Descarte irregular de lixo e falta de fiscalização agravam risco de incêndios em Conquista
Entre julho e setembro, foram registrados 309 incêndios no município, segundo o 7º Batalhão de Bombeiros Militar. No mesmo período de 2025, foram contabilizados 189 casos 3 de novembro de 2026 < Maria Luiza AndradeEntre julho e setembro, em Vitória da Conquista, foram registrados 309 incêndios, segundo o major Florinato Sertão, do 7º Batalhão de Bombeiros Militar. Um deles ocorreu na noite de 6 de setembro, no bairro Patagônia, na Rua Tupinambás, por volta das 22h. Fabiano Bernardo Soares havia colocado o filho de um ano e três meses para dormir quando percebeu a fumaça que entrava pelas janelas. O fogo atingiu a vegetação e resíduos acumulados no local, próximo a uma garagem de ônibus.
“Estava um cheiro muito forte que atrapalhou meu filho a dormir”, conta. Naquela noite, segundo o morador, o Corpo de Bombeiros foi acionado, mas não compareceu ao local. Fabiano e outros vizinhos então saíram de suas casas para tentar conter o fogo, que só foi controlado às 23h45.
“Os bombeiros não vieram e a fumaça estava incomodando bastante, então a gente resolveu apagar da forma que podíamos, com baldes de água”, explica o advogado e responsável pelo projeto de educação ambiental Arboriza Conquista, Alex Berriel.
Em nota ao Site Avoador, a corporação informou que, no momento do chamado, as equipes do 7º Batalhão estavam ocupadas em outras áreas da cidade. “Naquele período, havia elevada demanda por ocorrências de incêndio em vegetação. Os recursos foram direcionados conforme a prioridade”, destaca o comunicado.
No mês de setembro, também foram registrados incêndios em um depósito no bairro Espírito Santo, no dia 4, em um terreno baldio no Candeias, no dia 18, além de ocorrências no Bruno Bacelar, Nossa Senhora Aparecida e Petrópolis.
Uma pesquisa desenvolvida por Núbia Rodrigues Cardoso, no Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGEO) da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), aponta que setembro e outubro costumam ser os meses com maior frequência de incêndios. Isso ocorre devido à estação seca do período, caracterizada por alta amplitude térmica e baixa umidade do ar, condições que tornam a vegetação mais vulnerável à propagação do fogo.
Outro fator relacionado aos incêndios é a junção entre a presença de vegetação em áreas não ocupadas e o descarte irregular de resíduos, de acordo com o professor do curso de Geografia da Uesb, Arthur José Pires. Esse cenário se agrava pela ação humana, muitas vezes com incêndios provocados com a finalidade de limpeza de terrenos baldios.
Segundo Alex Berriel, antes do incêndio no bairro Patagônia, o Arboriza Conquista já havia solicitado à Prefeitura limpeza e fiscalização de terrenos baldios na região. “É um local que tem descarte recorrente, então ficar só recolhendo não atua na causa do problema, só na consequência”, avalia o advogado. O Site Avoador buscou posicionamento do governo municipal, mas não recebeu respostas até a publicação desta reportagem.
Incêndios aumentam 63% entre 2025 e 2026
Enquanto o município registrou 309 incêndios entre julho e setembro de 2026, no mesmo período de 2025, foram contabilizados 189 casos, um aumento de aproximadamente 63%, de acordo com informações do major Florinato Sertão. Os bairros Boa Vista e Felícia, que abrangem localidades como Morada dos Pássaros, Jardim Guanabara e Ipanema, estão entre as áreas mais afetadas neste ano.
Os dados de 2026 apontam a recorrência de incêndios em bairros em processo de crescimento, com áreas de vegetação desocupadas. Boa Vista e Felícia também são citados na pesquisa de Núbia Rodrigues, que analisou os incêndios no município entre 2013 e 2023. No período, o 7º Batalhão de Bombeiros registrou 3.865 ocorrências na área urbana, das quais 2.084 foram em vegetação, mais da metade do total.
O estudo identificou maior frequência de queimadas em bairros periféricos e áreas de expansão urbana, com destaque para Primavera, Zabelê, Lagoa das Flores, Candeias, Boa Vista, Recreio e Felícia. Entre as causas recorrentes apontadas estão a queima de lixo, de restos de vegetação após roçagens e o uso do fogo para limpar terrenos e preparar áreas para loteamentos.

“O período com mais incêndios é o período com o menor índice pluviométrico.”, afirma o professor Arthur José Pires
Para o professor Arthur José Pires, o problema dos incêndios nesses locais está relacionado à expansão urbana. “Com o passar do tempo, algumas áreas permaneceram desocupadas e foram novamente cobertas pela vegetação. Esses espaços, conhecidos como vazios urbanos, podem se tornar pontos de descarte irregular e de ocorrência de incêndios.”
As condições climáticas também podem acelerar a propagação das chamas. O pesquisador explica que a concentração das chuvas em determinados meses contribui para esse cenário. “O período com mais incêndios é o período com o menor índice pluviométrico. É uma condição natural da nossa tipologia climática. A gente tem chuvas concentradas no verão, a partir de novembro.”
Educação ambiental e fiscalização
A prevenção de incêndios em áreas urbanas depende de cuidados com os terrenos, descarte adequado de resíduos e conscientização ambiental. “Cabe à prefeitura fazer a limpeza desses locais e fiscalizar, além de trabalhar a educação ambiental naquela população que está no entorno”, explica o professor Arthur José Pires.
A pesquisa de Núbia Rodrigues também aponta a necessidade de campanhas educativas sobre o uso seguro do fogo e os riscos à saúde respiratória e à segurança coletiva. O estudo destaca que a fiscalização insuficiente em terrenos não edificados pode favorecer a reincidência de queimadas e ressalta a importância de medidas integradas entre o poder público e a sociedade.
Além da prevenção, é necessário saber como agir diante de um foco de incêndio. O major Florinato Sertão orienta que a população acione o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193, disponível 24 horas por dia, e informe o endereço, pontos de referência e o que está sendo ameaçado. Ele alerta que a população não deve terntar combater as chamas por conta própria. “Esse trabalho envolve treinamento, equipamentos específicos e de proteção individual”, explica.

O major Florinato Sertão orienta que a população acione o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193, disponível 24 horas por dia. Foto: Maria Luiza Andrade
A fiscalização e aplicação da legislação ambiental é outro mecanismo para evitar os incêndios. Em Conquista, o Código Municipal de Meio Ambiente (Lei nº 1.410/2007) estabelece que ilícito atear fogo a roçadas ou matas sem antes preparecer aceiros, como são chamadas faixas de terra para impedir a propagação de incêndios, ou sem aviso com no mínimo 24 horas de antecedência.
Além disso, a Lei de Crimes Ambientais prevê que provocar incêndio em floresta ou outras formas de vegetação configura crime ambiental, com pena prevista de dois a quatro anos de reclusão.
Para o professor Arthur José Pires, é preciso uma atuação conjunta entre governantes e população para combater o problema. “Precisamos unir três pilares: limpeza, fiscalização e educação ambiental”, finaliza.
Foto de capa: Arboriza Conquista