicas de alavanca, imobilização e estrangulamento que permitem a um praticante neutralizar adversários fisicamente mais fortes. Já a segunda é conhecida como “a arte das oito armas”, o esporte utiliza punhos, cotovelos, joelhos e canelas durante os combates.
Para o lutador Iago Rocha, praticante há 16 anos, da Academia Jiuthai, o Muay Thai tem contribuído para que ele tenha mais controle emocional. “O treino é a minha válvula de escape para descarregar meu estresse. É um momento de desconectar e conectar mais com minha mente e com meu corpo”, explica. Dessa forma, ele acredita que consegue liberar o estresse da vida cotidiana e viver de uma maneira mais leve.
Ele ainda atribui aos treinos o desenvolvimento de uma maior resiliência na prática da atividade. “A luta em si é difícil e quando você toma um soco, você aprende a lidar com o soco”. Para ele, esse aprendizado se reflete fora do tatame, já que “quando a vida traz adversidades, você se lembra da arte marcial e encara o treino como um momento para superar as dificuldades”.
Já Igor Rocha, que também pratica há 16 anos e é atleta da Academia Jiuthai, salienta que o impacto da modalidade é tanto na saúde física como mental. “Ajuda a desenvolver um domínio sobre a sua mente”, afirma. “O treino prepara o praticante para situações de caos e desconforto, permitindo tomar decisões melhores e mais rápidas e até ficar confortável num ambiente desconfortável.”

Igor Rocha, atleta de Muay Thai: o tatame é o maior professor que você pode ter, pois vai ter um dia ruim, você vai apanhar, você vai sentir a derrota, mas em vez de se frustrar, você vai aprender a lidar com isso”. Foto: Arquivo pessoal
Para ele, o aprendizado vai além da técnica: “o tatame é o maior professor que você pode ter, pois vai ter um dia ruim, você vai apanhar, você vai sentir a derrota, mas em vez de se frustrar, você vai aprender a lidar com isso”. Essa experiência ajuda também fora do esporte, como ao “cometer um erro no trabalho ou ir mal em alguma prova”, ensinando o praticante a reagir melhor às dificuldades”.
A mesma experiência de mais autocontrole e saúde mental é vivida por Luis Augusto, praticante a 8 anos, da Academia Jiuthai: Ele conta que a a arte marcial trouxe o que nomeia de “ansiedade boa”, que está ligada à motivação para evoluir. “Com uma instrução certa, eu aprendi a lidar com essa ansiedade. Quando você aprende a controlar a ansiedade dentro da arte marcial, você aprende a controlar fora também”, enfatiza.
Luis Augusto também relata que seus problemas de autoconfiança foram superados com a atividade ao longo do tempo. “Consegui isso treinando, me frustrando, caindo e levantando. A partir disso, comecei a ver valor em mim.”
Outro ponto destacado pelos atletas é a influência da arte marcial na organização da vida cotidiana. A rotina de treinos exige disciplina, constância e comprometimento, o que se reflete diretamente na gestão do tempo e das responsabilidades. De acordo com Luis Augusto, a arte marcial ensinou disciplina e que cada coisa tem seu tempo. “Não vou aprender uma técnica da noite para o dia. Aprendi a ter muito mais planejamento e a me organizar para fazer as coisas”, disse.
No jiu-jitsu, não é diferente, os benefícios seguem a mesma linha do Muay-Thai. O atleta Pablo Bastos, há 7 anos na modalidade, atualmente na Academia Amauri Robson, enfatiza o quanto a prática o tem ajudado na organização pessoal. “A gente entende o propósito fora do tatame.”
Sobre derrotas, ele traz uma reflexão: “às vezes eu não perdi para o meu adversário, eu perdi para mim mesmo.” Ainda assim, valoriza o processo: “eu já fui campeão só de estar ali dentro. A missão é continuar e saber que a gente é vencedor só de estar lutando”.

João Pedro Viana, atleta de Jiu-Jitsu: “esporte é bom, mas é a arte marcial que salva. Não é sobre lutar, é sobre ter opinião e atitude”. Foto: Arquivo pessoal
Para os mestres de Jiu Jitsu da academia Amauri Robson, Amauri Robson, com 30 anos de prática, e João Pedro Vieira, 13 anos, o impacto das artes marciais vai além do desempenho esportivo. Para eles, o autocontrole e a autoconfiança são os pilares do jiu-jitsu, os quais contribuem para o controle da ansiedade e das situações difíceis da vida. João ainda chama para “controle de ego” e a melhora do convívio social do praticante da modalidade, e Amauri para o fato de que “esporte é bom, mas é a arte marcial que salva. Não é sobre lutar, é sobre ter opinião e atitude”.
Os mestres enaltecem o quanto “o jiu-jitsu revela as pessoas”, ajudando no autoconhecimento e no desenvolvimento da confiança tanto em homens quanto em mulheres. Robson Viana, há 20 anos na atividade, complementa o que a prática proporciona “mais calma, autoconfiança e bem-estar”.
Disciplina e organização pessoal
Outro ponto destacado pelos atletas é a influência da arte marcial na organização da vida cotidiana. A rotina de treinos exige disciplina, constância e comprometimento, o que se reflete diretamente na gestão do tempo e das responsabilidades.
O atleta Luis Augusto, da Academia Jiuthai, afirma que “a arte marcial me ensinou disciplina e que cada coisa tem seu tempo, não vou aprender uma técnica da noite para o dia”. Segundo ele, esse aprendizado se aplica à vida: “a vida real fora da arte marcial é do mesmo jeito”. Ele também destaca que “aprendi a ter muito mais planejamento e a me organizar para fazer as coisas”.
Além disso, Luis aponta o impacto no controle emocional, afirmando que “a arte marcial traz uma ansiedade boa”, ligada à motivação para evoluir. Com o tempo, ele aprendeu a lidar com isso: “com uma instrução certa eu aprendi a lidar com essa ansiedade”. Para ele, o maior aprendizado é que “quando você aprende a controlar a ansiedade dentro da arte marcial, você aprende a controlar fora também”.
A prática também tem impacto direto na autoestima. Luis Augusto relata que “sempre fui um cara com muitos problemas de autoconfiança”, mas que, ao longo do tempo, “treinando, me frustrando, caindo e levantando”, passou a perceber seu próprio valor: “comecei a ver valor em mim mesmo”.
Ele reforça que essa transformação impactou todas as áreas da sua vida: “Se hoje eu sou um bom artista marcial, um bom professor, uma boa pessoa, foi por causa da arte marcial”. Além disso, destaca o controle emocional aprendido: “deixo a raiva nos meus punhos, mas nunca na minha cabeça”. Para ele, até as dificuldades têm valor: “quando eu levo um golpe, eu me sinto vivo”, entendendo que “o sofrimento é uma parte necessária”.
Artes marciais não incentivam a violência
Contrariando o senso comum, os mestres são unânimes ao afirmar que as artes marciais não tornam as pessoas mais agressivas. Pelo contrário, o mestre Amauri Robson disse: “A arte marcial não deixa ninguém mais violento, ela deixa a pessoa mais calma e controlada.”

Amauri Robson, mestre de Jiu-Jitsu: “a arte marcial nos dá o domínio da nossa força para que a gente não precise ser violento”
Segundo os mestres João Pedro, Amauri Robson e Robson Viana, o treino exige disciplina e controle, já que o praticante aprende que “não pode usar sua força de forma desnecessária”. Dessa forma, o aprendizado se reflete fora do tatame, tornando o indivíduo mais equilibrado no trânsito, no trabalho e nas relações pessoais.
Como resume um dos mestres, “a arte marcial nos dá o domínio da nossa força para que a gente não precise ser violento”, evidenciando que o verdadeiro objetivo da prática é o desenvolvimento do autocontrole e da consciência.
Histórico e evolução das duas artes marciais no Brasil
O Jiu-Jitsu tem origem nas antigas artes marciais japonesas e chegou ao Brasil no início do século XX por meio do mestre japonês Mitsuyo Maeda. Segundo a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu (CBJJ), Maeda estabeleceu-se em Belém do Pará, onde ensinou a modalidade a Carlos Gracie, que, juntamente com seus irmãos, desenvolveu adaptações técnicas que deram origem ao chamado Jiu-Jitsu Brasileiro.
Ao longo do século XX, o esporte se expandiu para diferentes regiões do país e ganhou projeção internacional por meio de atletas brasileiros que se destacaram em competições de artes marciais e lutas de contato. Carlos Gracie é considerado o criador de uma dinastia, segundo jornais cariocas do início do século XX, no que se refere ao estabelecimento e disseminação do jiu-jítsu e dos combates intermodalidades no Brasil, em especial na cidade do Rio de Janeiro.
Já o Muay Thai surgiu na Tailândia há centenas de anos como uma técnica de combate utilizada por guerreiros siameses.. No Brasil, sua difusão ocorreu principalmente a partir da década de 1970, com o trabalho do mestre Nélio Naja, considerado um dos pioneiros da modalidade no país, conforme registros da Confederação Brasileira de Muaythai Tradicional (CBMTT).
Inicialmente restrito a pequenos grupos de praticantes, o Muay Thai cresceu rapidamente e passou a ocupar espaço em academias de todo o país. Além das competições, a modalidade tornou-se uma alternativa para quem busca condicionamento físico, disciplina e bem-estar.
Hoje, de acordo com CBJJ e a CBMTT, o Brasil é considerado uma das principais referências mundiais nas duas modalidades. Enquanto o Jiu-Jitsu Brasileiro tornou-se um fenômeno internacional, com atletas e academias espalhados pelos cinco continentes, o Muay Thai consolidou-se como uma das lutas mais populares do país. Mais do que esportes, ambas as práticas representam trajetórias históricas que conectam tradição, cultura e transformação social.
*Essa reportagem faz parte da série Narrativas Afetuosas, produzida na disciplina Jornalismo na Internet II, durante o período especial, por alunos do 8º semestre do curso de Jornalismo da Uesb.

